África e o islão: que futuro?

No início deste mês, o islamismo africano voltou a ser notícia, mais uma vez por más razões: o sequestro de mais de 300 jovens estudantes nigerianos na cidade de Kankara, estado de Katsina. O sequestro foi reivindicado pelo Boko Haram, organização ligada ao Estado Islâmico. Os estudantes foram libertados dias depois, mediante, segundo uma fonte da France Press, o pagamento de um resgate pelas autoridades nigerianas, mas o episódio mantém na ordem do dia as inquietações sobre o futuro do islamismo em África.

O islamismo - assinale-se - é a principal religião em África, de acordo com a World Book Encyclopedia. A fonte explicita: 45% dos africanos são muçulmanos, 40% cristãos e cerca de 15% ateus ou praticantes de cultos tradicionais (na verdade, muitos muçulmanos e cristãos também deverão praticá-los, pois o sincretismo é uma das características do continente).

A religião islâmica foi introduzida em África no século VII, através do Egito, que logo conquistou o reino cristão da Núbia, iniciando o seu alargamento a todo o norte do continente. A partir do século IX, começou a expandir-se para a África Ocidental, enquanto na África Oriental as trocas comerciais seculares com o norte do continente, com o Oriente Médio e com o Extremo Oriente levaram a um aumento da população muçulmana e à criação, no século XI, de uma dinastia islâmica na costa da atual Tanzânia. Nos séculos XVIII e XIX, surgiram vários estados islâmicos no litoral ocidental africano, que eram concorrentes, sobretudo, do colonialismo francês e britânico. Nos séculos XX e XXI, o islamismo continuou e continua o seu rápido crescimento no continente africano.

Presentemente, diz a World Book Encyclopedia, a taxa de crescimento do islamismo em África é duas vezes mais rápida do que a do cristianismo. Regiões e países que há cerca de 50 anos não registavam uma presença significativa de muçulmanos, como a África Austral e Angola, não podem continuar a dizer o mesmo (a Tanzânia e Moçambique, que também pertencem à África Austral, são exceções, por causa das suas relações históricas com o Oriente).

Os muçulmanos africanos são sobretudo sunitas, mas também existem adeptos dos xiitas. O sufismo - ligado aos aspetos místicos do islamismo - também é praticado por muitos africanos muçulmanos, incluindo sunitas e xiitas. Muitos sufistas são sincréticos, motivo pelo qual são olhados com ceticismo pelos ramos mais estritos do islamismo.

Mais recentemente, o salafismo, ramo conservador e fundamentalista do islamismo, ligado à Arábia Saudita, começou a espalhar-se pelo continente africano. Apoiados por uma rede de ONG e mesquitas, que se implantam em vários países africanos, e mediante mecanismos como bolsas de estudo e outros, os salafitas têm visto crescer os seus adeptos até em países até há pouco "insuspeitos". Normalmente, trata-se de jovens conservadores e puritanos, treinados no Médio Oriente.

O islamismo não é, pois, uniforme. Além disso, no caso da sua expansão em África, o mesmo tem sofrido várias modificações ao longo desse processo. Pode mesmo falar-se, pelo menos até certo ponto, de uma "africanização" do islão, durante a qual as populações do continente, enquanto se convertem, levam para a sua nova religião elementos das suas próprias culturas. É por isso, por exemplo, que muitas ordens sufis da África Ocidental, conhecidas pelo seu sincretismo com crenças e práticas bantus, são vistas com desconfiança pelos puristas.

Seja como for, o incremento de ações violentas na África Central e Ocidental, na última década, por parte de organizações que se autoidentificam como islâmicas tem de ser entendido como um sinal de alerta. O recente sequestro de estudantes na Nigéria, reivindicado pelo Boko Haram e levado a cabo numa região distante da sua habitual área de atuação, pode indicar, advertem os especialistas, um aumento da capacidade operativa da organização e um sinal da sua expansão geográfica.

O tema do islão interessa particularmente - ou deve interessar - a três países africanos de língua portuguesa: Guiné-Bissau, Moçambique e Angola. No primeiro, o islamismo mostrou a sua força eleitoral nas últimas eleições presidenciais. Em Moçambique, a situação em Cabo Delgado fala por si. Quanto a Angola, não há sinais de qualquer preocupação institucional em relação ao assunto. Mas vários observadores começam a manifestar uma certa inquietação com o aumento da presença muçulmana no país e o incremento dos negócios com vários estados islâmicos.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

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