Paços de Ferreira e Monchique. Tudo separa os dois extremos da pandemia

Um é o concelho do país com maior risco de contágio, o outro o que apresenta números mais baixos (mas não zero casos, como acontecia há uma semana). Do território à atividade económica, há muitas razões que explicam a diferença entre Paços de Ferreira e Monchique.

São os dois extremos do território continental no que respeita aos números da covid-19: Paços de Ferreira está no topo dos concelhos com maior risco de contágio, com uma taxa de incidência cumulativa a 14 dias de 3698 casos por cem mil habitantes; no polo oposto está Monchique, no distrito de Faro, o único município de Portugal continental que não registou qualquer caso de contágio no período entre 28 de outubro e 10 de novembro.

Além dos mais de 500 quilómetros, quase tudo separa Paços e Monchique. Comecemos por Paços de Ferreira, o 24.º município com maior densidade populacional do país - 798 habitantes por quilómetro quadrado. Conhecido como a Capital do Móvel, é também um concelho altamente industrializado, e este é um "dos fatores potenciadores" de contágio que o autarca pacense, Humberto Brito, encontra para o elevado número de casos apontados no boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS). "Este é um concelho que trabalha à escala global, que exporta para todo o mundo, temos diariamente pessoas que chegam do mundo inteiro", diz ao DN. Paços é também um dos concelhos mais jovens do país, e este, acrescenta o autarca, é também um fator a considerar: "A faixa etária entre os 20 e os 29 anos é aquela que tem um maior índice de contágios, seguida da faixa dos 20 aos 40." Estas são, aliás, características que Paços partilha com Lousada, concelho com o qual faz fronteira e que está também no topo do risco de contágio (3362 novos casos em 14 dias por cem mil habitantes).

Humberto Brito refere que, tal como no resto do país, o verão trouxe ao concelho um recrudescimentos dos convívios sociais e familiares, de reuniões, casamentos, batizados, num contexto em que o norte "tem características peculiares, as pessoas cultivam muito as relações familiares, há muita proximidade". Ressurgidos os primeiros focos de contágio, o autarca considera que "a saúde pública local foi manifestamente impotente para controlar a pandemia", e sem um rastreio eficaz "tudo se precipitou".

"Foi a tempestade perfeita", acrescenta, mas fazendo questão de sublinhar que os números estão a baixar: "Nesta terça-feira tivemos 45 novos casos, quando há três/quatro semanas tínhamos 200 por dia. Esta redução tem acontecido de dia para dia nos últimos nove dias." Humberto Brito espera, por isso, que Paços de Ferreira "não seja penalizado quando está a corrigir a sua trajetória" - recorde-se que o primeiro-ministro já admitiu que pode haver uma gradação de medidas entre os municípios que, estando acima dos 240 casos por cem mil habitantes, apresentam, ainda assim, números muito díspares. "Espero que não venha a acontecer. Pode haver correções, mas há que saber equilibrar as medidas para proteger a saúde com a proteção da atividade económica", diz o autarca socialista.

Paços de Ferreira e Lousada, tal como Felgueiras, foram objeto de medidas mais restritivas logo a 23 de outubro, como o dever de permanência no domicílio, proibição de quaisquer celebrações e eventos com mais de cinco pessoas (salvo se pertencerem ao mesmo agregado familiar), entre outras restrições que entretanto se alargaram a 191 concelhos.

Sete dias depois, Monchique já não tem zero casos

Passados sete dias sobre o período divulgado pela DGS, Monchique já não é um caso de contágio zero: tem agora dois casos de covid-19, detetados na última segunda-feira, fechou um estabelecimento de ensino pré-escolar, onde trabalha um dos casos positivos, e está agora a testar funcionários e alunos para identificar possíveis contágios. Rui André, presidente da autarquia, espera que esta situação não redunde num surto, salientando que não são necessários muitos casos para que um município pouco populoso como Monchique passe "rapidamente de uma situação confortável para uma situação muito complexa".

Ainda assim, com os números atuais, o município do distrito de Faro mantém-se como um dos que registam uma menor incidência de contágios. No total, desde o início da pandemia, foram 17. E há algumas explicações para isso, a começar pela própria geografia, uma área de serra com habitação dispersa, e pela baixa densidade populacional. De acordo com os últimos censos (de 2011), Monchique tem uma população de cerca de seis mil pessoas - um número que o autarca diz manter-se estável até hoje. Com uma área de 395 quilómetros quadrados, Monchique tem uma densidade populacional de cerca de 15 habitantes por quilómetro quadrado, uma das baixas do país: está em 268.º entre os 308 municípios. Também não tem unidades com grandes aglomerados de trabalhadores - "10, 15 pessoas no máximo" - e até mesmo as Termas de Monchique estão nesta altura, devido a obras, com capacidade reduzida.

Rui André junta a estas características uma outra que considera fundamental: "As pessoas têm tido um comportamento muito bom. Julgo que isso também se explica porque em Monchique as pessoas têm um histórico de lidar com o risco - sobretudo os incêndios -, têm um sentido muito resiliente, de se protegerem, de se defenderem."

Mas o autarca social-democrata também diz que o município tem tido alguma "estrelinha" ao manter-se quase sem casos quando nas proximidades há vários municípios com números de contágio altos. "Fazemos fronteira com concelhos que têm um risco muito alto e aos quais temos uma exposição grande. Não temos ensino secundário, os nossos alunos vão a Portimão todos os dias. Há muitas pessoas que vivem em Monchique que trabalham em Portimão", sublinha Rui André, que aponta também um outro aspeto que, sendo positivo para a atividade económica do concelho, acaba por suscitar alguma preocupação. O reduzido número de casos de covid-19 cria uma sensação de segurança para quem vive em concelhos muito afetados, que procura Monchique para passear ou fazer refeições fora. Rui André diz, aliás, que o setor da restauração local não ficou imune à pandemia, mas antecipa que a quebra será menor do que em concelhos adjacentes.

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