O nosso leitor algarvio, os talibãs e o pão para 200 refugiados afegãos

Durante anos guardei o pedaço de papel pardo em que um padeiro de Islamabad se comprometia a fornecer pão todos os dias durante um mês a um grupo de refugiados afegãos. Disse ao padeiro que o papel ficaria à guarda oficial da nossa embaixada no Paquistão, para o forçar a cumprir o acordo feito comigo e mais três jornalistas portugueses, mas o próprio líder dos afegãos desapareceu por uns momentos do sítio onde fazíamos o negócio para reaparecer minutos depois com uma fotocópia.

Falava algum inglês, tinha trabalhado em jovem nos poços de petróleo no golfo Pérsico, mas as sucessivas guerras no Afeganistão tinham-no feito miserável. Quando me disse ter 50 anos fiquei chocado, pois parecia ter mais 20, no mínimo, mas pensei em como envelheceu Sharbat Gula, a menina afegã que Steve McCurry fotografou e foi capa da National Geographic, e concluí que ficar velho em novo devia ser quase regra numa terra onde mal mal acaba um conflito começa logo outro: tinha sido a invasão soviética, depois os mujaedines contra o regime comunista abandonado por Moscovo, depois os mujaedines uns contra os outros, depois ainda os talibãs contra os mujaedines e agora - estávamos em outubro de 2001 - os Estados Unidos contra os talibãs. Sim, o que conto aconteceu há 20 anos e tem muitas parecenças com o que se está hoje a passar em 2021, com os talibãs de volta.

O pão foi pago por um leitor do DN. O tradutor afegão da dupla da RTP que estava comigo no Paquistão a tentar entrar no Afeganistão, na sequência do 11 de Setembro, tinha-nos avisado, caía já a noite, que um grupo de refugiados tinha acabado de chegar à capital. Fomos lá e depois de conversarmos com o tal líder do grupo (às vezes penso que o nome era Massud, mas já não tenho a certeza) e de ouvirmos como, fugindo tanto à violência talibã como às bombas americanas, dependiam da generosidade dos clientes paquistaneses daquela padaria num bairro de classe média, combinámos os quatro (também o enviado da TSF) pagar algum pão para aquele jantar. Cada um deu uma nota de 100 rupias e foi uma surpresa quando vimos que toda a gente recebia naan, o tradicional pão achatado. A RTP acabou por fazer algumas filmagens mais, a TSF fez também gravação e eu tomei nota da alegria das duas centenas de homens, mulheres e crianças sentados na rua e enviei uma pequena reportagem extra, sempre com a preocupação de não fazer dos jornalistas heróis.

Ligou-me no dia seguinte José António Santos, na época chefe de redação do DN. Um leitor do Algarve tinha feito chegar ao jornal 100 contos, hoje seriam 500 euros, para comprar pão para o grupo do senhor Massud. Fui autorizado a trocar parte dos meus dólares de reserva por rupias e entregar aos refugiados. Com a ajuda do tradutor da RTP, voltei a conversar com o chefe do grupo que me disse ser má ideia distribuir o dinheiro pelas famílias, umas maiores, outras mais pequenas. Sugeriu antes que o dinheiro fosse usado todo de uma vez. Pedi um documento de identificação ao padeiro e escrevi em inglês o nome dele e um texto em que se comprometia a fornecer certa quantidade de pão todos os dias, durante um mês. Depois, pedi-lhe que copiasse palavra por palavra, para ficar com a sua própria letra. Foi talvez excesso de zelo meu, mas queria ter a certeza de que era respeitada a generosidade do português que se tinha comovido com a vida sem nada daqueles afegãos.

Nunca soube quem foi o leitor algarvio. Se ler estas linhas, creio que reconhecerá a história, pois então a direção do DN deu-lhe conta de que a doação tinha chegado às mãos certas. Tempos depois, regressei a Portugal, e entretanto os talibãs foram derrotados. Fui finalmente ao Afeganistão uns anos mais tarde e, se a Cabul que vi ainda estava muito destruída, acreditei que a vida estava a melhorar, graças à ajuda das forças internacionais, que agora retiraram. Não sei se os refugiados daquela noite em Islamabad alguma vez regressaram a casa, mas acredito que terão minimizado a fome durante algumas semanas por causa do efeito inesperado de uma reportagem num jornal. Não consigo deixar de pensar quantos mais grupos como o do senhor Massud estão agora na estrada a tentar fugir.

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