Lanças turcas em África, incluindo na lusófona

Angola, um dos três maiores exportadores de petróleo em África, recebeu agora a visita do presidente turco, num périplo que o leva também à Nigéria (outro gigante petrolífero) e ao Togo e eleva para 30 o número de países do continente que Recep Erdogan já visitou nestas quase duas décadas no poder em Ancara, primeiro como chefe do governo e depois como chefe do Estado. É impossível não identificar uma clara estratégia para África por parte do líder turco, não só por causa das constantes visitas, mas também pela multiplicação do número de embaixadas. São já 43, e a 44.ª deverá ser aberta talvez ainda neste ano em Bissau, na sequência de uma visita à Guiné no final de 2020 pelo ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Çavusoglu, personalidade que pelo cargo e pela confiança pessoal é o braço direito de Erdogan nesta ofensiva diplomática que tem muito de económica.

Eterna candidata à União Europeia (com tudo o que isso tem de aliciante mas também de frustrante), a Turquia tem, porém, múltiplas áreas geopolíticas nas suas prioridades, casos do mundo de língua turca, ou seja o vizinho Azerbaijão e quatro dos cinco países nascidos na antiga Ásia Central soviética, ou das nações nascidas da desagregação do Império Otomano, há um século, o que significa a maior parte do mundo árabe e parte dos Balcãs. Ora, a África, sobretudo a subsariana, surge como aquela região onde a aposta é mais ousada, pois é uma terra relativamente nova para os turcos.

Membro do G20, sendo atualmente a 17.ª maior economia mundial, a Turquia tem ambições de poder que fazem que diplomacia e economia andem naturalmente lado a lado, ainda que por vezes tal alimente suspeitas de neo-otomanismo. É o que acontece em relação ao seu papel político na Líbia (mais um grande produtor de petróleo), um dos quatro países do norte de África que durante séculos obedeceram à Sublime Porta e, aliás, o último a passar para um colonizador europeu, a Itália, nessa guerra de 1911-1912 em que chegou a combater Mustafa Kemal, o futuro Atatürk, fundador da República da Turquia.

Na África subsariana, a tal que é novidade para os turcos, não só ninguém pode alimentar os fantasmas do passado, acusando Erdogan de ambicionar ser tão influente como os antigos sultões, como a comparação com os países da Europa Ocidental põe estes em desvantagem: não há traumas coloniais por resolver (e Erdogan não hesita em relembrar as colonizações europeias, incluindo a portuguesa). Outra vantagem dos turcos sobre os europeus, notava a televisão árabe Al Jazeera, é os seus produtos serem mais baratos. Já sobre os chineses, mais uma potência interessada em pôr uma lança em África, a vantagem é os produtos turcos serem de melhor qualidade. Talvez isso explique - e uso aqui números citados pela influente estação televisiva baseada no Qatar - que as trocas comerciais entre a Turquia e África tenham passado de 5,3 mil milhões de dólares no início do milénio para 25 mil milhões em 2020.

Angola, por acrescentar influência política regional (África Austral e Central) à sua capacidade petrolífera, pode procurar destacar-se entre os grandes parceiros africanos da Turquia, apesar da fortíssima concorrência. A visita de Erdogan retribui a do presidente João Lourenço já em 2021 e surge num momento propício para as relações, pois estamos em vésperas de um fórum económico afro-turco, já nesta semana, e sobretudo da terceira Cimeira África-Turquia, agendada para Istambul em meados de dezembro. É questionável o impacto imediato para Portugal deste estreitar de laços entre Angola e Turquia (e também entre Moçambique e Turquia), mas o mais provável é que as empresas turcas sejam em breve fortes concorrentes das portuguesas nos dois maiores PALOP, mesmo sem a vantagem da língua comum.

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