"Na Suécia as pessoas são mais descontraídas"

Entrevista com Solveig Nordlund, realizadora, produtora, montadora, argumentista, que muito jovem veio para Portugal, apesar de hoje, aos 77 anos, passar mais tempo na Suécia natal.

Era uma jovem quando veio para Portugal, e hoje, aos 77 anos, passa mais tempo na Suécia natal. Solveig Nordlund, realizadora, produtora, montadora, argumentista, uma das poucas mulheres com cunho na história do cinema português desde os anos de 1970, viu no início deste ano a sua carreira ser laureada com o Prémio Bárbara Virgínia, pela Academia Portuguesa de Cinema, mas não se prestou a qualquer pompa na circunstância. "Agradeço, claro, mas não ligo a essas coisas", confessou ao DN.

Este é o seu lado sueco a falar mais alto, uma discreta forma de estar que se furta ao jogo das aparências. Quando nos encontramos na esplanada da Cinemateca para uma conversa, a realizadora de Dina e Django comenta a tristeza de não haver muito para fazer nestes dias, com os entraves causados pela pandemia. "Ainda ontem vi na televisão uma advogada a dizer que agora com o lay-off, e o facto de estar em casa, tinha começado a pintar... Muito engraçado! Quem me dera ter essa vontade."

Ao contrário do conterrâneo Ingmar Bergman, Solveig não se dá bem com a ideia de estar isolada em casa a trabalhar. Nas alturas em que neva na Suécia, prefere estar em Portugal - "é mais prático" -, mas, por outro lado, identifica-se com a quase ausência de estratégia do seu país de origem no combate à covid-19. Nordlund não é uma luso-sueca que cultive grandes nostalgias. Senta-se e pede uma Coca-Cola para ir molhando a garganta enquanto faz a viagem no tempo.

Está neste momento em Lisboa, mas vive também na Suécia. Tem passado mais tempo cá ou lá?
Mais na Suécia. Mudei-me há cinco anos para uma região da minha infância, a Costa Alta (Höga Kusten), uma zona muito bonita e simpática. Se me perguntar porquê, achei que era a altura certa, fui-me apercebendo melhor da fragilidade da vida profissional aqui e precisava de alguma segurança. Então corri a Suécia de uma ponta à outra, à procura de uma casa para comprar - lá as casas são muito baratas! -, e descobri uma nessa tal região dos meus avós paternos, onde ainda tenho primos a morar também. Agora venho cá para trabalhar, quando acontece ter trabalho, e para ver o meu filho.

A Costa Alta é um lugar da sua infância, mas nasceu em Estocolmo.
Nasci. Mas todos os verões o meu pai mandava-me para lá.

Tem memórias afetivas...
Sim. E voltei porque não queria envelhecer em Lisboa.

Vamos então recuar à sua juventude, mais precisamente aos anos de 1960: como é que se deu a sua mudança para Portugal?
Eu conheci o Alberto Seixas Santos [1936-2016] e o António-Pedro Vasconcelos em Paris, no ano em que terminei o liceu em Estocolmo. Naquela altura toda a gente ia para Paris, o fascínio da nouvelle vague, etc. Depois o Alberto foi visitar-me à Suécia, eu vim visitá-lo cá, a Lisboa, fomos os dois estudar para Londres, com o João César Monteiro e mais uns quantos - eles Cinema, eu Artes Plásticas -, e enfim, casei-me com o Aberto e vim viver para cá.

Com que idade conheceu o seu futuro marido?
Aos 18 anos. E é curioso que, quando vim para cá, o pai do Alberto saiu de casa, foi para um motel, para nos deixar a viver à vontade. Não era o típico português conservador, era uma pessoa com uma mentalidade muito aberta.

Num país que era, politicamente falando, muito fechado...
Sim, mas eu não senti nada de especial, nesse aspeto. Refiro isso inclusive no documentário autobiográfico que fiz, O Meu Outro País [2014]. Quando vim, começámos a trabalhar no filme Brandos Costumes [lançado em 1975; realizado entre 1972 e 1974], que já retratava uma revolta... Portanto, a revolução já tinha chegado ali, era algo que estava no ar. Acabei por não ter aquela sensação de viver numa ditadura, mesmo que tivesse consciência disso. Até porque trabalhava como intérprete e uma vez fui contratada por uma agência para traduzir uma conversa política. Mas nunca houve nenhuma situação delicada.

Quando veio, adaptou-se facilmente ou sentiu diferenças culturais?
Passei por tantos lugares antes de Portugal que, na verdade, não havia um grande impacto. Por exemplo, quando eu tinha 13 ou 14 anos, a minha mãe mandou-me para a Alemanha, Berlim, para um movimento de paz pós-guerra, e aí as pessoas ainda viviam com buracos no telhado... O comboio que seguia da Suécia para lá era vedado, para não se ver a paisagem, e era tudo proibido e controlado. Por isso, depois de um ambiente destes, qualquer país me pareceu normal. E é preciso perceber também que estive sempre inserida num círculo muito particular, progressista. A minha experiência é essa. O que posso dizer é que tive uma sorte fantástica em ter vivido o 25 de Abril e a Reforma Agrária.

