O Centro de Comando para as Operações Militares - CCOM.

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Os planos, a tensão e o bunker "secreto" da guerra biológica nas Forças Armadas

Exclusivo DN. Dois generais de topo, um no bunker do centro das operações, outro no planeamento do EMGFA, mostraram ao DN como estão a enfrentar a "guerra biológica". A tensão, revelam, não tem precedentes: "As nossas famílias também estão no cenário de guerra."

Ainda não tinha sido confirmado em Portugal o primeiro caso de contágio de covid-19 e as Forças Armadas já preparavam e separavam os seus militares para os proteger e preservar as capacidades operacionais. Ao longo das últimas semanas, os militares surgiram em várias frentes de apoio à sociedade civil. Em lares de idosos, a distribuir refeições a sem-abrigo, a transportar material para as autoridades de saúde, na produção de equipamentos, na inovação científica.

Como planearam e se organizaram? Dois generais de topo, um no centro das operações, outro no planeamento do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), explicaram ao DN como estão a enfrentar esta "guerra biológica", contra um "inimigo invisível": o vice-almirante Henrique Melo Gouveia, adjunto para o Planeamento e Coordenação no EMGFA, e o general Marco Serronha, chefe de Estado-Maior do Centro de Comando das Operações Militares (CCOM).

Famílias no palco de guerra

Quando estava há um ano em Bangui, na República Centro-Africana (RCA), Marco Serronha, tenente-general do Exército, sabia os riscos que ele e os seus militares corriam naquela missão perigosa. Estavam treinados para isso. "Era um ritmo operacional intenso", recorda. Nesta semana, quando falou retrospetivamente ao DN no seu gabinete do bunker onde está instalado o CCOM, diz que "quase não" sentiu "a diferença" no que diz respeito à "intensidade" de trabalho.

"A tensão é muito maior entre os militares porque as suas famílias, amigos, estão todos no cenário desta guerra biológica. O facto de termos os familiares perto e em risco também contra o 'inimigo' acaba por ser um fator perturbador."

Mas este oficial general, de 59 anos, que esteve também a comandar militares no Kosovo e na Bósnia, não hesita em afirmar que "não viveu outro conflito como este". "A tensão é muito maior entre os militares porque as suas famílias, amigos, estão todos no cenário desta guerra biológica. O facto de termos os familiares perto e em risco também contra o 'inimigo' acaba por ser um fator perturbador", reconhece.

A assumida vulnerabilidade deste general, que tem o curso de Comandos e Operações Especiais, não o desarma. Nem a ele nem aos outros militares que ali estão "encerrados" no subterrâneo e contam os dias para poder ir a casa respirar.

Ninguém entra naquele bunker sem ver medida a sua temperatura e sem usar luvas e máscara protetora. A entrada é estritamente reservada a militares autorizados e as exceções têm de ter luz verde do chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

Ao longo do corredor de cimento e cabos nas paredes, que vai entrando pelo subsolo e leva à sala de situação, não se vê vivalma, a não ser os militares que nos acompanham. Na sala de operações, onde converge toda a atividade de Exército, Marinha e Força Aérea, só podem entrar os 12 militares designados, seis em cada turno. Antes do estado de emergência eram três.

"Ainda em fevereiro, antes de o primeiro caso de covid-19 ser confirmado em Portugal, uma das primeiras medidas que foram tomadas em todas as unidades foi dividir cada equipa em duas. Uma está de serviço 14 dias seguidos (o tempo estimado da incubação deste novo coronavírus) e a outra está em casa de quarentena. Era preciso garantir a preservação das nossas capacidades operacionais", tinha explicado Gouveia e Melo, o homem que tem como missão antever os problemas e propor soluções.

No coração das operações

No CCOM é assim também e no caso dos militares que estão na sala de operações as regras são mesmo apertadas. "Os que estão de serviço dormem aqui e não interagem com ninguém, os que estão em casa também têm de se proteger como se estivessem de quarentena. Até agora não houve nenhuma baixa", sublinha Marco Serronha.

"O CCOM é o coração das operações das Forças Armadas. Com os planos preparados de antecedência, a partir do dia zero, quando foram confirmados oficialmente os primeiros infetados (2 de março), definimos um plano de continuidade de trabalho em casa, em segurança", afiança o general.

É a este centro de comando que chegam os pedidos de apoio às Forças Armadas, canalizados através da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).

É a este centro de comando que chegam os pedidos de apoio às Forças Armadas, canalizados através da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Marco Serronha verifica as disponibilidades nos ramos e depois a coordenação das operações localmente é feita por um oficial de ligação que está colocado em cada um dos CODIS.

