O fim de Freud (2.ª parte – A caminho de Londres)

No final, num toque onírico digno das teses do doutor Sigmund Freud, entregaram a Martha um recibo formal da quantia que tinham esbulhado.

Uma vitória esmagadora. No plebiscito na Áustria, 99,73% dos votantes pronunciaram-se a favor da unificação com a Alemanha. Na Alemanha, 90,92% dos eleitores disseram Ja à anexação da Áustria e 99,8% aprovaram a lista de candidatos do partido nazi ao novo Reichstag.

Hitler proclamou, ufano, que aquele era o dia de mais orgulho da sua vida. Uma data histórica, 10 de Abril de 1938.

Pouco depois, começaram as perseguições. Os nazis assaltaram-lhes as casas e as lojas, vandalizaram tudo à sua passagem. Bateram-lhes, insultaram-nos, obrigaram-nos a limpar, nas ruas e nas paredes, os slogans favoráveis à independência da Áustria. Nos teatros de Viena, as actrizes judias, mesmo as mais famosas, foram obrigadas a limpar as casas de banho para serviço dos oficiais das SA. Por toda a parte, pilhagens e humilhações.

Enquanto isso, dois homens esperavam. O nazi aguardava notícias sobre o seu futuro. Tinha o destino daquela família nas mãos, bastava uma palavra sua para que não os deixassem partir. O judeu, um velho de barbas bíblicas, estava doente, ia durar pouco. Mas, com uma fibra tremenda, nunca desistiu de escrever, na ânsia de terminar o seu livro sobre Moisés e o monoteísmo, uma obra que iria enfurecer muitos dos seus irmãos por sustentar que o profeta "tirado das águas" nascera num lar egípcio e que, ao contrário do que sustentava o Livro do Êxodo, não era um escravo judeu adoptado pela filha do faraó.

Mais ainda, o seu escrito dizia que o culto a um só Deus não foi uma criação dos judeus, mas do faraó Akhenaton e da sua mulher, a bela e enigmática Nefertiti, o "casal solar" que fundou uma nova capital, Amarna, e a primeira religião monoteísta, crente no deus Áton (o sucessor, o célebre Tutankhamon, cujo túmulo foi descoberto em 1922 por Howard Carter, fez regressar a capital a Tebas e restaurou o culto de Ámon e o politeísmo).

O nazi Anton Sauerwald, um químico de 35 anos encarregado de controlar os negócios dos judeus de Viena, não sabia o que o Anschluss lhe traria. Enquanto esperava, começou a ler as obras de Sigmund Freud, apreendidas na Internationaler Psychoanalytischer Verlag, a casa editorial que este fundara anos antes, em 1919. Ao vasculhar os arquivos da editora, os dossiês com as contas e a papelada, descobriram que o psicanalista, como muitos outros judeus vienenses, tinha contas bancárias no estrangeiro, o que, além do confisco imediato, poderia impedi-lo, e à sua família, de abandonar a Áustria.

As hordas de nazis, muitas delas compostas por criminosos de delito comum ou rufias que gravitavam no submundo de Viena, tinham ido também a casa da família Freud, no n.º 19 da Bergasse. Paula Fichtl, a criada, contaria mais tarde que Martha, a matriarca, manteve-se espantosamente calma durante todo o tempo da rapina. Abriu a porta aos bandidos, disse-lhes para se sentarem nos sofás da sala, argumentando que em sua casa nenhuma visita esperava de pé. Chegou a propor-lhes que deixassem as espingardas e demais armas à entrada, para lhes ser mais fácil revistar todas as divisões da casa. Declinaram a oferta, era excessiva, desconcertante.

Mas quando Martha lhes disse que havia um cofre lá dentro, precipitaram-se sobre ele, vorazes. A senhora Freud abriu-lhes o cofre, convidou-os gentilmente a levar tudo quanto lá estava. "Sirvam-se, meus senhores", disse-lhes altivamente, enquanto eles metiam aos bolsos todo o dinheiro que viam, uns apreciáveis seis mil xelins. No final, num toque onírico digno das teses do doutor Sigmund Freud, entregaram a Martha um recibo formal da quantia que tinham esbulhado. Mal saíram, ela foi ao andar de cima contar ao marido o episódio bizarro. Sigmund, que se encontrava prostrado no famoso divã das consultas, deu mostras da sua proverbial sovinice e reagiu com ironia cortante: "Seis mil xelins? Nunca cobrei tanto por uma ida ao domicílio!"

