Mentor e discípulo de Mourinho sem dúvidas: "Saída não mancha grande carreira"

Português foi despedido do Manchester United dois anos e meio depois de ter chegado a Old Trafford. Manuel Sérgio diz que o Special One continua a ser um dos maiores treinadores do mundo e José Morais acha que não lhe deram todas as condições para ter sucesso como em outros clubes.

Uma Liga Europa, uma Taça da Liga, uma Supertaça de Inglaterra, 144 jogos, 84 vitórias, 32 empates e 28 derrotas. É este o registo que José Mourinho deixa no Manchester United, uma aventura de dois anos e meio que terminou nesta terça-feira de manhã, quando por volta das 09.00, Ed Woodward, diretor executivo do clube inglês, o chamou para uma reunião no centro de treinos do clube, em Carrington, para lhe comunicar o despedimento. Com Mourinho, que vai receber uma indemnização na ordem dos 25 milhões de euros, sai também o seu eterno adjunto, o português Silvino Louro.

A reunião com Ed Woodward foi relativamente rápida, pois às 09.46 o Manchester United difundiu, através das redes sociais e do site oficial do clube, um comunicado a anunciar a saída do treinador português. A notícia rapidamente correu o mundo, com as principais cadeias de televisão inglesas a fazerem diretos a toda a hora. E a cara de Mourinho aparecia estampada em tudo o que eram sites e jornais online. As reações sucederam-se, como por exemplo de Jurgen Klopp, treinador do Liverpool, que disse que "Mourinho é um treinador excecional".

Ao início da tarde, por volta das 14.30, Mourinho deixou o hotel onde residiu durante estes últimos anos no centro da cidade (nunca teve casa em Manchester e a família ficou toda em Londres), o Lowry, sentado no banco de trás de um Jaguar F-Pace. De casaco preto e T-shirt branca por baixo, e com a barba feita, parou no local onde estava um batalhão de jornalistas. Abriu o vidro, deixou-se fotografar, e limitou-se a dizer "OK, my friend" e "goodbye guys". E partiu logo de seguida, muito provavelmente para junto da família, em Londres.

Esta era uma saída há muito anunciada. Sobretudo pelos acontecimentos registados nesta temporada. A derrota (e a má exibição) diante do Liverpool
(3-1), no domingo, precipitou os acontecimentos. A equipa no sexto lugar (apenas 26 pontos em 17 jornadas), um recorde negativo de golos sofridos (29, mais um do que em toda a época passada) e críticas em catadupa dos principais comentadores de futebol inglês, muitos deles históricos jogadores do Manchester United, deixavam antever este desfecho.

Mas esta saída não teve apenas por base os resultados, já que nos últimos meses as relações com a direção do clube, em particular com o vice-presidente Ed Woodward - que não satisfez o pedido do treinador relativamente a algumas contratações de jogadores - complicaram-se, assim como com alguns jogadores do plantel, onde o caso mais mediático foi com Paul Pogba, a quem Mourinho retirou a braçadeira de segundo capitão. Mas houve outros, como Anthony Martial, Luke Shaw e Eric Bailly. De acordo com o jornal Manchester Evening News, apenas quatro jogadores se manifestaram contra a saída do treinador - Ashley Young, Nemanja Matic, Marouane Fellaini e Romelu Lukaku.

A defesa do mentor e professor Manuel Sérgio

Manuel Sérgio, filósofo do desporto e mentor de José Mourinho (foi seu professor no Instituto Superior de Educação Física, ISEF), diz ao DN que esta saída de José Mourinho em nada belisca a carreira do treinador português. "Não se pode dizer neste momento que Mourinho é o principal culpado pela má temporada do clube. Pode também haver culpas da direção, dos próprios jogadores. Ele é um ser humano e como todos nós tem momentos bons e outros menos conseguidos. Isto é uma coisa normal. Há momentos menos bons na carreira de um treinador. Mas que fique claro uma coisa importante: isto que aconteceu não mancha de forma alguma a grande carreira de treinador do José Mourinho. Como costumo dizer, não há rosas sem espinhos, mas também não há espinhos sem rosas", reagiu ao DN.

Manuel Sérgio garante que apesar desta etapa menos feliz no Manchester, "José Mourinho continua a ser um dos melhores treinadores do Mundo". E não considera que os seus métodos estejam ultrapassados. "Veja-se a carreira dele. Isto não pode levantar dúvidas a ninguém. A ninguém! É verdade que estão a aparecer novos bons treinadores no panorama internacional. Mas o Mourinho tem a experiência a favor dele. Os novos não sabem mais do que ele. Não tenho qualquer dúvida em afirmar que o Mourinho é hoje melhor treinador do que antigamente. E porquê? Porque tem a experiência. Há novos treinadores a aparecer, com novas teorias, mas falta-lhes a prática. Há um antes e depois de Mourinho ao nível de treinadores", referiu.