Nas contas até esse dia, já tinham sido respondidas, em pouco mais de um mês de pandemia, quase 300 solicitações. "Começou com as tendas para a triagem nos hospitais, depois nas prisões, depois foi o apoio à transferência e instalação nos nossos hospitais de idosos doentes, provenientes de lares, muitos pedidos de transporte de material (equipamentos e medicamentos), montagem de camas... nunca mais parou", assinala este oficial general, que tem o curso de Comandos e Operações Especiais. (ver mais abaixo o balanço das principais operações das Forças Armadas em apoio ao combate ao covid-19).

No dia em que falámos, até às 11 da manhã tinha chegado um pedido de uma câmara municipal para a cedência de 200 camas. Assinala também o aumento dos pedidos de transporte aéreo (para levar medicamentos e equipamento às regiões autónomas, por exemplo) e terrestre, "que antes praticamente não se fazia e agora é frequente e intenso por todo o país".

Comparando com as experiências de outras guerras, Marco Serronha sublinha que nesta "o risco é para toda a gente". Porque "enquanto numa missão no exterior estamos 100% focados no trabalho, preocupados com a nossa segurança e a família é só um bocadinho à noite no Skype, agora a nossa atenção tem de estar distribuída".

"É mais exigente esta operação do que na RCA. Lá a tensão é temporária, aqui é permanente. Aqui temos a preocupação com os militares, com as operações, mas também há os riscos pessoais e familiares. Temos de estar focados em mais coisas e isso é mais exigente do ponto de vista físico e psicológico."

Sob o ponto de vista da tensão, sublinha, "é mais exigente esta operação do que na RCA. Lá a tensão é temporária, aqui é permanente. Aqui temos a preocupação com os militares, com as operações, mas também há os riscos pessoais e familiares. Temos de estar focados em mais coisas e isso é mais exigente do ponto de vista físico e psicológico".

O melhor cenário aconteceu

No dia em que falámos, o Presidente da República tinha-se reunido com o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro. Em nota oficial, Belém adiantara que tinha sido analisado um possível maior envolvimento dos militares no combate ao covid-19.

Este avanço, que podia implicar que os militares pudessem, em alguns pontos do país, estar ao lado dos polícias a reforçar cercas sanitárias, na fiscalização e no controlo de fronteiras, acabou por não ser necessário ainda.

Conforme o DN já noticiou, esse era um dos cenários previstos e preparados pelas Forças Armadas, mas no EMGFA, Gouveia e Melo é o primeiro a dizer "ainda bem que não foi preciso". Nos planos que preparou, esse momento era quando as forças de segurança entrassem em rutura e não conseguissem proteger a população.

"Para esta altura, esse era o cenário pior que tínhamos estimado. Mas o que está a acontecer mostra a maturidade das nossas instituições e da própria democracia, as autoridades de saúde, as polícias e a Proteção Civil têm respondido de forma extraordinária a esta crise e as Forças Armadas prestam o apoio que for necessário, onde, quando e da forma solicitada", assevera este almirante.

Gouveia e Melo é meticuloso nos planos, paciente - ou não tivesse estado embarcado quase 18 anos nos submarinos da Marinha. "Tenho de estar sempre a pensar para daqui a um/três meses, desenhar os vários cenários possíveis, tendo em conta a evolução e a propagação da doença, que acompanhamos ao detalhe através de equipas especiais que foram criadas aqui no EMGFA."

No início estimaram que era preciso reforçar a disponibilidade de camas para doentes, caso o sistema de saúde esgotasse rapidamente, e foram criados vários centros de acolhimento de reserva. Já estão montadas por todo o país mais de cinco mil camas cedidas pelos três ramos, mais as cerca de duas mil dos centros de acolhimento criados em várias unidades militares.

Prevenir, preservar e responder

No seu gabinete tem um quadro onde vai anotando as preocupações. As suas e, boa parte das vezes, as do próprio almirante Silva Ribeiro. "Aqui somos como uma máquina cerebral que tenta evitar as emoções e procura soluções, o CEMGFA manda pensar numa solução e preparamos os planos. Planear e raciocinar, com base nos dados existentes, para fazer as melhores previsões de modo a que as operações, que têm de ter estar com os 'pés no chão', consigam dar resposta", explica.

Um quadro destaca-se no gabinete deste oficial que era o comandante naval da Marinha. "Prevenir, Preservar e Responder" são os três pilares sempre presentes.

