Crise e violação do direito de informar. Jornalismo de investigação ameaçado

Sites e redes sociais apropriam-se cada vez mais da investigação produzida pelos meios tradicionais.

Redações mais curtas, menos investimento, mais produção e informação imediata vão colocando a investigação jornalística sob pressão. Mas se as ameaças chegam por via de uma maior falta de recursos, também se fazem notar por outras vias. A opacidade e o silêncio das entidades públicas, a permanente violação do direito de informar e até a impossibilidade de questionar que é imposta por alguns poderes instalados vão quebrando este terreno, já de si frágil.

Quem aprofunda e mexe com os interesses não é das ameaças pessoais que se queixa, é da falta de tempo que tem para dividir entre investigação e informação que tem de produzir diariamente e da falta de respostas num país com quase cinco décadas de democracia.

A crise da sustentabilidade dos media chegou já neste milénio e a primeira vítima foi mesmo a investigação. "Já tem 20 anos, instalou-se na viragem do século, com a transição para o digital, e foi especialmente penalizado para a investigação porque custa mais dinheiro, mais tempo, requer gente com maior disponibilidade", contextuaria o jornalista e grande repórter da SIC Pedro Coelho. Um tiro ainda mais certeiro quando se fala em "mercados frágeis", onde "as fontes de receita mais curtas tornam tudo mais difícil", acrescenta o repórter.

E se é ameaçada a sobrevivência, é ainda mais atacada a longevidade. Há nove anos no ar com Sexta às 9, na RTP1, Sandra Felgueiras sabe que tem em mãos uma raridade nacional. Jornalista há mais de duas décadas, considera que, para lá da "resiliência" e da "responsabilidade", há o fator empresa pública de media, financiada, sobretudo, pela contribuição audiovisual. "Também acho que se resiste porque foi possível dentro da empresa de serviço público encontrar um formato que tivesse possibilidade para durar", contextualiza. "Há programas excelentes nos privados, mas o jornalismo de investigação levanta muitos problemas, hostilidades, cria muitas feridas, e poder ser-se independente é um dos principais fatores que mantêm esta longevidade", refere. E se os privados são apontados pelos perigos de estarem dependentes de receitas comerciais, a TV pública é acusada de estar ao serviço do Governo, o que Sandra Felgueiras nega, evocando os nove anos de trabalho e os trabalhos de confrontação e verificação que têm sido feitos aos sucessivos Executivos.

Das ameaças ao silêncio e à violação do direito de informar

As tentativas de dissuasão veladas, ou nem tanto, para a não publicação de uma história que toca com interesses instalados é prato do dia para quem mergulha a fundo nos temas. Daí para a ameaça ainda vai um longo caminho para os jornalistas ouvidos pelo DN. Mas também existe. Que o diga Pedro Coelho, que acaba de se constituir assistente num processo interposto pelo International Press Institute, que, percebendo a avalancha de insultos e ataques violentos dirigidos ao jornalista na sequência da emissão das reportagens sobre o Chega, apresentou queixa no Ministério Público. "Em 31 anos de jornalismo, já fui algumas vezes ameaçado com coisas que não valorizei. Com a emissão da reportagem do Chega, recebi centenas de insultos, dezenas de ameaças, e algumas de dirigentes do Chega, até do próprio André Ventura houve ataque de caráter", conta o jornalista.

Fernanda Câncio e Valentina Marcelino, jornalistas há mais de três décadas, também falam das ameaças, mas não é isso que as preocupa mais. O verdadeiro ataque ao jornalismo de investigação está a vir do silêncio e da opacidade das instituições, dizem. "A forma de a Administração Pública funcionar é o fator mais desincentivador de jornalismo de investigação que já vi, mais até do que as ameaças", compara Câncio. "O que sinto, e que é muito desagradável, é que vivemos num país que, apesar de termos uma democracia há tantas décadas, continua a ter uma opacidade e a promover a dificuldade no acesso à informação que deveria estar disponível. É cansativo e frustrante", explica.

Valentina até já fez as contas. "No período de um ano, entre 2019 e 2020, fiz um levantamento dos e-mails que enviei ao Ministério da Administração Interna sobre questões relativas a políticas publicas, balanços, avaliações e resultados. Dos 35 que enviei, 33 ficaram sem resposta. E continua assim. Tem sido uma frustração tremenda e é quase humilhação. Tenho lidado com vários governos, mas este tem sido particularmente hostil no direito de informar", acrescenta a repórter do DN. "Coincidiu com o facto de [o Executivo] começar a utilizar as redes sociais para anunciar as suas políticas, sem direito ao contraditório, sem podermos fazer perguntas", justifica.

