O caixote de Ventura

Em Fevereiro de 2017, o então futuro deputado (e futuro candidato à Presidência da República) André Ventura pediu licença aos espectadores da CMTV, debruçou-se atrás da sua mesa e reapareceu segurando um enorme caixote de cartão. Não foi o primeiro nem o último adereço dramático (óculos escuros, chapéus, melões, etc.) que usou no programa Pé em Riste; foi apenas o maior. "Aqui dentro estão aqui 1416 notícias!", anunciou. Ventura fora acusado por pessoas de outro clube de se preocupar mais com esse clube do que com o seu; a sua intenção era demonstrar que pessoas do outro clube passavam ainda mais tempo a falar do seu clube do que ele sobre o clube delas.

Isto pode parecer pateta - porque é - mas também é um debate habitual no Universo Para-Futebolístico Português, uma espécie de reserva natural cognitiva, onde homens adultos podem fingir que nunca abandonaram o recreio do liceu, e onde exorbitantes quantidades de energia verbal são gastas a discutir conceitos esotéricos como "azia", ou a contabilizar quem foi mais humilhado, quem tem mais razões de queixa, ou quem passa mais tempo a falar sobre os adversários. Ventura prosseguiu, explicando que eram tantos os exemplos que tinha recolhido que "sem olhar, posso meter a mão num papel qualquer e...". Tão fatalmente como num filme mudo, o primeiro papel que retirou do caixote estava em branco. Tal como o segundo papel. Tal como o terceiro, e o quarto. Os colegas de painel riram-se. O moderador riu-se. Ventura riu-se com eles, encolhendo os ombros - antes de, munido de um quinto papel, dizer o que queria dizer. Foi um bom momento televisivo.

Muita coisa mudou desde então, a começar pela qualidade e pela quantidade da atenção prestada aos "momentos televisivos" de André Ventura, mas esses momentos continuam formalmente semelhantes. O que costuma acontecer é que a sua presença na televisão é precedida de uma qualquer ebulição recente que ele causou ou ajudou a enquadrar. No estúdio, um representante da ortodoxia encarrega-se de lhe aplicar os princípios do escrutínio jornalístico, tal como os entende. E Ventura apresenta-se munido de um caixote, que contém sempre um número de coisas imunes à documentação, e com uma relação ténue ou inexistente com os temas em apreço, mas que lhe permite sempre dizer as coisas que queria dizer.

O episódio desta semana voltou a contar com a participação de Miguel Sousa Tavares, que aprendeu a lição anterior e desta vez não tentou aferir o racismo de André Ventura perguntando-lhe directamente se era racista. Usou antes o expediente ardiloso de lhe perguntar se "tem amigos pretos", tentando obter a resposta dessa maneira indirecta. Ventura respondeu, a essa e a outras perguntas menos cretinas, recitando a mesma meia dúzia de chavões ou inexactidões do seu repertório, estas últimas agora blindadas com o seu advérbio oficial para a estação Outono-Inverno, "tendencialmente". Os ciganos têm "tendencialmente" um problema com a justiça". Os homossexuais devem ter "tendencialmente" os mesmos direitos. Os antigos de Sião talvez tenham tendencialmente redigido alguns protocolos. (Esta paráfrase será portanto "tendencialmente" honesta). Os deputados? Continuam a ser muitos. Os presos? Continuam a ser poucos.

Entre as várias discrepâncias que o acompanham (entre a sua visibilidade mediática e aquilo que alcançou até agora; entre a aura de ameaça ou expectativa que o envolve, e a banalidade da sua figura pública), a maior talvez seja aquela que existe entre a retórica de megalomania revolucionária sobre "mudar o sistema" e "fazer uma quarta república" e as mesquinhices concretas que lhe sustentam o discurso: alarvidades de grelha televisiva diurna sobre "ciganos em Loures" que "não pagam renda há 18 anos e têm um Mercedes à porta", ou justiceirismos de sofá sobre "pessoas que deram a filha a comer aos porcos e já saíram da prisão".

Como outras falácias recentes baptizadas em inglês, o whataboutism ganhou uma talvez merecida reputação negativa, mas a reacção correcta é mesmo perguntar: porquê falar sobre estas coisas, e não sobre outras? A resposta não é misteriosa, que mais não seja porque tudo isto já aconteceu antes, várias vezes, em vários sítios e, como a maioria das coisas que acontecem em Portugal, sabemos, ou pelo menos desconfiamos, estar a assistir a uma reprodução atrasada (e com algumas idiossincrasias locais) de algo que já aconteceu "lá fora". (O que também explica a atenção desproporcional dada a alguém que, até agora, é apenas o portador de 67 mil votos inesperados.)

A superstição da taxonomia exige uma categoria para o encaixar, e uma série de hábitos jornalísticos continua a presumir que o melhor é perguntar-lhe se ele é mesmo aquilo que parece ser, mas a verdade é que já sabemos o suficiente. Sabemos, por exemplo, que há uma distância substancial entre as fantasias políticas historicamente mais insalubres e a aquisição de poder suficiente para as concretizar. E também sabemos que as pessoas que mais gostariam de ver essa distância reduzida ou abolida olham para fenómenos como o Chega e vêem um atalho promissor. Não há qualquer razão para se pensar de maneira diferente.

"Até quando morre se pagam impostos... é a coisa mais ridícula..." "Temos pessoas que não pagam nada... e andam cá fora a rir-se de nós todos..." As entrevistas de Ventura estão pejadas destas intimações ominosas sobre os objectos passivos e activos do "ridículo". O estágio prolongado no Universo Para-Futebolístico serviu-lhe para perceber, entre outras coisas, a eficácia deste tipo de discurso, assente na monitorização de estados de espírito alheios, e na arreliada desconfiança de que alguém, algures, se esteja a sentir insuficientemente humilhado ou, pior ainda, a divertir às nossas custas.

A sua "plataforma", tal como existe, é reaccionária num sentido mais moderno do que clássico. Inclui a vaga desconfiança das instituições e dos "políticos" que as ocupam; e adopta a forma de qualquer convicção populista quando é forçada a definir-se em contraponto a radicalismos simétricos. Mas também representa os aspectos mais amargos, rancorosos e provincianos de uma inércia sem paciência para ideias, e que só se consegue expressar através de reflexos ou gestos irritados. Sabendo que ninguém é "a favor" da corrupção ou da pedofilia, Ventura limita-se a apontar para esses vapores e a aguardar em silêncio que um coro hipotético de contribuintes preencha o vazio com as suas próprias fúrias.

Isto é a política como curadoria de irritações - a manutenção de um espaço onde ressentimentos predilectos possam ser cultivados com dedicação. Só costuma ser viável quando um número suficiente de pessoas se convence de que a administração essencial de um Estado funciona em piloto automático, e que as únicas coisas que ainda se pode decidir são as formas concretas como a culpa e a crueldade são distribuídas. Neste sentido, a "medida" mais honesta e representativa do Chega talvez seja redução do salário dos deputados, pelo menos nos termos em que Ventura a explica: "Porque é que eles hão de ganhar aquilo quando há pessoas a sofrer?"

Ventura continuará a ir à televisão e continuará a não ser importante que o caixote pareça estar vazio, ou repleto de papéis em branco. O seu público-alvo sabe perfeitamente o que lá está dentro: tudo aquilo que "eles" (os "outros") não querem que se saiba, sobre impunidade, sobre corrupção, sobre o riso secreto de quem anda por aí, a fazer das suas, e a rir-se de "nós".

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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