48% das empresas não esperam sentir qualquer efeito do PRR

Inquérito da CIP mostra que só 17% acreditam no impacto da bazuca europeia. 29% apontam fim da crise para 2023 ou mais tarde

O Plano de Recuperação e Resiliência não terá significado para cerca de 48% das empresas portuguesas. Pelo menos, é essa a convicção dos empresários que responderam ao mais recente inquérito da CIP, o que leva Óscar Gaspar, vice-presidente do conselho geral e vogal da direção da Confederação Empresarial de Portugal a considerar que "ainda estamos a tempo" de alterar oplano, de modo a "torná-lo mais eficaz e mais próximo das necessidades da economia nacional".

Além disso, este responsável apelou, ainda, a uma rápida aprovação dos planos e implementação. "É uma situação muito difícil de compreender. Estamos em situação pandémica desde março do ano passado, já lá vai mais de um ano, e a verdade é que por muito que se fale da bazuca europeia e dos apoios, nós vemos os EUA a avançar com apoios à economia e a Europa continua a marcar passo", defendeu Órcar Gaspar no final da apresentação da 14º inquérito "Sinais Vitais".

Este é um projeto da CIP com o Marketing FutureCast Lab do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, a propósito da covid-19, e que recolheu, nesta edição, respostas de 618 empresas, 79% das quais micro e pequenas empresas, com um grande peso dos setores da indústria e energia (39%), outros serviços (27%), comércio (14%) e construção e atividade imobiliárias (6%).

O inquérito foi lançado a 7 de abril, mas a CIP não acredita que, se fosse hoje, e com as mudanças entranto introduzidas no plano, apresnetado na passada eexta-feira, tal constituísse motivo para grande mudança nas respostas obtidas. "Tanto quanto nos é dado a perceber, não houve alterações profundas em relação aquilo que era a versão draft", defende Óscar Gaspar, que só vê como positiva a decisão de colocar os investimentos no mar como um dos pilares autónomos do plano. De resto, diz, "não noto nenhuma diferença significativa" nas restantes componentes.

Este responsável destaca apenas que "parece haver um maior relevo" em relação ao Banco de Fomento, o que "parece ser uma notícia positiva". No entanto, sublinha que a propósito dos instrumentos de capitalização, "não sabemos do que estamos a falar, de que tipo de instrumentos ou de como se pretendem implementar".

O inquérito mostra, ainda, que 42% das empresas esperam encerrar o primeiro semestre de 2021 com uma quebra média de 46% do seu volume de negócios, face ao período pré-pandemia, sendo que, dos 35% que antecipam um aumento de faturação, esse crescimento se fica pelos 21%. Na verdade, só 10% das empresas espera conseguir chegar ao final do ano com um nível de atividade semelhante ao verificado antes da covid-19, enquanto que 32% das empresas acredita que só o conseguirá em 2022. Há 19% que aponta para uma recuperação em 2023 e 10% que são ainda mais pessimistas e defendem que tal só acontecerá depois de 2023.

Não admira, por isso, que 31% das empresas admita cortar investimento em 2021 (comparativamente a 2019), número que sobe para 44% no caso das grandes empresas. Quanto aos recursos humanos, 75% dos inquiridos admite que não vai fazer mexidas, mas há 12% que pretende diminuir a sua equipa já no próximo trimestre. E, mais uma vez, a percentagem é maior no universo das grandes empresas, já que só 60% destes inquiridos esperam manter o mesmo nível de emprego, enquanto 20% conta despedir.

Para Óscar Gaspar, o facto de 75% dos inquiridos sinalizarem a vontade de manter as suas equipas denota o "esforço brutal" das empresários e "a sua resiliência". Apesar da crise e da quebra do PIB, "a verdade é que o mercado de trabalho se aguentou e as empresas fizeram tudo para, pelo menos, manter o número de colabodores que tinham, um dado importante não só em termos sociaisi, mas também, em termos económicos, porque significa que não houvr aqui uma delapidação da capacidade produtiva das empresas, que estão à espera que haja novas condições no mercadopara ganhar plena atividade", frisa.

Os apoios à economia foram vitais, reconhece a CIP, mas que deixa o alerta para que estes não sejam retirados cedo demais. "Estamos no segundo trimestre de 2021 e a crise continua a existir, não é altura de retirar os apoios. Se é verdade que o mercado de trabalho resistiu o ano passado, por estes dois fatores, os apoios e a capacidade das empresas, é necessário mantê-los para que não haja aqui uma derrapagem", sublinha.

Isto apesar de só 40% dos inquiridos não terem tido acesso a qualquer tipo de apoio, maioritariamente (47%) por não preencherem as necessárias condições de elegibilidade. O que não significa que os empresários considerem os apoios como suficientes, Pelo contrário. Sem surpresa, face a anteriores inquéritos da CIP, 84% dos inquiridos consideram que os programas de apoio "estão aquém ou muito aquém do necessário" e 66% considera que o acesso aos mesmos é burocrático ou muito burocrático.

Sobre o plano de desconfinamento, 59% dos empresários consideraram-no adequado, sendo "demasiado lento ou restritivo para 20% dos inquiridos" e "demasiado rápído ou imprudente" para 21%. Mas também há melhorias. É que embora 32% das empresas registem, a 1 de abril, uma diminuição da carteira de encomendas, no inquérito anterior essa fatia era de 44%. Há já 15% de inquiridos com um aumento da carteira de encomendas, contra os 9% anteriores.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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