"Preocupa-me as crianças não nascerem do ser humano e serem artificiais"

A escritora considera que não é a máscara que afasta as pessoas: "Olham-se e compreendem-se umas às outras. Há cumplicidade entre elas como se tivessem sido feridas por um raio ao mesmo tempo. Está a acontecer qualquer coisa." Uma palavra de esperança em tempo de pandemia global.

Chegou às livrarias nesta semana a reunião de crónicas que Lídia Jorge disse em frente ao microfone da Antena 2 durante o ano passado. Intitulado Em Todos os Sentidos, tem na contracapa a referência ao facto de serem também páginas de intervenção, além de conterem uma antecipação do que a autora previa estar para acontecer aos habitantes do planeta, e que veio mais cedo do que esperava: "Houve uma aceleração para a cidade invisível, de um ciberespaço que significa estarmos todos juntos ao mesmo tempo nos ecrãs e, em simultâneo, esta possibilidade de a globalização ser um achatamento da nossa subjetividade. O avanço tecnológico é tão intenso que receio para breve que os seres humanos não tenham mais vida própria em segredo." Há também crónicas políticas: "São temas que foram importantes em 2019 e que não saíram da agenda." Garante que não evitou temas: "Os leitores e ouvintes suportam tudo."

Se lhe desse um rompante, que estátua pintaria de vermelho?
Assim de repente... já não há nenhuma de Salazar... a do padre António Vieira é que de modo nenhum, no máximo melhorar a conceção artística da figura iconográfica. Que os historiadores dizem ter de se respeitar integralmente porque o tempo histórico assim exige, mas eu acho que não é bem assim. Estive em Budapeste quando se derrubaram as estátuas de Lenine e, de facto, quando vi aqueles monstros deitados no chão fiquei contente. Fizeram bem, era uma coisa prepotente e artisticamente não tinham valor, porque não passavam de uma espécie de menir plantado no meio da cidade - e o ícone em si era ofensivo. Compreendo esses momentos da história em que a mensagem iconográfica seja tão forte e tão repulsiva que derrubem as estátuas.

É adepta da justificação de que é preciso fazer a contextualização do seu tempo?
Acho que sim, mas não deve ser feito com um olhar de vingança e muito menos se pode fazer um ajuste de contas de maneira a repor a história e a recompensar povos. Isso é desajustado, o importante é pôr em marcha uma solidariedade contemporânea e não retrospetiva. Repor cinco séculos de história e recompensar cinco séculos depois não é justo. Não sou a favor da justiça retroativa mas da fraternidade projetiva.

Bem, vamos começar a entrevista. Estas crónicas são desabafos de uma escritora?
Não diria desabafo, porque não envolve sofrimento. São textos que escrevi para criar uma ponte com os ouvintes e propor-lhes considerações de fim de tarde sobre matérias que tinham que ver com o meu quotidiano, de modo que prolongassem o que ia dizendo com os próprios pensamentos.

Não faltam bicadas sociais!
Não faltam, como sobre a sonsidão portuguesa por exemplo. Que é uma coisa que me toca e a muita gente pois tem que ver com a nossa conduta de silêncio absolutamente extraordinária, porque apesar de passarem os modelos - agora é o tecnológico -, os portugueses continuam peritos em responder com o silêncio. Nem sim nem não, e deixam que o tempo resolva a situação, o que é dramático porque envolve toda a estrutura social: desde o operário que promete chegar às oito da manhã e não vem nem diz a razão, até às instâncias mais altas do Estado. É um adiamento constante e ninguém é responsável porque foi a porta do silêncio.

Faz lembrar o silêncio do ex-ministro Centeno ao não se despedir dos portugueses?
Inscreve-se nisto exatamente, e eu gostava tanto daquele homem porque do ponto de vista afetivo foi alguém que se manteve com uma bonomia diante de nós e ajudou a ultrapassar momentos muito desagradáveis dando-nos esperança - mesmo quando sabíamos que nos estava a apertar - e mostrava uma atitude tão amigável que até parecia um menino desamparado. Só que na saída escolhe uma estratégia própria de um secundário; deveria urgentemente contar um pouco do que lhe vai na alma para não dar a imagem de uma saída falsa.

"O meu receio e o de muita gente é que o avanço tecnológico seja tão intenso, bem como a tecnologia associada à robótica e às neurociências, que em breve os seres humanos não tenham a capacidade de criar segredos em si próprios."

Estes textos contêm muita biografia. Foi difícil interpretá-los à frente do microfone?
Não foi, contei aquilo que posso contar e sem esforço. O que aconteceu foi que estas crónicas poderiam ser chamadas "crónicas da casa do bosque", porque a intenção do convite era que eu fizesse um relato biográfico semanal em que o pano de fundo não fosse apenas o do tempo que estava a passar mas mais vasto. Foi fácil utilizar esse instrumento duplo a partir da casa onde eu estava a viver (no Algarve), que é a da minha infância. Essa casa é mesmo no meio do mato, no barrocal algarvio, e permitiu-me fazer um patamar para considerações que são as propostas atuais de relacionamento de nós com a Terra de forma a não sermos tão sanguinários com ela como até aqui.

De onde vem a inspiração para as crónicas?
Vinha dos acontecimentos do dia-a-dia e, mesmo quando parece que não está lá essa marca, tiveram que ver com um registo biográfico do que foi acontecendo.

