Francisco, Mandela e nós. Quem somos?

A pandemia obrigou-nos a olhar para dentro de casa e de nós, de um modo que raramente temos disponibilidade mental e tempo para fazer. Passámos a questionar-nos e até a desejar um "novo normal". Viver plenamente exige, porém, algo muito simples e complexo em simultâneo: "Seja quem é." Disse o papa Francisco.

Tal como o papa, Nelson Mandela é um exemplo de quem sabe quem é. Mesmo na prisão nunca perdeu o seu espírito e de lá saiu não amargurado mas sim determinado a seguir o seu propósito de vida. Tinha como certo quem era, para onde ia e com quem. Aos 72 anos, embarcou na sua mais importante missão, um exemplo de que nunca é tarde para acordar e agir. Com uma visão clara de uma África do Sul renovada, inspirou e motivou os seus compatriotas, mas também o mundo. Perante as dificuldades, soube semear esperança e entusiasmo, e fê-lo com forte carisma, coragem e autoconfiança.

É dessas competências pessoais e profissionais reforçadas que acredito que vamos precisar para enfrentar a crise provocada pela pandemia. Tal como Mandela, teremos muitas "pedras para partir" nesta espécie de prisão semidomiciliária, numa tentativa de conter o contágio sem matar a economia.

Mandela chegou a dizer: "Eu tinha medo de ser quem sou." É difícil imaginar uma figura inspiradora dizê-lo! Assumir medos, hesitações e sentir-se desafiado ou intimidado por uma missão de liderança faz parte de ser humano. Importante é reconhecer e ser quem é.

No livro A Liderança segundo Francisco, de Chris Lowney, e de que vos falei na semana passada, este ex-seminarista jesuíta, ex-diretor-geral na J.P. Morgan em três continentes e atual vice-presidente do conselho da CommonSpirit Health, refere que muitos homens e mulheres bem-sucedidos, em profissões muito exigentes, também sentem um pouco de medo. Na verdade, só não tem algum medo quem não faz a mínima ideia das suas fraquezas, não tem autoconhecimento e acaba por correr riscos de destruição da sua família ou empresa, tomando más decisões ou, simplesmente, fazendo escolhas idiotas, alerta o autor que é também conferencista nos temas da liderança.

A análise introspetiva pode ser incómoda. Mas agosto será o mês certo para a fazer. "Um impulso introspetivo acaba por libertar e fortalecer um líder. Dizer "tenho fraquezas, tenho qualidades e fui chamado a liderar" são convicções que criam uma tensão dinâmica que fortalece um líder saudável", explica.

Dá trabalho olhar para o nosso interior e redigir sobre isso até pode parecer esotérico para quem está mais habituada a escrever e a ler sobre economia. Contudo, a pertinência do tema na atual conjuntura merece estas linhas.

Sem boa liderança não haverá recuperação económica. Uma liderança política e empresarial firme, que atue pelo exemplo, será determinante para enfrentarmos o próximo ano. Há muito que os economistas deixaram de acreditar numa recuperação económica em V para Portugal. O V foi substituído por várias letras e uma delas é um U com uma base tão larga que assusta os players de todos os setores de atividade.

Quando a crise se agravar e for preciso ir buscar forças às entranhas ou à fé, se for o caso, lembre-se de que "toda a liderança começa na autoliderança, porque não se pode liderar os outros se não se conseguir liderar-se a si mesmo. Se não se esforçou por controlar as suas fraquezas e tornar-se a melhor versão de si, como poderá ser credível quando instigar os outros a serem melhores versões deles mesmos?", pergunta o autor.

Integridade, coragem, autenticidade, respeito por si e pelos outros são qualidades pessoais que, dominadas, o farão liderar com carácter. Lowney é perentório: "Já não podemos aceitar líderes que menosprezem a importância do carácter. É altura de os deixarmos para trás, já nos causaram demasiados problemas."

Jornalista

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