Têxtil com 75% das empresas em 'lay-off' em maio

Setor trabalha em contrarrelógio para a certificação da chamada máscara social. "A têxtil portuguesa pode ajudar a salvar a economia europeia", diz o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP).

Quase dois terços das empresas do setor têxtil e do vestuário aderiram já ao lay-off simplificado, nas suas várias vertentes, mas o número vai continuar a subir. É que das que continuam a laborar, 30% admitem que ponderam, ainda, recorrer a este mecanismo, o que deverá elevar para quase 75% o número total de empresas em lay-off.

Os dados são do inquérito promovido pela Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) junto dos seus associados e ao qual responderam já 150 empresas, uma amostra "representativa da realidade do setor". Para Mário Jorge Machado, presidente da instituição, estes números vêm mostrar a "importância do lay-off para salvar empregos", já que, diz, sem esta medida "é fácil de ver que as empresas não sobreviveriam".

O inquérito está, ainda, em curso, até à próxima segunda-feira, mas as 150 respostas já obtidas mostram que 20% das empresas estão em lay-off total, sem qualquer operação, e 19% optaram pela redução do período de trabalho. A modalidade mais usada é, no entanto, o lay-off com a redução do número de trabalhadores em atividade. São 25% das empresas que estão nesta situação. No total, são 96 em 150 empresas, ou seja, cerca de 64%. Das 54 restantes, são 16 as que admitem ainda recorrer ao lay-off, o que fará subir a percentagem total para 74,6%.

Questionadas sobre as perspetivas de retoma, as empresas admitem ter 20% a 30% da produção comparativamente a um mês habitual em maio, valor que sobe para 40% a 50% no mês seguinte. O que indicia, diz Mário Jorge Machado, que "as empresas estão muito receosas" quanto à retoma.

Mas este responsável acredita que a situação poderá mudar, em resultado da recomendação da Direção-Geral da Saúde para o uso de "máscaras sociais" em ambientes fechados, como supermercados e transportes.

A fileira têxtil tem, aliás, a ambição de "ajudar a salvar a economia, nacional e europeia", através da produção em massa destas máscaras sociais, um produto têxtil, que será lavável e que terá uma retenção mínima de partículas de 70%. O seu uso generalizado permitirá pôr fim ao confinamento e levar à retoma dos vários setores de atividade, sem receio de um aumento dos casos de covid-19, salienta o presidente da ATP, dando como exemplos zonas geográficas como Hong Kong, Singapura ou a República Checa em que o uso de máscara se tornou obrigatório e se revelou um sucesso no controlo de novos surtos da doença.

Definidos os requisitos de segurança a cumprir, com o apoio do Infarmed e da Direção-Geral da Saúde, as máscaras sociais têm de ser testadas e validadas pelos laboratórios componentes. E ao centro tecnológico do setor, o Citeve, estão já a chegar "centenas de pedidos empresas" de certificação das suas máscaras. À medida que forem sendo homologadas, poderão começar a chegar ao mercado e, garante Mário Jorge Machado, o setor está preparado para produzir milhões destas máscaras, que poderão ser de nível 2, destinadas a pessoas que estejam em contacto direto com o público, designadamente funcionários de supermercado ou de lojas, e que asseguram uma retenção de partículas da ordem dos 90%, ou de nível 3, destinadas à população em geral e, asseguram, com uma retenção de 70% das partículas. Terão de manter as suas propriedades intactas após, no mínimo, cinco lavagens, mas há intenção de as fazer com resistência a muitas mais lavagens. Algumas empresas estão já a testar produtos com resistência até 50 lavagens.

Mário Jorge Machado admite que estas máscaras poderão custar seis a sete euros até 15 ou 20 euros cada uma, consoante a resistência que tiverem e as funcionalidades que lhes forem associadas. Há empresas que se preparam já para lhes aplicar produtos antimicrobianos e repelentes à água. E não será de admirar que haja quem venha a impregnar as suas máscaras com vitaminas, de modo a que, ao serem usadas, funcionem, m simultâneo como um tratamento de beleza.

"Uma máscara descartável custa ao fim de uma semana 14 euros. Se puder gastar oito ou nove euros por uma que possa usar durante um mês estou a poupar dinheiro e estou, sobretudo, a poupar o ambiente. A questão da sustentabilidade é aqui fulcral, porque não podemos imaginar que sete milhões de portugueses vão sair à rua todos os dias de máscara descartável e deitar 210 milhões de máscaras por mês ao lixo", defende este responsável.

É todo um novo mercado que se abre, não só em Portugal, mas na Europa. O problema é que cada país está a aprovar a sua própria legislação e as empresas que quiserem exportar terão de conseguir aprovar as suas máscaras em cada país de destino. E, por isso, a ATP, enquanto membro da Euratex, a federação têxtil europeia, endereçou esta semana um pedido à Comissão Europeia para que "recomende aos diferentes Estados membros que aceitem a venda no seu país das máscaras sociais, desde que devidamente aprovadas no país de origem", explica Mário Jorge Machado. Ao governo português, a ATP recomendou que estabeleça que, em todos os concursos públicos de fornecimento do Serviço Nacional de Saúde, pelo menos 50% dos artigos tenham de ser de fabrico europeu. "É a forma de garantirmos que vamos montar uma base industrial de produção de equipamento para a saúde na Europa", sublinha.

Para este responsável, a Europa "foi míope" em não garantir essa base industrial, que lhe assegurasse "autonomia face a países terceiros" e espera que a crise de covid-19 sirva para que se retirem as devidas ilações. "Estou muito confiante que sim, que o custo que está a ter esta aprendizagem para a União Europeia vai servir para percebermos a importância do setor industrial", frisa.

E Portugal, que detém "o maior cluster têxtil" da Europa, está especialmente preparado para ajudar a conter a pandemia, através da colocação de milhares de máscaras no mercado, para adultos e crianças. As grandes superfícies, as farmácias, as lojas dos CTT e os quiosques são alguns dos circuitos comerciais que já demonstraram "muito interesse" em receber este novo produto.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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