Sentiu o bloqueio da crónica em branco?
Não, isso nunca me acontece. O que há sempre é a luta entre os temas, que se sobrepõem e obrigam-me a escolher. Esse é o meu problema, uma abundância sobre a qual tenho de exercer um esforço seletivo.

São do tempo em que ainda havia um mundo "normal" para viver, antes da pandemia. Há um corte entre o que foi e o que será?
Não, pelo contrário. Não me arrependo de publicar estas crónicas porque ao regressar a elas percebo que não só eu previ muito do que veio a acontecer mas também muita gente - não se sabia era a sua configuração. Algumas destas crónicas são de antecipação, sobretudo a última, "A Cidade Invisível", que foi escrita a partir de um texto meu de há uns 20 anos para o jornal Libération. Era a resposta a uma pergunta feita a escritores de todo o o mundo: "Em que está a pensar?" Eu disse que estava a pensar numa cidade invisível e a ver aparecer uma cidade tecnológica, a que estava a levantar-se na altura. Os receios que então tinha subscrevi-os na véspera de 2020 e agora, que passámos estes meses de confinamento a viver um momento de intervalo, é curioso como voltaria a escrever exatamente o mesmo, mas sabendo que chegou aquilo que estava a ser previsto. Houve uma aceleração para a cidade invisível, de um ciberespaço em torno do planeta que significa estarmos todos juntos e ao mesmo tempo nos ecrãs - é um grande benefício -, no entanto o que está cada vez mais sobre os nossos olhos é a possibilidade de a globalização ser o achatamento da nossa subjetividade.

Receia o avanço tecnológico?
O meu receio e o de muita gente é que o avanço tecnológico seja tão intenso, bem como a tecnologia associada à robótica e às neurociências, que em breve os seres humanos não tenham a capacidade de criar segredos em si próprios. Não terem mais vida própria em segredo, aquilo que faz a nossa privacidade, e que em breve os nossos pensamentos possam ser escrutinados e não só a nossa vida íntima.

Está cada vez mais próximo esse tempo?
Já em 2000 eu me preocupava com essas questões, mas neste momento cada vez mais. Como é a ideia de as crianças não nascerem do ser humano. Não nascerem do simulacro dos beijos ou dos beijos, mas serem artificialmente previstas fora do que é o casal humano. Já tinha todos esses receios há 20 anos e agora considero que estamos mais à beira dessa cidade invisível.

Não há esperança?
Tenho elementos que me dão esperança, como o de a revolta do corpo ser tão forte que queiramos estar uns com os outros, que os pensamentos mais profundos sejam feitos em conjunto e diante dos rostos dos outros, que a nossa relação com o trabalho acabará por ser mais com o mundo real do que com o virtual. Temos desejo porque somos matéria não virtual, seres corpóreos que nascem da Terra. Acredito que a condição de ser gente será tão forte que não permitirá que se chegue ao exagero que referi.

Mesmo que as novas gerações tenham necessidades muito diferentes?
Há um filme muito interessante do Scorsese, A Última Tentação de Cristo, em que no momento após Jesus ressuscitar Lázaro a população pergunta-lhe: "Como é que se parece a morte?" E Lázaro diz:"É muito semelhante à vida." Isso marcou-me muito, porque aquilo que vai acontecer é muito mais semelhante ao que está a existir. Afinal, estamos condicionados pela nossa parte física e tenho muita esperança de que a medida do corpo ainda molde o futuro.

Na quarentena, todos os lugares de culto estiveram fechados. Qual terá sido o efeito?
Durante a pandemia, como esses espaços ficaram silenciosos, as pessoas foram afetadas sobretudo por uma angústia ontológica, pois fugiu-se do elemento biológico e pensou-se que nós podemos desaparecer enquanto a Terra continuará a rodar alegremente. Isso é um choque, mas há outro grande momento de desequilíbrio ontológico, que é a ideia de que o nosso inimigo não é o próprio homem, como em geral pensamos, mas a natureza. Isso para os adolescentes deve ser alguma coisa de tremendo, que lhes causará uma angústia extraordinária. Acho que as pessoas pensaram também "e, no entanto, isto não é tudo", porque se não pensarem assim entramos numa depressão planetária.

Numa crónica pergunta "quem engoliu a literatura?" Essa pergunta tem uma resposta nova após a quarentena ou ainda não existem as cenas do próximo episódio?
A pergunta mantém-se e há cenas do próximo episódio a serem filmadas. Neste momento há uma contradição enorme, em primeiro lugar por se ter chamado a atenção para o livro em toda a parte. Como nas videoconferências na televisão, que foram uma alegoria do momento, em que as pessoas tinham o computador em frente às estantes e todas apareciam diante de livros. Como houve quem troçasse nas redes sociais mudaram de sítio, mas a verdade é que se percebeu que quem aparecia tinha uma biblioteca em casa. Por outro lado, apareceram muitas pessoas a falar de livros, numa espécie de SOS pelo livro, como um elemento capaz de preencher o silêncio desses dias. É verdade que as pessoas não compraram livros, portanto o negócio praticamente desapareceu e as livrarias ou fecharam ou entraram em falência. Pode ter sido a machadada final nos livros, até porque o Ministério da Educação reserva grande parte do orçamento para a desmaterialização dos livros. Pode ser que haja uma seita que esteja unida em torno dos livros e forme uma resistência. Veremos quem vencerá após estes dias.

Em Todos os Sentidos, de Lídia Jorge, uma coletânea de crónicas editada pela D. Quixote, 261 páginas.

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