Verdade e esperança

Em 1637, num daqueles sermões, onde as palavras parecem destinadas a ficar gravadas em granito, escreveu o Padre António Viera: "[...] não é a justiça que depende da paz (como alguns tomam por escusa) senão a paz da justiça." A milenar luta pela dignidade humana confirma que existe uma hierarquia inegociável que faz da justiça a condição suficiente da paz. O contrário será sempre uma miragem de calmaria, antes da revolta.

Na presente e impetuosa segunda vaga da pandemia de covid-19, estamos a assistir à destruição da hierarquia não comutativa de uma outra dicotomia de valores, a saber o da verdade como condição suficiente da esperança. Perante o mar de incerteza e complexidade desta pandemia, e tendo em vista o incalculável dano que o seu impacto continuará a causar, a maioria dos governos, com algumas honrosas exceções, precipitam-se, imprudentemente, a alimentar um horizonte coletivo de esperança, relaxando o respeito pela primazia da verdade objetiva, que é o único chão onde a esperança pode lançar raízes. Vejamos três dimensões desta tese.

No seu desejo de regressar à "normalidade", os governos têm deixado no silêncio a origem ambiental profunda desta pandemia. A realidade, contudo, tem voz própria. A recente chacina na Dinamarca de 15 milhões de visons em cativeiro, para tentar evitar que uma mutação da covid-19 se pudesse transmitir às pessoas (já estão registados 200 casos), revela bem que esta pandemia parece ser o ponto de viragem do longo e cruel processo pelo qual a nossa civilização - ao decidir da vida ou da morte de habitats e espécies inteiras por mesquinhos critérios mercantis - eliminou todas as distâncias que nos protegiam de zoonoses virais, como o SARS-CoV-2. Se mantivermos este estilo de vida, poderemos até domesticar esta pandemia, mas seremos incapazes de prevenir as próximas.

Em segundo lugar, percebemos agora como o galopante risco de colapso do Serviço Nacional de Saúde foi antecedido por meses de subestimação da segunda vaga. À medida que os números desciam, a guarda foi baixando. A firmeza anterior do discurso oficial foi afrouxando até chegarmos a este elástico estado de emergência de geometria variável, onde as exceções tendem a exceder as regras...

Por último, a negligência com a verdade passou a linha vermelha do desnorte quando vemos os governos e uma parte da comunidade científica a serem figurantes nos sucessivos "golpes publicitários" (na expressão lúcida de António Vaz Carneiro) das grandes farmacêuticas, na sua competição sem disfarce pelo maior negócio do século: a vacina contra a covid-19. Até o Ministério da Saúde, que agora não consegue satisfazer a procura pela vacina da gripe, promete distribuir em janeiro vacinas que ainda não foram aprovadas!

Apostar tudo numa vacina é um erro temerário, que acabará por causar turbulência e frustração na sociedade. Em vez da disciplina da verdade, os governos rendem-se a ilusões. Quando as instituições vacilam, a esperança que resta contra esta pandemia depende cada vez mais da capacidade de cada um se proteger a si e aos outros.

Professor universitário

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