No berço da pandemia em Portugal, resistem os fantasmas do primeiro mês

Reportagem

No berço da pandemia em Portugal, resistem os fantasmas do primeiro mês

Três meses após o início da pandemia em solo português, Felgueiras e Lousada, os municípios que somaram os dois primeiros focos de contágio nacionais, ainda vivem a medo e a tentar provar ao resto do país que são capazes de combater o vírus. Mas o número de infetados continua a aumentar.

O calcanhar do pé direito bate incessantemente na calçada que ladeia o jardim defronte do edifício da Câmara Municipal de Felgueiras. Sentado na berma do banco, de mãos cruzadas sobre as pernas, Manuel Silva, 63 anos, olha à sua volta e mostra-se impaciente com o que vê. Uma vila a meio gás, sem as pessoas do costume a passear nas ruas. Mas "é a vida" e para ela acontecer "tinha de ser assim".

É consciente das consequências que a pandemia trouxe ao seu país, mas especialmente à sua terra natal, que marca um compasso de distância de outros dois amigos, com quem partilhava o jardim num início de tarde: Luís Leite, 75, no banco que jaz a uns três metros à sua frente, e António, num outro do seu lado esquerdo, que garante que "isto [o vírus] veio para ficar". Todos eles já reformados. Contrariando o amigo Manuel, António conta que nunca deixou de fazer a sua rotina "normalmente". "Eles querem que eu fique em casa, mas eu não fico", diz. E recusa-se a usar uma máscara. "Oh. Para quê?"

Perante as declarações, Manuel e Luís olham frequentemente para o lado e abanam a cabeça em jeito de rejeição. "Tiveste sorte de a GNR não te levar", comenta Manuel, que só há duas semanas começou a sair de casa para mais do que ir apenas ao mercado municipal. "Fui seguindo as indicações lá de baixo, do governo. Temos televisão é para isso. Ainda agora estamos a cumprir, com esta distância", aponta, forçando-nos a olhar para o bom cumprimento de uns - e o mau de outros. "Fazemos o nosso dever, menina", acrescenta Luís.

"Felizmente", não têm dúvidas, grande parte da população de Felgueiras age como um espelho daquilo que Manuel e Luís praticam diariamente. Como António, "há muito poucos". Neste município, que juntamente com Lousada registou um dos primeiros focos de contágio por covid-19 em Portugal, resistem os fantasmas daquele mês de março, em que ambas as localidades se sentiram isoladas pelos piores motivos do resto do país. "Não queremos voltar ao mesmo", aos dias em que a população de Felgueiras e Lousada era discriminada em espaços públicos fora, só por serem ali residentes, naquele que foi o berço da pandemia em território nacional.

Desertas antes de o país ficar

Na primeira semana de março, a primeira da pandemia em Portugal, os municípios vizinhos de Felgueiras e Lousada tornavam-se já no maior foco de infeção do país. A viagem a uma feira de calçado em Milão de três funcionários da empresa de sapatos e componentes Fego-Flá, na vila de Barrosas, em Felgueiras, resultou na infeção de um deles, um homem de 50 anos. Daí até oo contágio de dezenas foi um pequeno salto. Só contabilizando os residentes em Felgueiras, mais de 20 mil está empregue na área do calçado e componentes, de acordo com a informação cedida ao DN pela autarquia.

Poucos dias depois, os dois municípios encerravam portas. No dia 9 de março, um comunicado da Direção-Geral da Saúde (DGS) exigia o encerramento de todas as escolas e também de serviços como cinemas, piscinas, bibliotecas e outras zonas de grande concentração de pessoas. "As pessoas dos concelhos de Felgueiras e Lousada devem evitar deslocações desnecessárias e participar em reuniões com elevado número de pessoas, de forma a reduzir o número potencial de pessoas contagiadas", recomendava a DGS.

Felgueiras foi, aliás, a preocupação que levou ao confinamento do Presidente da República, depois de em Belém ter recebido uma turma de uma escola onde um menor foi diagnosticado com o novo coronavírus.

"Aquele dia 9 de março... não esqueço. Foi quando todos começámos a levar isto a sério, porque as escolas começaram a fechar. Ainda não estávamos em estado de emergência e já tínhamos as ruas completamente desertas." O início continua muito vivo e claro na memória de Andreia Torres, 36 anos. Juntamente com o marido, gere o café O Jasmim, no centro de Lousada, de onde é natural. O medo pediu respostas rápidas: "Antes do estado de emergência, fechamos logo durante dois dias. Depois, o meu marido disse "nem pensar que vais para lá, vou eu e tu ficas por casa". Reabrimos até ser decretado o fecho pelo governo". Na altura, lembra, pouco se podia fazer além de "desinfetar muito bem as mãos", porque "as máscaras nem estavam a ser recomendadas".

Com a chegada do estado de emergência, as portas encerraram oficialmente até ao dia 18 de maio, na segunda fase do plano de desconfinamento elaborado pelo governo. Faltam mesas que ali já tinham ganho lugar e estar atrás do balcão tornou-se sobretudo um negócio e gestão de pessoas. "Temos pessoas idosas que não querem entrar com máscara e até levam a mal por lhes pedirmos", conta Andreia.

A discriminação já lá vai, mas é o motor da luta

"Este não é um problema só de Lousada, nem apenas do nosso país, mas sim de todo o mundo." As palavras eram asseguradas por Pedro Machado, presidente da Câmara Municipal de Lousada, no dia em que o município, juntamente com Felgueiras, fechava grande parte dos seus serviços. Numa mensagem ao munícipes, lembrava "um dia muito difícil" para todos e que o combate ao vírus não se fazia apenas ali. No entanto, era em Lousada e Felgueiras que se demarcavam os grandes focos da pandemia em Portugal, o que trouxe mazelas para os seus residentes.