No caso de Ihor Homeniuk [o cidadão ucraniano que morreu no aeroporto de Lisboa às mãos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], que emergiu e se tornou matéria nacional, Câncio fala nisso mesmo: "A quantidade de e-mails com perguntas que enviámos, que deram imenso trabalho, e que são respondidas com nada. É totalmente inacreditável."

Modelos internacionais a replicar

Pedro Coelho deposita esperanças - e já experiência - no "jornalismo colaborativo". "A lógica do jornalista de investigação solitário, a aprofundar uma determinada matéria, é uma realidade que está quase ultrapassada. É muito difícil que sozinho consiga construir histórias que têm cada vez mais ramificações internacionais", refere. É em grupo que se vai conseguir resistir às grandes pressões, porque, acrescenta Pedro Coelho, "o mercado aniquilaria o jornalista e o jornalismo de investigação, se este estivesse a solo". Por isso tem de se ser maior para resistir a confrontos mais densos e "publicar-se [a matéria] torna-se uma inevitabilidade". Aliás, é disso que fala quando, com estrondo mundial, surgiram em 2016 os Panama Papers, investigados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação.

Por cá, as reportagens sobre o Chega, exibidas sob polémica em janeiro e em tempo de campanha para as presidenciais, fazem parte de um trabalho mais amplo sobre a ascensão da extrema-direita na Europa - vai ser exibido na primeira quinzena de abril, na SIC - e conta com colaborações internacionais. "Eu próprio, quando faço uma investigação, já não faço sozinho. Candidato-me a verbas externas, como a bolsa da Gulbenkian, que ganhei no ano passado e voltei e a ganhar este ano." Conta o jornalista que, para lá de ir buscar académicos, investe o dinheiro recebido a contratar jornalistas para a equipa, frequentemente estudantes universitários a quem o próprio dá aulas na Universidade Nova de Lisboa. Equipas que, no caso da investigação à extrema-direita, inclui uma repórter italiana. Uma solução que poupa a empresa. "Foram 17 800 euros a menos e foi produzido um largo volume de trabalho, para lá dos documentários, e com audiência", vinca.

Pedro Coelho acredita que o modelo de consórcio pode ser replicável à escala nacional e pode garantir a sustentabilidade do jornalismo de investigação. Mas será mesmo possível num mercado tão pequeno e concorrencial? "Não havendo concorrência direta entre as plataformas - televisão, rádio, jornal e outro meio alternativo -, parece-me perfeitamente viável. Portugal ainda não está muito preparado para isso, mas o futuro da investigação passa por aí", considera.

Foi em equipa, constituída com jornalistas do DN, que os contornos do caso de Ihor Homeniuk vieram a público. Matéria que ainda prossegue não só com o processo em tribunal, mas com novos elementos polémicos a serem trazidos a público e que colocam a organização do Estado em xeque.

Aos consórcios e às fundações, Sandra Felgueiras soma-lhes mais uma: "O crowdfunding, com bons exemplos nos Países Baixos, tem vindo a patrocinar o jornalismo e a revelar-se uma forma de o garantir. Trata-se não de um financiamento em particular, mas de um conjunto de pessoas que prefere pagar. Aliás, acho que as versões premium (ou seja, as edições online pagas dos jornais) já são o resultado disso."

Investimento com retorno?

Será este um investimento numa área que o público reconhece, ou nem por isso? O jornalista Pedro Coelho crê que o auditório quer mais. "Não tenho dúvidas de que o público quer isto, os estudos do Reuters Institute dizem que, quer nos media tradicionais quer no multimédia, o jornalismo de investigação tem o maior número de adesão. Tem é de ser distintivo do que é produzido na internet."

A grande repórter do DN Fernanda Câncio discorda. "Um dos grandes problemas do jornalismo, se não o maior mesmo, é atualmente a falta de valor que as pessoas e o público lhe atribuem." E avança: "Cada vez mais o trabalho é espoliado e ninguém vai pagar quando sabe que uma investigação está depois replicada em todo o lado. Ou seja, o valor daquele trabalho foi disseminado por todos os meios", lamenta. "Hoje, quanto melhor for o trabalho, mais rapidamente é apropriado." Considera que "a partir do momento em que a forma de viabilizar passa pelo clique e se privilegia a partilha de notícias com base no título, a tendência é para ser cada vez pior", vaticina.

Sandra Felgueiras clama por mais investigação nos media e fala em importantes "contributos para a democracia". Adianta que, "se os jornalistas todos se unirem neste propósito, de fazer mais e melhor, pode fazer-se a diferença. Gostaria muito que quem é dono de meios de comunicação social pudesse ter direções de informação que apostassem mais em programas deste género e valorizassem mais os jornalistas, e que pagassem mais, porque ganharia o país, a sociedade, a democracia e os próprios profissionais".

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG