Suu Kyi, a minha heroína que já não o é

Li há dias que um barco com refugiados rohingyas tinha chegado à ilha de Sumatra, na Indonésia, depois de sete meses em alto mar. Sete meses! E quase em simultâneo, o The New York Times publicou o testemunho de dois soldados birmaneses sobre os assassínios e as violações que lhes foi ordenado fazer contra esse pequeno povo muçulmano, cerca de um milhão de pessoas, três quartos das quais vivem hoje em campos de refugiados no Bangladesh depois de fugirem das suas cidades, vilas e aldeias no estado de Rakhine, na costa do Índico. Sem surpresa, pois, também há dias o Parlamento Europeu decidiu retirar o Prémio Sakharov para os Direitos Humanos a Aung San Suu Kyi, a líder da Birmânia, que até agora pouco ou nada fez para proteger os rohingyas da violência dos militares e dos extremistas budistas e chegou a ir em 2019 a Haia, ao Tribunal Internacional, responder por acusações de genocídio.

Pode parecer longe a Birmânia, ou Myanmar como os generais que governavam antes de Suu Kyi rebatizaram o país. Mas até tem antiquíssima ligação histórica a Portugal, pois Filipe de Nicote e Brito foi aí um chefe militar importante e agindo à revelia da Coroa portuguesa chegou a ser rei de Pegu, uma região do país. O próprio estado de Rakhine, então designado por Arracão, atraiu o interesse português nos séculos XVI e XVII e ainda hoje há uma comunidade na Birmânia que se diz luso-asiática.

Foi, porém, a história pessoal de Suu Kyi que trouxe a Birmânia há 30 anos para as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo, DN incluído. Filha do pai da independência (o general Aung San, assassinado era ela uma criança), tinha feito carreira académica na Índia e na Grã-Bretanha e regressara para visitar a mãe moribunda quando foi surpreendida pelos grandes protestos pró-democracia em 1988. O peso do apelido, fortíssimo nesta região de dinastias Nehru-Gandhis e Bhuttos, e o sentido de missão levaram-na a encabeçar a Liga Nacional para a Democracia que ganhou as eleições de 1990. A junta militar, no entanto, não reconheceu a vitória da oposição e ordenou que a líder da LND fosse posta em prisão domiciliária, na mesma mansão familiar em Rangun onde muitos anos antes um irmão pequeno de Suu Kyi tinha morrido afogado num lago no jardim, mais uma das muitas tragédias da vida desta mulher que foi admirável.

E digo foi porque desde 2017 tudo se tornou diferente. Escrevo sobre a Birmânia desde que comecei no jornalismo em 1992. Cheguei a entrevistar em Lisboa um primo de Suu Kyi seu conselheiro, em 1998 tive acesso privilegiado a um encontro na Alemanha entre opositores birmaneses e o Dalai Lama e numa ida à Índia ainda tentei saber através de outros jornalistas formas de a contactar. Assinei inúmeros artigos de opinião a elogiar Suu Kyi, o último talvez de 2015, quando cinco anos depois de libertada levou a LND a nova vitória eleitoral, só não sendo presidente porque os generais, embora cedendo o poder devido à pressão internacional, impuseram na Constituição que alguém com marido estrangeiro (ou filhos) não podia exercer o cargo. Por isso, ainda hoje, Suu Kyi é formalmente uma conselheira de Estado e o presidente é Win Myint, seu protegido.

Suu Kyi, no tal encontro na Alemanha a que assisti, era idolatrada pelos opositores birmaneses não só como campeã da democracia como também como defensora das minorias, um terço dos 55 milhões de birmaneses. Nessas, recordo-me especialmente dos karen, cristãos com tradição de resistência ao poder central e tão perseguidos que viviam sobretudo em campos de refugiados na Tailândia. E creio que um dos participantes era rohingya, pelo menos tinha um tipo físico mais próximo do dos bangladeshis e dos indianos do que dos birmaneses. Todos acreditavam que o federalismo triunfaria se Suu Kyi chegasse um dia ao poder.

Dos inúmeros prémios que Suu Kyi, então de uma beleza esfíngica versão asiática, recebeu, destacam-se o Nobel da Paz em 1991 e ainda antes deste o Sakharov, atribuído logo em 1990. Nos 20 anos seguintes, até ser libertada totalmente em 2010, a sua coragem continuou a ser destacada pelos jornalistas de todo o mundo, por políticos como o presidente Barack Obama dos Estados Unidos também. Um dia era a humilhação de passar noites num carro porque a tinham autorizado a sair de casa mas bloquearam a estrada, noutro era a impossibilidade de visitar o marido gravemente doente na Europa porque não voltaria a entrar na Birmânia. Os dois filhos também tiveram de se manter longe.

Foi a pressão europeia e dos Estados Unidos que levou o general Thein Sein a preparar a transição de poder. Deixou um legado nos anos finais do regime de progresso económico, que chegou à generalidade dos birmaneses, mas não aos rohingyas, que nem sequer são reconhecidos como minoria nacional. Aos olhos das autoridades birmanesas, e da população budista, trata-se de imigrantes do Bangladesh e seus descendentes, embora muitos deles chegados ainda no tempo da colonização britânica. E suspeitos de radicalismo islâmico.

Há quase um ano, a Gâmbia, pequeno país muçulmano de África, levou a questão dos rohingyas em nome da Organização da Conferência Islâmica ao Tribunal Internacional. Suu Kyi foi a Haia defender a Birmânia, rejeitando quaisquer acusações de genocídio. E apontou o dedo a grupos rohingyas que atacaram em 2017 esquadras da polícia gerando a retaliação do exército. Acrescentou ainda que os casos de excesso de violência pelos militares foram julgados. Mas o mais impressionante, segundo os advogados que representavam a Gâmbia, terá sido a frieza de Suu Kyi, hoje com 75 anos, perante a exibição de fotografias do sofrimento dos rohingyas. A heroína dos direitos humanos desapareceu, a política focada em manter apoios e poder impôs-se e o mundo ganhou uma tragédia, não a de a nobel Suu Kyi se ter transformado numa desilusão mas sim o destino do povo rohingya. Sete meses no mar! Sete!

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