Agora, é Natal!

Cada um de nós atribui um significado ao Natal. A conceção do Natal é algo que vamos construindo, que se vai alterando e que vai, de certo modo, "envelhecendo" e amadurecendo connosco. Começamos por acreditar no Pai Natal e nas Renas - ou no Menino Jesus e nos Reis, dependendo da dinâmica religiosa da família - e, com o tempo e pela desconstrução, criamos a nossa própria perceção.

Como em qualquer prática, cerimónia ou ritual, também com o Natal há adeptos e não adeptos. À cabeça dos adeptos, está o gastronómico. Aquele que se dedica a equacionar novas formas de acompanhar o bacalhau com os grelos, o polvo ou o peru, de preferência com mimos cada vez mais chef e gourmet. Ainda na valência gastronómica, mas na ótica da vida saudável, há o adepto das filhós sem glúten e do Pai Natal 70% cacau, em cuja mesa abundam o tofu e o seitan à portuguesa e sem sal. Há também os "fada-do-lar", em que toda a casa parece um gigantesco pinheiro de Natal iluminado, com muitas bolas, barretes e barbas brancas, toalha de mesa e loiça a condizer e, claro, muito cosplay. Não podiam faltar o adepto vaidoso e consumista da selfie, o nostálgico saudosista das fotos antigas, o desportista que vai correr na véspera, o católico praticante da Missa do Galo - tantos mais haverá... Natal é também diversidade. Dos não adeptos, há vários tipos - o chato, o descrente ou o da tristeza, da doença ou do luto.

É claro que esta é uma descrição marcada pela abundância. Para muitos, o Natal e o correspondente subsídio (quando há) é um balão de oxigénio para a economia familiar, em que o presente é a possibilidade de aliviar um crédito ou uma prestação. Já para não falar das famílias que, por insuficiência financeira, só se têm uns aos outros e, à mesa, apenas a solidariedade.

Depois, há aqueles para quem o Natal não existe - aqueles de quem a sociedade desistiu ou que dela desistiram e que radicam, por exemplo, nos sem-abrigo. Já tenho ouvido dizer: "Muitos estão na rua porque querem." Será mesmo assim? E, sendo, não terá essa vontade uma explicação?

O Plano de Ação 2019-2020 da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) vai entrar em aceleração no novo ano e procura materializar ideias e vontades para o compromisso social de erradicar esta situação.

O consumismo fútil do Natal não é útil. Pelo desperdício e até pela sobrecarga para o meio ambiente. No entanto, a nível global, é importante o seu caráter de generosidade e de reunião e até de oportunidade para desconstruir estereótipos. Cada vez mais, assistimos a uma deslocalização da espiritualidade do ser humano, em que o centro já não são as religiões organizadas. Mas o espírito de Natal existe e une a humanidade.

Deputada do PS

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