Nuno Vieira Matias

Quem quiser ter uma visão, onde a brevidade não hostiliza o rigor, sobre a vida e as obras do almirante Nuno Viera Matias (1939-2020), falecido no passado sábado, deverá ler um artigo publicado na Revista Nova Cidadania (n.º 70, março-junho 2020), da autoria de um camarada de armas mais jovem, o almirante Alexandre da Fonseca. Aí se encontra um registo do incansável percurso de serviço público prestado por este militar de carreira. Desde os tempos em que, como jovem comandante de um destacamento de fuzileiros especiais (DFE n.º 13) na Guiné, arriscou a vida em 32 situações de combate (lembro-me como, comovidamente, sabia os nomes dos militares que sob o seu comando tinham caído).

Muito mais tarde, no auge de uma carreira naval distinta, quando desempenhava as funções de chefe do Estado-Maior da Armada (1997-2002), Vieira Matias assumiu a responsabilidade por uma das mais ousadas, oportunas e bem-sucedidas iniciativas da Marinha portuguesa em tempo de paz: a Operação Crocodilo. Tratou-se de uma complexa ação naval lançada em 1998, abrangendo também meios dos três ramos das Forças Armadas, envolvendo quatro navios, incluindo a fragata Vasco da Gama, com os seus dois helicópteros Lynx, bem como forças de ações especiais e fuzileiros, que - no quadro de guerra civil aberta em que a Guiné-Bissau mergulhou, depois do golpe militar do general Ansumane Mane contra o presidente Nino Vieira - conseguiu a proeza de resgatar com segurança 1237 refugiados de 33 nacionalidades.

Mas a vida do almirante não se esgota na sua componente estritamente militar. Conheci-o com mais proximidade e assiduidade a partir de 2008. Ambos assumimos como nosso - juntamente com Aristides Leitão, João Falcato e o vice-almirante António Sacchetti (entretanto falecido) - um desafio de Adriano Moreira, na condição de presidente da Academia das Ciências de Lisboa: organizar uma obra que sintetizasse o essencial da importância do mar no âmbito de um novo conceito estratégico nacional. A obra Políticas Públicas do Mar, Lisboa, Esfera do Caos, que contou também com o apoio da Fundação Gulbenkian e do Oceanário de Lisboa, foi publicada em 2010.

Ao longo dos anos seguintes continuei a testemunhar as qualidades pessoais, de inteligência e carácter, do almirante. A sua liderança na Academia de Marinha, o seu interesse pela história militar, na dupla vertente do conhecimento e da homenagem, que só a memória exata pode servir. Nos últimos anos, colaborámos no notável esforço em prol de uma visão integrada do mar, como realidade ecológica, económica, social e cultural, que está a ser desenvolvido pela Fundação Oceano Azul. Os oceanos são hoje um dos mais dramáticos indicadores da brutal irracionalidade da atual conduta humana na nossa casa comum. Mesmo já com a doença avançada, nunca o ouvi esboçar um gesto de protesto, revolta ou autocomiseração. A sua energia, voltada para o futuro do país e do mundo, não permitia veleidades ao "eu" que Pascal, com toda a razão, designava como "odioso". Aceitou a morte com a coragem com que enfrentou todos os outros desafios da vida.

Professor universitário

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