Desafio aos EUA? Há cinco petroleiros iranianos a caminho da Venezuela

Tanto Teerão como Caracas são alvo de sanções por parte de Washington e desafiam Donald Trump, cuja Administração estará a pensar numa resposta adequada.

Clavel, Forest, Fortune, Faxon e Petunia. São estes os nomes dos cinco petroleiros iranianos, carregados com combustível no valor de 45,5 milhões de dólares, que estão neste momento a caminho da Venezuela. Teerão e Caracas são aliados há muito e, apesar de serem alvo das sanções de Washington, juntam-se agora num desafio sem precedentes aos EUA.

Os norte-americanos têm uma "alto nível de certeza" de que o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, está a pagar ao Irão toneladas de ouro pelo combustível, disse um responsável à Reuters, sob anonimato, na semana passada. "Isto não é apenas indesejável por parte dos EUA, mas indesejável por parte da região, e estamos a ver que medidas podem ser tomadas", acrescentou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Javad Zarif, respondeu no domingo, numa carta enviada ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. O ministro alertou contra o envio de navios norte-americanos para as Caraíbas para "intervir e criar disrupção na transferência de combustível do Irão para a Venezuela", apelidando tais ações de "ilegais" e de "pirataria".

Segundo a agência de notícias Fars News, que cita fontes informadas, quatro navios de guerra da Marinha norte-americana terão sido enviados para as Caraíbas assim como aviões Boeing P-8 Poseidon para "um possível confronto com os petroleiros iranianos".

Zarif avisou ainda para as "consequências de qualquer medida ilegal". De acordo com a AFP, o embaixador da Suíça em Teerão (que representa os interesses dos EUA no país), foi chamado pelo número dois de Zarif, Abbas Araghchi, para receber um "aviso sério", com o Irão a prometer uma "resposta rápida e decisiva" caso os seus navios sejam ameaçados.

O mesmo indicou o ministro da Defesa, o brigadeiro general Amir Hatami, numa reunião de conselho de ministros esta quarta-feira: "anunciámos que não vamos tolerar qualquer perturbação", disse, prometendo ainda uma "resposta firme" caso os navios sejam perturbados em águas internacionais em violação das leis internacionais.

Os cinco petroleiros

De acordo com o site Marine Traffic, os três primeiros navios cruzaram há dias o estreito de Gibraltar (o último foi o Clavel, esta quarta-feira, 20 de maio), enquanto o Faxon está a sul da ilha da Madeira e o Petunia, mais avançado, já está a noroeste das Canárias.

Todos terão deixado várias refinarias do Irão entre 13 de março e 26 de abril (o Faxon tem como data de partida 7 de agosto de 2019), cruzando o canal do Suez e atravessado o Mediterrâneo a caminho do Atlântico, sendo indicado que chegarão ao destino a partir de 25 de maio.

Um destino que não faz parte da informação, tendo a maioria a indicação "To Order". Esta expressão indica que um bem pode ser renegociado em trânsito para o seu destino e que normalmente se aplica em transações com cartas de crédito.

No caso do Forest, a indicação é que o destino é a América do Sul/To Order, enquanto o Fortune tinha alegadamente como destino Gibraltar (que já ultrapassou). De acordo com a AP, o Clavel chegou a indicar que tinha como destino Caracas, mas mudou depois.

Entretanto, as próprias autoridades iranianas confirmaram que os navios vão a caminho da Venezuela.

País do ouro negro precisa de combustível

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas há anos que opera abaixo da sua capacidade. Durante os mandatos do falecido presidente Hugo Chávez, quando o petróleo estava em alta nos mercados internacionais, os lucros foram usados nos programas sociais da sua revolução bolivariana, com muito pouco reinvestimento nas infraestruturas do setor.

Depois disso, anos de crise e de sanções económicas dos EUA (que desde o ano passado atingem diretamente a estatal PDVSA) deixaram o país sem capacidade para refinar todo o seu ouro negro e a precisar de combustível (nos momentos de abundância, a gasolina era mais barata que a água).

