Narciso ou a fragilidade das democracias

Incutir realismo a um desvairado que não tem os pés assentes na terra é uma tarefa quase impossível. Mas é ainda mais difícil tentar explicar a um político narcisista que não é o melhor e o mais amado deste mundo e do outro. Infelizmente, a política está cheia de narcisos. É uma perturbação da personalidade que os torna politicamente tóxicos. Vivem a um passo de se tornarem dirigentes autocráticos.

De todos os narcisistas, Donald Trump é o mais visível e, tendo em conta o poder que ainda tem, o mais perigoso. As semanas que sobram até ao fim do seu mandato deixam muitos de nós ansiosos quanto ao tipo de decisões que ainda possa vir a tomar. A ordem que manda retirar uma boa parte das tropas americanas que ainda restam no Afeganistão e no Iraque é apenas o exemplo mais recente. Foi decidida sem consultas prévias com as autoridades desses países e à revelia dos compromissos assinados com outros parceiros da NATO, que têm igualmente militares destacados nesses teatros de conflito e cuja permanência vai de par e pressupõe uma presença mínima das forças americanas.

Um outro exemplo de uma péssima decisão, também tomada nesta semana, diz respeito à autorização de exploração de gás e de petróleo na maior reserva natural da zona ártica do Alasca. As concessões que vierem a ser aprovadas nos próximos dias deixarão a administração de Joe Biden prisioneira de acordos com calamitosas consequências ambientais.

Existe igualmente a possibilidade de uma loucura de última hora contra o Irão. É verdade que os conselheiros que ainda pesam na Casa Branca e sobretudo no Pentágono não são favoráveis a uma ação desse tipo. Seria como abrir uma caixa de Pandora, numa altura em que a autoridade de Trump está por um fio e o Médio Oriente muito instável. Aparentemente, a ideia foi posta de parte. Mas tratando-se do personagem que é, nada pode ser considerado definitivo enquanto ele se mantiver no poder. Estamos, na realidade, a viver um período em que cada dia nos pode trazer uma péssima surpresa.

Na realidade, a única decisão significativa que se deverá esperar de Donald Trump será a do reconhecimento da sua derrota eleitoral. Tenho receio de que o transtorno narcisista do personagem o impeça de o fazer. Estou convencido de que vai continuar mergulhado na fantasia que criou, a matutar até ao fim numa fraude que não existiu, mas em que precisa de acreditar, para tentar sarar a grande ferida que o seu desmesurado ego sofreu.

Fico ainda mais preocupado quando vejo destacados membros do seu partido a fazer trinta por uma linha para influenciar as autoridades eleitorais de vários estados. A essa pressão política, que é simplesmente ilegal, juntam declarações públicas que põem em causa a legitimidade do processo e a vitória do presidente eleito. Uma sondagem de há dias da Reuters/Ipsos revelou que quase dois em cada três eleitores republicanos acreditam que Biden não teria vencido as presidenciais de maneira limpa.

Tudo isto provoca grandes danos à paz social e à boa aceitação da nova administração. A democracia parece ter sido a principal vítima destes quatro anos de governação atípica, egocêntrica e incompetente. A sondagem acima referida mostrou a existência de uma desconfiança crescente em relação ao sistema democrático nos EUA. Donald Trump poderá ficar na história americana como um dos piores presidentes dos últimos cem anos. Ficará, certamente, como o que mais contribui para o enfraquecimento da democracia no seu país e o aviltamento da classe política.

A política partidária, os departamentos da governação federal, a Câmara dos Representantes e sobretudo o Senado são algumas das instituições cujo prestígio foi profundamente abalado pela megalomania, a instrumentalização do poder, o nepotismo e a incoerência que caracterizaram a governação de Trump.

Daqui se depreende que a democracia, na nossa parte do mundo, é mais frágil do que se pensava.

Fica bastante ameaçada quando há uma concentração do poder num só líder nacional e este o utiliza para proceder à bipolarização da vida política, à prática de uma retórica que divide a sociedade em campos antagónicos. Foi isso que aconteceu nos EUA.

Mas também está a acontecer em alguns países europeus, sobretudo quando a maioria parlamentar é constituída por deputados que devem o seu assento à fidelidade que devotam de olhos fechados ao líder do seu partido que é, ao mesmo tempo, chefe do poder executivo.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

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