E hoje continua a não notar diferenças?
Por acaso, acho que sinto mais agora. O meio aqui está a ficar mais pequenino e mesquinho. Na Suécia, apesar de viver na província, vejo que as pessoas são mais descontraídas. Tu és o que és, não fazes figura de outra coisa, não importa como te vestes...

Essa forma de estar, essa descontração, estará na origem do como a Suécia tem lidado com a pandemia, ou seja, sem as medidas que foram impostas nos outros países europeus?
Sim, e penso que quase toda a gente lá está de acordo com esta maneira de lidar com o problema. Evitou-se o pânico e, apesar de tudo, as pessoas têm cuidado. No princípio houve muitas mortes nos lares de idosos, mas acho que conseguiram controlar isso com a proibição das visitas. É lá que estão os surtos.

Portanto, a nível psicológico, acha que os suecos estão a suportar bem a situação.
Estão a viver melhor do que os portugueses. As pessoas com quem falo aqui estão todas preocupadas, e lá nem falam disto. Vivem a vida normalmente.
Também ajuda o facto de os suecos já praticarem naturalmente um certo distanciamento social. Há muitas pessoas a viver sozinhas, tal como Ingmar Bergman, que se isolou na ilha de Fårö...
A ilha das ovelhas ("får" é ovelha e "ö" significa ilha). Eu por acaso fui bolseira lá da casa dele, a Stiftelsen Ingmar Bergman. Gostei muito de lá estar. Foi naquela ilha que filmou o Persona [1966], um filme que não se parece com nada do cinema dito normal... Ele era muito solitário, sim, trabalhador, e não era só um homem do cinema, era também um homem do teatro. Dedicou a vida toda a isto. Não deixa de ser engraçado que atualmente o seu cinema tenha encontrado público e muita admiração, porque lembro-me de em jovem ir ver o Mónica e o Desejo [1953] ao cinema e eu ser a única espectadora na sala... As pessoas ao início detestaram Bergman.

É um cinema mais introspetivo. Mas isso não reflete uma essência sueca?
Talvez. Não são só os suecos que são introspetivos, acho que se pode dizer o mesmo de todos os nórdicos. Não são pessoas de andar a gritar pela rua.

Na sua filmografia tem vários documentários sobre escritores: o mais recente é Mia Couto, antes foi Marguerite Duras, J.G. Ballard, António Lobo Antunes... Peguemos no caso de Lobo Antunes. O que é que motivou esse "retrato"?
Comecei com esta coisa dos escritores na altura em que voltei à Suécia, anos 1980, onde fiquei empregada na televisão, e às vezes era só porque tinha curiosidade num escritor de quem queria fazer uma adaptação. Então propunha... No caso do Lobo Antunes, acho que foi uma proposta da RTP, e foi fácil porque eu conhecia-o. Já nessa altura tinha em mente adaptar um livro dele [A Morte de Carlos Gardel, 2011], que só aconteceu mais tarde. Mas esse retrato foi interessante, porque ele era um charmoso. E - não é por isso, claro - mas preferia que tivesse sido ele a vencer o Prémio Nobel em vez do Saramago. O Lobo Antunes é um escritor muito especial.

Tantos anos a viver cá, como é que se relaciona com a cultura portuguesa?
Por exemplo, gosto da literatura, como já se percebeu, os pintores portugueses são muito bons... há imensas coisas boas. Eu só não consigo é ser pelo fado. Talvez por ter vivido em Alfama, estou um bocadinho alérgica ao fado. E uma coisa que não há muito cá é o teatro radiofónico. Na Suécia ainda se faz bastante, e gosto de ouvir quando ando de carro.

E o cinema?
Gosto de Manoel de Oliveira, com quem trabalhei, António Reis... enfim, é difícil dizer "cinema português" ou "cinema sueco". Mas, por falar nisso, agora há esta crença de que a Netflix é a grande solução para o cinema português. Veja-se: a concorrência dentro da Netflix é horrível, não estará certamente aqui a salvação. Até porque Portugal nunca ganhou nesse campo do cinema, digamos, de grande público. Agora vão-se atirar bruscamente para uma plataforma onde nem sequer têm treino?

Neste momento tem projetos na algibeira?
Tenho só um projeto na Suécia, sobre uma pintora da minha região. Aquela é realmente uma zona artística. Até tenho andado a tentar escrever uma série mesmo sobre a região, porque antigamente havia muitas pessoas lá que trabalhavam com a madeira... Agora já não. Ainda há pouco tempo uma autora escreveu um policial baseado na Costa Alta. Estou cheia de curiosidade para ler.

Por falar em pintura, e já que o seu percurso começou nos estudos de Artes Plásticas, a própria Solveig não gosta de pintar?
Sim, sim, faço gravura. Tanto lá como cá. Mas agora com esta paragem das coisas não me apetece fazer nada.

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