Um maravilhoso português do Brasil

Era como se, nas mãos deles, a música sempre voltasse ao primeiro dia da Criação. Uma das coisas que o Brasil legou de melhor ao século XX foi a sua escola de violonistas modernos - homens não apenas capazes de dar uma roupagem nova ao repertório clássico do samba e do choro, mas que se especializaram, desde 1940, em propor ousadas novidades técnicas, harmónicas e rítmicas. E que, para surpresa geral, não só conheceram o sucesso comercial como tiveram até presença internacional.

Alguns desses violonistas foram Laurindo de Almeida, que trabalhou durante anos na lendária orquestra "progressiva" de Stan Kenton e depois tocou em mais de 300 filmes de Hollywood; Luiz Bonfá, autor de Manhã de Carnaval e disputado como acompanhante pelos cantores americanos; João Gilberto, que inventou a batida de violão da bossa nova, e não é preciso dizer mais nada; Baden Powell, que transportou essa batida para as regiões mais primitivas da música brasileira e criou um estilo original, inclusive de composição; e, claro, toda a bossa nova que, exceto pelo piano de Tom Jobim, Newton Mendonça e Luiz Eça, foi gestada nos violões de Durval Ferreira, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Dori Caymmi, Oscar Castro Neves e Rosinha de Valença, para citar apenas alguns dos que fizeram carreira nos Estados Unidos e no Japão, embora houvesse outros que, por qualquer razão, não a fizeram, como o excecional e esquecido José Candido de Mello Mattos, o Candinho.

Fala-se de violão, mas poder-se-ia também falar de outros instrumentos de corda de que o Brasil igualmente produziu expoentes, como o cavaquinista Waldir Azevedo, autor do baião Delicado (número um nas paradas da revista Cash Box) e do choro Brasileirinho; o bandolinista Jacob do Bandolim, autor do choro Noites Cariocas e que cada vez mais atrai ao Rio pesquisadores para estudá-lo; e o violinista Fafá Lemos, que, ouvido hoje, poderia intrigar um ou outro fã do querido Stéphane Grappelli.

Tudo isso é para dizer que esses nomes, estabelecidos na admiração geral, nunca esconderam sua dívida para com um certo músico chamado Aníbal Augusto Sardinha, nascido em São Paulo, em 1915, consagrado no Rio e mais famoso pela alcunha de Garoto.

O que eles diziam de Garoto pode dar uma ideia: "Garoto reinventou o violão brasileiro"; "O violão brasileiro é antes e depois de Garoto"; "Se não fosse Garoto, nenhum de nós estaria aqui"; "Devemos tudo ao Garoto"; e, particularmente, uma frase dita por alguém que todos conhecem: "Sabe o Messi? Era o Garoto." Autor da frase: João Gilberto.

Escolha um instrumento de corda - violão, violão tenor (de quatro cordas, introduzido por ele no Brasil), violão baixo (de sua criação), cavaquinho, banjo, bandolim, guitarra, guitarra portuguesa, guitarra havaiana, violino e piano. Garoto tocava todos eles e cada um como se fosse o seu exclusivo. A partir de 1930, quando começou sua carreira, não houve dia em que não trabalhasse no enorme mercado de que então dispunham os músicos brasileiros: programas de rádio, gravação de discos, apresentações em night clubs, bailes em clubes sociais. Era estafante, mas ele precisava de tudo isso para viver. E ainda achava tempo para compor, de que resultaram pequenas obras-primas, como Relógio da Vovó (uma incrível antecipação da bossa nova), Lamento do Morro (choro favorito de seus grandes herdeiros no violão, como Zé Menezes, Helio Delmiro, Raphael Rabello, Yamandu Costa), Sorriu pra Mim (gravado por João Gilberto), Gente Humilde (que, no futuro, ganharia letra por Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e o imortal Duas Contas (que, desde que foi composto, em 1949, hipnotizou duas gerações de artistas).

O leitor dirá: se Garoto era tudo isso, como nunca ouvimos falar dele? A resposta está na crueldade do mercado fonográfico brasileiro, que se dedica a abandonar os génios que produz, assim que eles morrem física ou comercialmente. Garoto morreu de enfarte, em 1955, aos 40 anos, e teve sua produção quase de pronto abandonada, exatamente quando o Brasil começava a assimilar suas conquistas - conquistas que logo levariam à bossa nova, a qual, para muitos, nunca o superou.

E, agora, uma surpresa: Garoto era português. Português do Brasil - o primeiro filho aqui nascido do casal António Augusto e Adozinda Sardinha, recém-chegados do Norte de Portugal e já trazendo os outros quatro nascidos lá. Foi um miúdo português que descobriu e ajudou a reinventar a música que o cercava, como já tinha acontecido com Francisco Alves, o maior cantor brasileiro de seu tempo e de muito tempo, nascido no Rio, também de pais portugueses, em 1898, e com Carmen Miranda, nascida em Marco de Canaveses em 1909 e trazida para o Rio com 9 meses. Foi com Carmen, por sinal, que Garoto teve a sua curta experiência internacional, quando ela o levou para Nova Iorque, em 1939 - e ele só não se fixou lá porque os americanos, mesmo encantados com sua música, não permitiriam que sua esposa, uma mulher negra, se fosse juntar a ele.

A saga de Garoto acaba de ser contada num filme excecional: Garoto - Vivo Sonhando, um dos melhores documentários já produzidos até hoje no Brasil. É obra de três jovens estreantes (e que estreia!): o diretor Rafael Veríssimo, o diretor musical Henrique Gomide e o entrevistador Lucas Nobile, baseados numa biografia de Garoto (Gente Humilde) por Jorge Mello, e enriquecida pelo fabuloso material de pesquisa, de vozes e imagens, que eles conseguiram levantar.

É um filme a se ver muitas vezes, em qualquer plataforma em que esteja disponível. Significará descobrir um génio, não de sete mas de dez instrumentos, e refletir como a música pode migrar de um país a outro, enriquecendo-se no processo e fecundando o novo solo em que nasceu.

Jornalista e escritor brasileiro

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