Assim que foi descoberto o surto, os alunos e professores universitários que residiam nestas localidades viram a sua presença rejeitada em algumas instituições de ensino superior, por receio do contágio. Uma prática que se estendeu a vários setores. "Ouvimos relatos de pessoas, especialmente trabalhadores de transportes de mercadorias, que eram de Felgueiras e que quando se deslocavam se sentiam um bocado discriminados. 'Ei, és de Felgueiras? Sai mas é daqui.' Isso aconteceu", recorda Sérgio Pereira, 39 anos, taxista há 20.

Ainda sentado no banco de jardim, diante do veículo conduzido por Sérgio, Manuel Silva admite que, por isso, "as pessoas tiveram e provar que eram capazes de combater este vírus", desse por onde desse. No entanto, a vontade não acompanha os números registados, quer em Felgueiras quer em Lousada, onde o número de infetados tem aumentado nas últimas semanas. Juntos, os dois concelhos representam cerca de 2% do número de infetados em Portugal. O que os comerciantes dizem ser o reflexo de muitas indústrias que nunca interromperam a produção.

Atualmente, Felgueiras é o 18.º concelho com maior número de infetados no país. O último relatório da DGS dá conta de que a 28 de maio estavam contabilizados 405 casos de covid-19. Mas desde há um mês que as estatísticas estabilizaram, ao contrário do que acontece em Lousada, que nos sete dias anteriores tinha registado uma taxa de crescimento a rondar os 7%. De acordo com o mesmo relatório, é o 24.º concelho com mais casos positivos e somava, na mesma data, 336 infetados.

São ambos concelhos com uma população jovem. Em Felgueiras, 15% da população tem mais de 65 anos. EM Lousada, esta percentagem desce para os 13%.

Pão-de-ló sem clientes e táxis de curta viagem

Dobra o pano, debruça-se sobre os bancos traseiros do carro e esfrega-os. Sacode o pano e repete a limpeza. Todo o cuidado é pouco quando se conduz um carro que é o transporte de tantos desconhecidos. Por isso, Sérgio Pereira não descura estas ações enquanto aguarda pela próxima chamada. Tem demorado mais do que era costume. Se antes da pandemia, "fazia uma média de 20 viagens por dia, agora, anda na volta das dez". Em 20 anos ao serviço de um volante, numa profissão que é uma passagem de testemunho de anos de vida do seu avô, nunca tinha experienciado tempos assim.

"Tudo mudou, a forma de viver das pessoas. Não se vê muita gente na rua, principalmente idosos. E nós trabalhamos mais com as pessoas de mais idade. Vamos notando que vão saindo, mas com muito receio", conta. Numa terra em que "todos se conhecem", há "muitos clientes" dos quais Sérgio não guarda memória do último dia em que os viu, pelo tempo imenso que já passou. Até "a malta mais nova está mais reservada". "Os serviços que fazíamos sexta ou sábado à noite já não fazemos. Com o fecho das escolas, perdemos muito também, com o transporte de miúdos com dificuldades motoras", lamenta. Ao mesmo tempo, Sérgio ganhou novos clientes, "aqueles que perderam o transporte público para o trabalho" ali nas redondezas.

É saudosista, mas treina um lado otimista: "Já tivemos dias piores. De 16 de março até ao final de maio, fazia-se um serviço de manhã, outro à tarde." Passados três meses de pandemia, "o que mais assusta continua a ser o desemprego", o dele e o dos outros, principalmente num concelho "tão industrializado".

Um metros acima na avenida, está um local de passagem conhecido por tantos, os que ali residem e os visitantes curiosos: o sítio onde nasceu o famoso pão-de-ló de Margaride (nome da vila) e onde ainda hoje é confecionado. As escadas rangem, há brasões pendurados nas paredes, figuras de armas antigas e um vão de escada que nos faz adivinhar o tempo que este espaço já leva por aqui.

Foi no início do século XVIII que Clara Maria começou o fabrico da doçaria nesta mesma casa, estabelecendo um estatuto ducal ao longo dos anos. A 5 de dezembro de 1888, este estabelecimento recebeu uma carta timbrada com as armas de Suas Altezas Reais os Duques de Bragança concedendo-lhe o estatuto de fornecedora Real e Ducal Casa de Bragança e a permissão para utilizar as Armas Ducais. Desde então, que é um chamariz para todos os que fazem um desvio por Felgueiras e para aqueles que, conhecendo a doçaria, fazem recorrentemente encomendas para vários pontos do país.

Mas "a vida tem estado mais parada por aqui". Quem o diz é Alice Castro, funcionária da casa há 11 anos, que no recebe do outro lado do balcão, diante de uma balança antiga e robusta. "Durante muito tempo, estivemos a viver numa cidade fantasma" e pouco mudou desde então, conta. Um cenário que se traduz na confeção e na venda de pão-de-ló. "Não tem nada a ver com aquilo que habitualmente fazíamos."

Alice esperava por uma Páscoa próspera em vendas, mas a pandemia veio alterar os planos. "Vamos tentando aos poucos, mas não está como era. Vamos fazendo encomendas para fora. Já tínhamos um site de vendas online e isso ajudou", conta.

Lá em cima, os andares estão vedados à passagem de qualquer um, aguardando obras. Continuam suspensas, assim como parece estar a vida no resto da vila.

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