As Nações Unidas foram uma grande invenção

Marcelo Rebelo de Sousa tem dado a entender nestes seus dias nos Estados Unidos que defenderá "uma visão global" no discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Nova Iorque para a sua 76.ª sessão desde a fundação no final da Segunda Guerra Mundial. É a abordagem que se pode esperar do líder do país que fornece de momento o secretário-geral da organização, António Guterres, mas reflete também aquilo que é o posicionamento de Portugal em termos diplomáticos, um Estado defensor do diálogo entre nações e do multilateralismo nas relações internacionais.

Em teoria, esta sessão de 2021 deveria ser de consagração do multilateralismo, até porque a pandemia de covid-19 veio reforçar a certeza de que há crises que não se resolvem a nível nacional, nem pelos mais poderosos dos países. E a maior dessas crises continua a ser o aquecimento global, outro ponto inevitável da agenda para os 193 países representados na ONU. Pode ainda acrescentar-se como ponto de reforço da necessidade do multilateralismo a situação no Afeganistão, pois os interesses nacionais imediatos dos Estados Unidos, que decidiram retirar tropas totalmente ao fim de 20 anos de presença, acabaram por sobrepor-se às necessidades da população afegã, e mesmo às preocupações da comunidade internacional tanto com os direitos humanos como com o regresso do terrorismo sob proteção dos talibãs.

Será, aliás, interessante ver até que ponto Joe Biden se compromete com o multilateralismo enquanto presidente dos Estados Unidos, marcando de facto uma diferença para o seu antecessor, Donald Trump. Se sairmos das meras palavras, ainda está por perceber se Biden, em termos de política externa, não representa até uma certa continuidade com Trump: se já se sabia que tal aconteceria no que diz respeito à rivalidade com a China, as recentes decisões sobre o Afeganistão e o acordo de defesa com o Reino Unido e a Austrália mostram também que a NATO é importante para Washington mas os parceiros não são vistos exatamente como iguais, que o diga a França, que viu um contrato de venda de submarinos a Camberra ser ignorado e se zangou.

Outro discurso, ainda que via videoconferência, que marcará esta sessão da Assembleia Geral será o de Xi Jinping. A China, que se assume defensora do multilateralismo, sabe que desde os tempos de Barack Obama os Estados Unidos estão em competição aberta para evitarem ser ultrapassados pela superpotência emergente, e portanto tentará ganhar pontos em Nova Iorque, ainda mais quando o acordo entre Washington, Londres e Camberra permite de certa forma vitimizar-se perante uma assistência que tradicionalmente suspeita do Ocidente.

Cuidado, contudo, com a tentação de resumir a essência das Nações Unidas a estes jogos de poder, em que Portugal conta pouco e que deixam Guterres sem grande margem de manobra. Há uma realidade no terreno que vai muito além dos discursos na Assembleia Geral ou das discussões bizantinas no Conselho de Segurança. E essa realidade faz muitas vezes a diferença, seja quando se vacina contra a poliomielite, se constroem escolas, se alimenta as vítimas das secas ou se impede rivais de massacrar as populações do outro lado. As Nações Unidas foram uma grande invenção dos vencedores de 1945 e não se inventou ainda nada melhor para a substituir.

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