Os vários tópicos registam as preocupações para os próximos dias: as forças nacionais destacadas (é preciso saber como proteger estes militares colocados em missões no estrangeiro); o emprego dos voluntários (são mais de 7800 civis que se ofereceram para apoiar as FA); o Hospital das Forças Armadas (que está preparado para receber doentes infetados e a apoiar a investigação e a inovação de novos equipamentos de proteção); formação das brigadas de desinfeção (vão estar preparadas 60 novas equipas, com cinco militares cada uma); a sustentação (o plano prevê uma reserva de material de proteção para 90 dias e é preciso garantir que se mantém a fasquia" - são alguns exemplos de inquietações que Gouveia e Melo vai colecionando na cabeça.

No seu gabinete estão dois borrifadores com desinfetante que vaporiza pelos sofás antes e depois de nos sentarmos.

O renascer da velha força

"Já estamos a pensar em como as pessoas podem ir voltando ao trabalho, sem que a doença se propague mais. Todos os procedimentos de proteção têm de se tornar automáticos", sublinha este oficial da Marinha.

Os idosos infetados em lares, que se estima virem a aumentar, é outro dos "problemas" que provocam alguma apreensão na equipa de planeamento.

Os idosos infetados em lares, que se estima virem a aumentar, é outro dos "problemas" que provocam alguma apreensão na equipa de planeamento. "Tem de se analisar cada situação e ver qual a melhor solução: se houver espaço no lar, pode separar-se os infetados dos outros, em zonas diferentes; se não houver tem de se decidir se os que saem são os infetados ou os outros", afiança. Há cerca de cem mil idosos instalados em lares de todo o país. Tudo terá de ser coordenado com a Direção-Geral da Saúde e a Segurança Social.

Mas o verão está também já na cabeça deste oficial para o planeamento."Além do covid-19, temos de nos preparar, paralelamente, para os incêndios florestais, o mais provável ainda sob as regras de proteção contra a doença. Estamos preparados para reforçar o nosso apoio à Proteção Civil, com mais militares na vigilância e com a utilização da nossa tecnologia, como os drones, para apoiarem esta missão", promete.

Quem há dois meses olhasse as notícias sobre as Forças Armadas, à parte dos elogios internacionais aos militares portugueses em missão no estrangeiro, como na RCA, veria um instituição ferida, ainda a recuperar do escândalo do assalto a Tancos que mostrou um estado de degradação inimaginável, leria a carta de um grupo de generais a alertar para a sua "pré-falência" e o próprio CEMFA a reconhecer que a situação era "insustentável", devido a falta de efetivos.

A pandemia acabou por fazer renascer a velha força, aquela capaz de atrair mais de 7800 voluntários, a que está em várias frentes, abnegada e viva. "Sentimos as mesmas dificuldades que o país sente e há um grande sentido de urgência em dar as respostas necessárias. Os militares sempre quiseram abrir-se à sociedade civil. Sempre houve resistência de certas corporações, dentro e fora, mas nas crises essas resistências tendem a desaparecer. Não queremos ocupar o espaço de ninguém, aportaremos as nossas capacidades na medida que o país delas necessitar. Esta crise acaba por mostrar o melhor que o país tem, a unidade de todos para o bem comum", conclui Gouveia e Melo.

Apoio das Forças Armadas no combate à pandemia

LARES DE IDOSOS
- O Hospital das Forças Armadas (HFAR), Polo do Porto, acolheu 57 idosos de 3 lares (Vila Real, Famalicão e Albergaria a Velha).
- Foi realizada a desinfeção de dois lares pelo Exército (Resende e Vila Real) e um pela Marinha.

Disponibilidade para:
- Transporte das equipas que vão recolher amostras para análises.
- Formação aos funcionários dos lares na área das desinfeções.

APOIO NA REALIZAÇÃO DE DESINFEÇÕES
- Em curso a criação de 60 equipas do Exército para efetuar desinfeções. A Marinha dispõe de 20 equipas prontas.
- Desinfeção do Centro de Saúde de Melgaço e da Unidade de Cuidados Continuados da Santa Casa da Misericórdia de Torre de Moncorvo pelo Exército.

APOIO MÉDICO A DOENTES DO SNS
- O HFAR, Polo do Porto, está a realizar sessões de hemodiálise a 16 doentes do Hospital de Braga.
- O HFAR, Polo do Porto, acolheu seis idosos (covid-19 positivos) do Hospital Pedro Hispano de Matosinhos.

