O Natal diferente

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou os europeus de que o Natal deste ano vai ser diferente, aviso corolário da mensagem do serviço de Prevenção e Controlo das Doenças aos povos e aos governos. A importância do Dia de Natal não é exclusiva para cristãos, numa época em que progrediram os avisos de Ernest Renan (1848) sobre "organizar cientificamente a humanidade", período em que "tudo o que o Estado doava antes ao exercício religioso pertencerá de direito à ciência".

A realidade não é tão passiva habitualmente quanto à manutenção renovada pela cultura dos valores atingidos, e neste caso atribui-se a Gorbatchev que a intervenção de João Paulo II (Assis) foi determinante para a queda do Muro de Berlim, um passo no processo de desagregação do sovietismo. Nesta linha, e tradição da história da Rússia, dirigida por George L. Freeze (tradução portuguesa pela Edições 70, 2020), faz lembrar o conceito segundo o qual a primeira Roma caiu, a segunda caiu, a terceira (russa) nunca cairá, ao expor A Visão de Putin, invocando um texto deste com o titulo "A Rússia na viragem do século" (1999), para evidenciar que ele apoiara a reanimação da Igreja Ortodoxa, evidente por pequenas peregrinações a locais sagrados e expressão pública de respeito pelos seus líderes e pela fé.

Também ali o Natal será diferente. Nicolas Sarkozy, ao ocupar-se do Estado, das religiões e da esperança, talvez tendo avaliado a evolução das conjunturas políticas, afirmou: "A República é uma maneira de organizar o universo temporal. Há ao mesmo tempo uma aspiração espiritual, que a república não deve negar, mas que também não é da sua competência." Tem por isso um significado importante, mais oportuno perante o desafio a toda a vida, espiritual e natural, dos humanos, que mais uma vez o Papa Francisco anuncia repetir a decisão da Páscoa, e celebrar a missa da noite sem a presença de fiéis no templo.

Mais uma vez o sentido da prática abrange ter presente que a oração que Cristo deixou não diz "Meu Pai", diz "Pai Nosso", isto é, "de todos". Reza, implora pela humanidade sem distinção, fazendo-me lembrar a Missa sobre o Mundo, do padre Pierre Teilhard Chardin, da sua ordem, que em vida fora obrigado ao silêncio, por disciplina acatada, mas provocaria um movimento internacional de enorme curiosidade e adesão à doutrina, que, entre nós, com relevo para o Dr. Almerindo Lessa, criou raízes cuidadosamente sustentadas por fiéis, consagrando o homem que em 1948 vira recusada autorização para publicar o seu famoso Le Phénomene Humain.

Quando o Papa Francisco foi escolhido pelos cardeais, era experiente da martirizada América Latina, da inquietante teologia da libertação, da previsão de Renan (1848) no sentido de que "il n'y aura plus de budget des cultes, il y aura budget de la science, budget des arts". A inspiração foi de assumir o movimento que João Paulo II fortaleceu em Assis, apoiado na comunidade de Santo Egídio.

Edward Wilson, no seu The Unity of Knowledge (1998), tinha pressupostos que faziam admitir que a perversão do nosso tempo seria o terrorismo global que apontava à utilização de valores religiosos. A compreensão de João Paulo II quis aprofundar a Nova Mensagem de Assis, conseguindo a convergência das grandes lideranças espirituais para uma intervenção solidária a favor da paz, que teve apoio português, designadamente a intervenção de Mário Soares numa das reuniões de Assis.

Infelizmente, as últimas semanas demonstraram, já atenuada a recordação das Torres Gémeas, que o terrorismo global assume o ataque do fraco contra o forte, com resultado inquietante. Em França, o assassínio do professor Samuel Paty por um islamita, a 16 de outubro, em Conflans-Sainte-Honorine, alarma o espírito de todos os franceses, que sabem a dimensão do povo islamita na sua terra. Em Nice, depois do atentado que fez três mortes na Basílica, levando o maire a "denunciar o vírus do islamo-fascismo", e ao mesmo tempo à intervenção do presidente Macron sobre o direito e liberdade de serem usadas as caricaturas de Maomé, suscitando ameaçadoras reações nos países muçulmanos.

Francisco não vai rezar a sua missa só: tem a humanidade, mais uma vez, como invocado no pai-nosso, e espera que o poder do verbo consiga, neste desastre, fortalecer a cooperação solidária que inspirou a adotada Nova Mensagem de Assis. Joe Biden, presidente eleito dos EUA, declarou no primeiro discurso: "O meu avô, quando saí de casa, disse-me "nunca percas a fé [católica]"; e a minha avó disse "espalha-a"." A paz e Assis devem estar presentes no seu espírito, sem esquecer a missa de Pierre Chardin, sem pão nem vinho, que o Papa terá. Chardin disse: "O meu cálice e a minha patena são as profundezas da minha alma largamente aberta a todas as forças que, num instante, vão elevar-se a todos os pontos do globo e convergir para o Espírito." Na política, todos os responsáveis deverão assumir que "existe um acordo moral no universo, que se inclina em direção à justiça".

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