O que é feito dos heróis (eternos) da Taça de Portugal?

Cláudio Oeiras (Torreense) eliminou o FC Porto em 1999 e hoje trabalha numa empresa que fornece produtos agrícolas a hipermercados. Cílio Souza (Gondomar) eliminou o Benfica e despediu Jesualdo em 2002, e hoje é treinador adjunto no renovado Beira-Mar. David Costé (Naval) marcou o golo que eliminou o Sporting em 2003 e é hoje treinador em escalões secundários em França.

O que eles fizeram em campo a história não apaga. Cláudio Oeiras em 1999, Cílio Souza em 2002 e David Costé em 2003 foram heróis improváveis (e carrascos dos grandes) na Taça de Portugal - e os adeptos não os deixam esquecer isso.

Os golos que marcaram eliminaram os grandes do futebol português e eles já perderam a conta às entrevistas e até às recordações. Cláudio, Cílio e David fizeram aquilo que qualquer jogador do Paredes (frente ao Benfica), do Sacavenense (frente ao Sporting) e do Fabril (frente ao FC Porto) ambicionam fazer neste fim de semana na prova rainha do futebol português: tombar gigantes.

O fornecedor agrícola que eliminou o FC Porto numa tarde de Carnaval

Já passaram 21 anos desde que Cláudio Oeiras entrou para a história da Taça de Portugal, num cenário que parecia criado para fazer Taça. Na terça-feira de Carnaval do ano 1999, o golo do avançado do Torreense (da II Divisão B) fez parar o cortejo nas ruas de Torres Vedras. O golo de Cláudio eliminou o FC Porto de Fernando Santos, nas Antas (antecessor do Estádio do Dragão), nos oitavos de final da edição 1998-99, e tornou o avançado num dos heróis mais recordados da história da prova. Ainda hoje é "o gajo que eliminou o FC Porto".

O Torreense viria a ser eliminado no jogo seguinte, com a final da Taça de Portugal a jogar-se num inusitado Beira-Mar-Campomaiorense.

O golo de Cláudio Oeiras foi a cereja no topo do bolo para o observador do Benfica, que recomendou de imediato a contratação para a equipa B. O avançado ainda treinou muitas vezes com a equipa principal de José Mourinho e de Jupp Heynckes, mas nunca chegou a vestir a camisola principal dos encarnados. Acabou por emigrar para o futebol alemão.

Em 2011, com 33 anos, terminou a carreira no Pêro Pinheiro, já depois de jogar pela equipa de futebol de praia do Benfica. Ainda foi diretor desportivo, primeiro no Torreense e depois no Sintrense. A experiência não correu como esperava e ele teve de procurar alternativas. Agora trabalha numa empresa que fornece produtos hortícolas aos hipermercados da Grande Lisboa.

O adjunto do Beira-Mar carrasco do Benfica que tem um filho... no Benfica

A luta entre pequenos e grandes continua a dar um colorido diferente à prova rainha do futebol português e Cílio Souza atreveu-se a sonhar com isso. O então avançado do Gondomar sonhou que ia ganhar ao Benfica em pleno Estádio da Luz com um golo dele de grande penalidade. Falhou nesse ponto. Marcou, mas foi de bola corrida e eliminou os encarnados, na quarta eliminatória, num jogo a 4 de novembro de 2002.

O golo do brasileiro deixou a Luz em estado de sítio e Jesualdo Ferreira na porta de saída, mas para ele o golo não fez assim tanta diferença. "Até fiquei sem clube e tive de emigrar aos 29 anos. O golo valeu por ter sido marcado a quem foi [Benfica]", confessou, culpando o facto de ser "frontal de mais" para a podridão do futebol. Hoje reconhece que devia "ter sido um pouquinho hipócrita" e "ter engolido alguns sapos, como se diz em Portugal", e a carreira poderia ter sido diferente.