DISPONIBILIZAÇÃO DO HFAR E DAS LINHAS DE APOIO DAS FORÇAS ARMADAS
- Os serviços de triagem e internamento do HFAR foram disponibilizados para os funcionários do Ministério da Defesa Nacional, do Serviço de Informações da República, da Polícia Judiciária e inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

AUMENTO DA CAPACIDADE DE RESPOSTA DO HFAR, POLO DE LISBOA
- Montagem de agrupamento sanitário nas instalações do campus de Saúde Militar, com 32 camas.
- Implementação de sistema de colheitas rápidas para testes ao covid-19, em regime de ambulatório no campus de Saúde Militar.

DISPONIBILIZAÇÃO DE CENTROS DE ACOLHIMENTO AO SNS
- Centros de acolhimento localizados em 11 unidades militares no continente e ilhas.
- 1241 camas já disponíveis para cuidados de saúde não diferenciados, número que pode ser aumentado até ao máximo de 2300 camas (em moldes a definir oportunamente).

IDENTIFICAÇÃO DE VOLUNTÁRIOS DA FAMÍLIA MILITAR PARA APOIO AO SNS E FORÇAS ARMADAS
- Mais de 7800 voluntários inscritos com diferentes valências, para apoiar o SNS e as FA.
- Foram contactados 428 voluntários da área da saúde, apoio hospitalar e gestão, dos quais 120 já estão prontos ou a desempenhar funções.
- No HFAR,Polo Porto, 21 enfermeiros prontos a desempenhar funções; seis elementos de apoio hospitalar já a dar apoio nos serviços da lavandaria, de segurança e da alimentação.
- No HFAR, Polo Lisboa, 63 profissionais da área da saúde (médicos, farmacêuticos, enfermeiros, auxiliares de ação médica) prontos a desempenhar funções; dois estão a dar apoio, na organização dos voluntários.
- No Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA), dez voluntários da área da saúde, prontos a desempenhar funções.
- No gabinete do CEMGFA, trêsvoluntários (dois da área de gestão de recursos humanos e um da área de gestão de catástrofes) prontos a desempenhar funções.
- No Hospital Militar de Belém, 15 enfermeiros, prontos a desempenhar funções.

DISPONIBILIZAÇÃO DE CAPACIDADE LABORATORIAL AO SNS
Unidade Militar Laboratorial de Defesa Biológica e Química do Exército:
- Realização de testes ao covid-19 (50 por dia) às Forças Armadas e sorças de segurança.

Laboratório Militar do Exército:
- Aumentada a produção diária de gel desinfetante (2700 litros/dia).
- Apoio no armazenamento, gestão e distribuição da reserva estratégica dos medicamentos e dispositivos médicos do SNS.

APOIO AOS SEM-ABRIGO

- Distribuição diária de 1200 refeições (almoço e jantar) aos sem-abrigo de Lisboa pela Marinha e pelo Exército.
- Distribuição de 5000 máscaras aos sem-abrigo de Lisboa.
- Apoio no equipamento dos centros de acolhimento de sem-abrigo no Funchal e em Tavira (camas, colchões, cobertores, lençóis, fronhas, mesas e cadeiras).

MONTAGEM DE HOSPITAIS DE CAMPANHA E POSTOS MÉDICOS (TENDAS/CAMAS)
Disponibilizadas mais de 70 tendas e cerca de 5000 camas, e outros materiais, no continente e arquipélagos, para:
- Montagem de postos médicos avançados em unidades hospitalares, nos estabelecimentos prisionais de Custóias e de Ponta Delgada, e no hospital prisional de Caxias em apoio à Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.
- Equipar hospitais de campanha, na Cidade Universitária de Lisboa e no Pavilhão Rosa Mota do Porto, assim como centros de acolhimento de vários municípios.

APOIO EM TRANSPORTES E LOGÍSTICA AO SNS

- Ativado o Centro Logístico Conjunto que garante a distribuição e o armazenamento de material que chega do estrangeiro e das doações realizadas ao SNS. Este centro coordenou até ao momento 22 ações, tendo sido transportadas dez toneladas de carga e percorridos cerca de três mil quilómetros.
- Transporte de 15 toneladas de EPI pelo Exército, entre o aeroporto de Lisboa e o Laboratório Militar (Reserva Estratégica de Medicamentos do Ministério da Saúde).

TRANSPORTE AÉREO DE MATERIAL E PESSOAL

- A Força Aérea efetuou o transporte de oito toneladas de material médico e de proteção individual entre o continente e os arquipélagos, para várias entidades.
- A Força Aérea realizou o repatriamento de 23 cidadãos, de França e da Roménia.

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