O que é preciso é animar Malta

Ainda me recordo do medo que os malteses sentiam, em vésperas de adesão à União Europeia, de ver as casas do país serem compradas por alemães e transformadas em residências de férias. Estive em reportagem nesses dias antes de 1 de maio de 2004 em Malta e também em Gozo, a outra ilha habitada do minúsculo arquipélago mediterrânico, e percebi, por conversas com quem esteve envolvido no processo negocial, que só cláusulas de exceção nessa matéria delicada da habitação tinham permitido avançar com uma integração, que, apesar de tudo, entusiasmava há muito a maior parte da população.

Bem mais pobre do que a Alemanha, Malta tem também muito menos gente. Para o meio milhão de malteses, imaginar 82 milhões de alemães ricos a passar férias ou a instalar-se, quando reformados, no país era uma preocupação compreensível. Mas não aconteceu, e, pelo contrário, a pequenez de Malta não tem impedido a sua afirmação nacional no quadro dos hoje 27 Estados-membros, ao ponto de uma maltesa ser a presidente do Parlamento Europeu, que representa 450 milhões de pessoas, quase mil vezes mais do que os habitantes do país que foi bastião dos cavaleiros da Ordem de Malta contra o Império Otomano, no século XVI, e depois, já sob domínio britânico, resistiu ao cerco nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Por coincidência, a eleição de Roberta Metsola faz com que a política maltesa assuma funções exatamente quando a presidência da Comissão Europeia, o braço executivo dos 27, cabe a uma alemã, Ursula von der Leyen.

Portugal, no âmbito da UE, está curiosamente na metade superior da tabela tanto no que diz respeito à população como no que toca a território, o que mostra bem como grandes países como a Alemanha ou a França coexistem no projeto de construção europeia com países médios (Hungria, Suécia ou República Checa, comparáveis a Portugal) ou até países bem pequenos, como os Bálticos, Eslovénia, Luxemburgo e, sobretudo, Malta, que, além da população mínima, tem também o mais exíguo dos territórios.

De Malta recordo-me bem da beleza das águas convidativas a um mergulho, do esplendor arquitetónico de catedrais e fortalezas e igualmente da simpatia de um povo que é católico e fala uma língua aparentada ao árabe mas se expressa à vontade também em inglês. Qualquer visitante português descobrirá, maravilhado, a forte relação histórica entre o nosso país e Malta, por causa dos vários grão-mestres que governaram o arquipélago até à invasão napoleónica e depois a colonização britânica. O mais célebre foi António Manoel de Vilhena, que dá nome ao teatro de La Valetta, a capital.

Independente desde 1964, Malta mantém fortes laços económicos com o Reino Unido, e o Brexit, consumado no ano passado, causou muitas incertezas no país. Mas esta eleição da presidente do Parlamento Europeu, festejada mesmo pelos rivais políticos da conservadora Metsola, o presidente George Vella e o primeiro-ministro Robert Abela (ambos trabalhistas), reforçou a convicção dos malteses na UE. O papão alemão certamente já não os assusta como há quase 18 anos. E nada como ter uma das líderes da Europa para animar Malta.

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