Aos 40 anos, Cílio Souza aceitou "regressar a casa", após sete anos na China. Numa altura em que já pensava na reforma, o recém-promovido Beira-Mar desafiou-o para continuar a jogar nos distritais. Ele foi e até deixou de ser avançado para ser defesa central. Nunca ganhou milhões e por isso teve de se fazer à vida e trabalhar numa fábrica ligada ao ramo automóvel. Era responsável por fundir peças. Trabalhava, à noite ia treinar e ao fim de semana jogava.

Natural de Goiás, no Brasil, o ex-avançado é casado com uma portuense e ficou por Portugal. Adora viver em Aveiro. Anda na rua em segurança e é hoje pai de um jogador do... Benfica. Francisco tem 13 anos, é avançado como o pai foi e já joga no clube da Luz.

Os problemas financeiros, administrativos e desportivos do histórico clube de Aveiro levariam a um convite inesperado para "ser treinador adjunto de outro herói da Taça, Ricardo Sousa, no renovado Beira-Mar". Não tem curso de treinador. Tinha-se preparado para ser recrutador e era na área do scouting e deteção de talentos dos 6 aos 11 anos que se procurava afirmar, mas aceitou ser adjunto, cargo que agora acumula com o recrutamento na formação dos aveirenses.

E é como adjunto do Beira-Mar que no domingo enfrenta o Santa Clara na Taça de Portugal, na esperança de voltar a fazer Taça.

O treinador francês que deixou Ronaldo (e o Sporting)a chorar

As sete épocas de David Costé em Portugal são facilmente reduzidas a um jogo da Taça de Portugal. O francês jogava na extinta Naval 1.º de Maio (então na Liga de Honra, hoje II Liga) e deixou Cristiano Ronaldo em lágrimas, quando em março de 2003 marcou o golo que afastou o Sporting (onde brilhavam Jardel e João Pinto) da prova. Esse foi também a despedida da Taça do velhinho Estádio José Alvalade.

O golo colocou-o nas capas dos jornais e houve várias equipas da então I Divisão (hoje I Liga) a mostrar interesse em contratá-lo, mas acabou por jogar apenas na II Liga (além de Naval, esteve no Varzim e no Rio Ave).

Filho de pai português e mãe espanhola, David Costé nasceu em Pau, França, onde terminou a carreira há dez anos nos amadores do Tarnos. E foi na região onde nasceu (Bordéus) que se fixou depois de pendurar as chuteiras. Seguiu a carreira de treinador em clubes modestos dos regionais franceses, como os amadores do Amicale Sportive Taillanaise.

Heróis de ocasião por 14 vezes

Em toda a história, os três grandes do futebol português foram eliminados 14 vezes por equipas de outras divisões, graças a heróis de ocasião. Eis a lista.

FC Porto

1942-43: Vit. Setúbal (II Divisão)-FC Porto, 7-0 (meias-finais)

1943-44: Estoril (II Divisão)-FC Porto, 3-2 e 2-1 (quartos-de-final)

1947-48: Barreirense-FC Porto, 1-0 (oitavos-de-final)

1969-70: Tirsense (II Divisão)-FC Porto, 2-2 e 1-0 (5ª eliminatória)

1998-99: FC Porto-Torreense (2ª Divisão B), 0-1 (5.ª eliminatória)

2006-07: FC Porto-Atlético (2ª Divisão B), 0-1 (4.ª eliminatória)

Sporting

1948-49: Tirsense (III Divisão)-Sporting, 2-1 (1.ª eliminatória)

1998-99: Gil Vicente (Liga de Honra)-Sporting, 3-2 (4.ª eliminatória)

2002-03: Sporting-Naval (Liga de Honra), 0-1 (quartos-de-final)

2003-04: Sporting-Vit. Setúbal (Liga de Honra), 0-1 (5.ª eliminatória)

2019-20: Alverca (Campeonato de Portugal)-Sporting, 2-0 (3.ª eliminatória)

Benfica

1960-61: Benfica-Vit. Setúbal (Liga de Honra), 3-1 e 1-4 (oitavos-de-final)

2002-03: Benfica-Gondomar (2.ª Divisão B), 0-1 (4.ª eliminatória)

2006-07: Varzim (Liga de Honra)-Benfica, 2-1 (6.ª eliminatória)

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