Para o antigo professor de José Mourinho, o técnico natural de Setúbal deve aproveitar esta pausa para fazer um reflexão: "Em todas as derrotas há culpas do derrotado. Por isso julgo que o José Mourinho nesta altura deverá tirar um tempo para fazer uma autocrítica, ver até que ponto falhou ou não e se ficou a conhecer melhor o mundo do futebol. Todos os dias aprendemos qualquer coisa."

Discípulo José Morais fala em falta de condições

José Morais, 53 anos, trabalhou durante vários anos ao lado de José Mourinho, como adjunto do Special One no Chelsea, Inter Milão e Real Madrid. O agora treinador do Jeonbuk FC, da Coreia do Sul, confessou ao DN que ficou surpreendido com a saída do amigo. "Muito surpreso, até porque treinadores da dimensão do Mourinho não são para sair a meio de projetos. Até mesmo pelo clube em si, pois o Manchester é uma organização estável e não é nada normal prescindir de treinadores a meio de um projeto", referiu ao DN.

Morais diz que não se pode pôr a questão sobre o que falhou para Mourinho sair do Manchester United a meio da época. Até porque pensa que o Special One também teve influência na saída por achar que não lhe estavam a dar as condições necessárias para um projeto ganhador. "Se calhar aconteceu algo que impediu a sua continuidade. Repare, o Mourinho tem sempre uma direção para os seus projetos. E tem tanta qualidade e competência que quando lhe são dados recursos e condições ele tem sempre sucesso. No início, no Manchester, essas condições foram-lhe dadas. Mas depois as coisas não caminharam na direção que ele pretendia. Aliás, eu acredito que ele próprio tenha tido influência na sua saída. Quando lhe foi dado o poder necessário, ele teve sempre sucesso. Se calhar esta época as coisas não correram como ele esperava a outros níveis", apontou, acrescentando que esta saída do United "não vai manchar a grande carreira que José Mourinho já construiu".

José Morais não tem dúvidas de que a partir de hoje não vão faltar convites a José Mourinho. "De certeza absoluta. E de grandes clubes! Se vai aceitar pegar num projeto a meio ou só no final da época? Do que eu conheço do Mourinho, não acredito que queira ficar em casa muito tempo. A vida e a paixão dele é o treino. Mas ele só aceita um projeto que lhe dê condições de sucesso e que saiba que pode sair vencedor a curto/médio prazo."

O futuro do Special One e do Manchester United

Consumada a saída, discute-se agora o futuro de José Mourinho e a sua sucessão no Manchester United. O jornal britânico Independent avançou que Florentino Pérez deseja o regresso de José Mourinho ao Real Madrid, uma casa onde trabalhou entre 2010 e 2013 e onde, por sinal, deixou alguns anticorpos entre alguns jogadores, casos dos capitães Sergio Ramos e Marcelo.

Quanto ao Manchester United, tudo indica que Ole Gunnar Solskjaer, antigo jogador do clube, vai pegar na equipa até ao final da época como interino. Isso mesmo foi dado a entender pelo clube de Old Trafford na noite de terça-feira, quando publicou no site oficial um vídeo com imagens da final da Champions ganha pelos red devils em 1999, onde aparecia o avançado norueguês e uma legenda a denunciar tudo: "Solskjaer vai ser o nosso treinador interino, 20 anos depois de ter conquistado o treble com aquele golo em Camp Nou." O norueguês, de 45 anos, foi um dos grandes jogadores da história do Manchester United, com 126 golos apontados nas 11 épocas em que jogou com a camisola do clube sob as ordens de Alex Ferguson. Atualmente treina o Molde, da Noruega, mas tudo indica que vai deixar o cargo para regresssar a Old Trafford. A estreia no banco deverá ser já este sábado, diante do Cardiff.

Mas no final da época será então escolhido um treinador em definitivo. Um dos nomes mais consensuais entre a imprensa britânica é o de Mauricio Pochettino, o argentino que está contratualmente ligado ao Tottenham. Mas houve mais nomes avançados pela imprensa, como Zinedine Zidane (ex-Real Madrid) e Antonio Conte (ex-Chelsea)... até Julen Lopetegui, o espanhol que treinou o FC Porto e que recentemente foi despedido do Real Madrid. O português Leonardo Jardim, sem clube desde que deixou o Mónaco, foi também mencionado como uma possibilidade.

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