A carga dos cinco petroleiros é o último sinal de cooperação entre Teerão e Caracas. Desde o mês passado, vários voos têm ligado os dois países, com os iranianos a fornecer material à Venezuela para poder restabelecer a refinaria de Cardón (que tinha capacidade para 310 mil barris por dia).

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, apelou ao fim dos voos da companhia aérea iraniana Mahan Air, alegando que estes estavam a ser usados para apoiar o governo de Maduro, que os EUA acusaram em finais de março de trabalhar em conjunto com a guerrilha das FARC para "inundar os EUA com cocaína". Uma recompensa de 15 milhões de dólares foi oferecida por Washington por informações que possam levar à sua captura.

"Têm que se perguntar que interesse o Irão tem na Venezuela, onde vimos indicações recentes de militares e apoio estatal iraniano. É para ganhar vantagem posicional na nossa vizinhança como forma de combater os interesses dos EUA", disse o almirante Craig Faller, comandante do Comando Sul dos EUA, responsável pelas atividades militares na região da América Latina e Caraíbas.

Diante da notícia de que os petroleiros estavam a caminho, o líder da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, que os EUA e mais de meia centena de outros países veem como presidente interino do país, apelou à comunidade internacional para que interferisse e travasse a chegada dos navios. "Eles estão a pagar esta gasolina com dinheiro de sangue", alegou, num evento online com o think tank Inter-American Dialogue, indicando acreditar que o ouro provém de minas ilegais no sul do país.

Apesar da pressão reforçada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, Maduro continua na presidência da Venezuela, contando com o apoio da Rússia, da China, de Cuba e do Irão. No início do mês, foi abortada uma tentativa de golpe que era liderada por um ex-militar norte-americano e que teria tido o aval, pelo menos nos primeiros tempos, de aliados próximos de Guaidó.

Petroleiros iranianos no radar

Além da Venezuela, também o Irão é alvo das sanções norte-americanas, depois de Washington ter rasgado o acordo sobre o nuclear em 2018. Teerão procura por isso alternativas de rendimento, ainda para mais depois de o petróleo ter sofrido uma queda nos mercados internacionais (chegou a valores negativos pela primeira vez) e numa altura em que enfrenta a pandemia do coronavírus (tem mais de 125 mil casos e mais de sete mil mortes).

Apesar dos apelos dos britânicos, chineses ou russos para que os EUA aliviassem as sanções ao Irão para que este possa lutar contra a pandemia, Washington não se mostrou aberto a tal e aumentou até a pressão. A Administração de Donald Trump colocou na lista negra 12 empresas (dos Emirados Árabes Unidos, China ou África do Sul) por negociarem com a indústria petroquímica iraniana.

Esta também não é a primeira vez que um petroleiro iraniano fica no radar da comunidade internacional e dos EUA. No ano passado, o Reino Unido apreendeu um petroleiro iraniano perto de Gibraltar que tinha como destino a Síria. O país de Bashar al-Assad também está sob sanções da União Europeia no que diz respeito aos carregamentos de combustível.

O Grace 1 acabou por ser libertado pelos britânicos, apesar das objeções dos norte-americanos.

Por causa deste incidente, todos os navios iranianos navegam agora com bandeira iraniana (incluindo os cinco petroleiros), já que houve pressão para que não pudessem usar outras bandeiras, como é prática no setor do transporte marítimo internacional. O Grace 1 viajava com bandeira do Panamá, mas as autoridades tinham alegado que já teria sido retirado da lista de autorizações por alegadas ligações ao financiamento do terrorismo.

Em julho, os EUA acusaram também o Irão dos ataques contra petroleiros no golfo de Omã, numa altura em que a tensão entre os dois países atingia um dos seus picos. Já em outubro, um petroleiro iraniano foi alegadamente atingido por dois rockets ao largo da Arábia Saudita.

Em janeiro deste ano, a tensão era máxima, depois de os EUA matarem, num ataque no Iraque, o general iraniano Qassem Soleimani, comandante da Força Quds (responsável pelas missões no estrangeiro dos Guardas da Revolução).

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