No final de Abril, Freud sofreu um ataque de surdez que lhe retirou a audição durante vários dias. Uma dádiva dos deuses: assim, não pôde escutar os disparos com que os nazis celebraram nas ruas o 1.º de Maio. Segundo afirma Mark Edmundson em The Death of Sigmund Freud, foi nesse dia, muito provavelmente, que os sequazes de Hitler desfraldaram uma grande bandeira com a suástica à entrada da casa do psicanalista. Agora, o 1.º de Maio era deles, assinalado à sua maneira.

Cinco dias depois, Sigmund Freud celebrou o seu 82.º aniversário. Ou, melhor dizendo, sinalizou a passagem de mais um ano, provavelmente o último, no calendário da sua existência. Nunca fizera, de resto, questão de comemorar o aniversário, pois sempre entendeu que essa efeméride implicava estar mais próximo do fim, tinha ressonâncias de morte. Agora, em Maio de 1938, corroído há vários anos por um cancro na boca, a finitude estava ali, diante de si, como nunca estivera. Dois anos antes, no 80.º aniversário, e apesar de já estar minado pela doença, tudo fora diferente: algo a contragosto, tivera de aceitar as homenagens vindas de toda a parte, as saudações efusivas de Albert Einstein, Thomas Mann, H. G. Wells, Romain Rolland, Albert Schweitzer e tantos outros. Ainda assim, escreveu na altura a Stefan Zweig que, embora tenha sido sempre invulgarmente feliz no seu lar, na companhia da mulher e dos filhos e, em especial, de uma filha que muito amava, apesar de tudo isso, disse, não conseguia reconciliar-se com a ideia de ser um velho.

Com os nazis aos tiros pelas ruas de Viena, o 82.º aniversário foi ainda pior. Para evitar amarguras, decidiu pura e simplesmente ignorar a data, impedindo festejos e celebrações. Escreveu ao fiel discípulo Ernst Jones, agradecendo-lhe os cumprimentos que enviara, e disse-lhe que tinham adiado as comemorações para Agosto ou por volta disso, já que era provável que em Maio conseguissem obter a tão ansiada autorização para partir. Pela mesma altura, escreveu também a Ernst Ludwig, o filho mais novo, o arquitecto, e terminou a carta dizendo: "Só duas coisas me animam nestes tempos sombrios: juntar-vos a todos - e to die in freedom." A expressão, escrita em inglês, condensa aquilo que era a maior aspiração de Sigmund Freud naqueles dias cruéis: morrer em liberdade, longe dali.

A 6 de Maio, a data do aniversário de Sigmund Freud, o embaixador americano em Berlim, Hugh Robert Wilson, informou o secretário de Estado Cordell Hull de que só faltava resolver a questão do pagamento das dívidas da editora para que o psicanalista e a família pudessem partir para o exílio. E, de facto, uma semana depois, Sigmund e os seus familiares receberam novos passaportes. Os anteriores tinham sido confiscados por alturas do Anschluss e, além do mais, não tinham agora qualquer validade, pois eram passaportes austríacos e a Áustria, enquanto tal, deixara de existir. Os novos documentos, para horror de Freud, ostentavam na capa a águia e a cruz gamada.

A primeira a partir foi a cunhada de Sigmund, Minna, que decidiu exilar-se apesar de ser idosa e estar muito doente. No final de Maio, foram a filha Mathilde e o marido, Robert Hollitscher. Antes dela, Martin Freud tinha conseguido viajar até Paris, onde já se encontravam a mulher e os dois filhos. Foi quase um milagre: quando os nazis irromperam na editora, Martin fora apanhado a destruir documentos comprometedores, mas não tivera tempo de eliminar os que diziam respeito aos fundos no estrangeiro e aos empréstimos que a empresa tinha contraído ao longo da sua existência, à luz dos quais existiam dívidas por saldar junto de alguns credores - o que, nos termos das leis vigentes, era motivo para impedir em absoluto que os Freud abandonassem o país.
O novo subchefe da polícia de Viena, um indivíduo corrupto que no passado acumulara um volumoso cadastro criminal, era amigo do cozinheiro de Martin Freud e, graças a essa ligação inesperada, o filho do psicanalista conseguiu reaver boa parte dos documentos apreendidos na rusga dos nazis à Internationaler Psychoanalytischer Verlag. Alguns papéis perigosos continuavam, porém, nas mãos das autoridades e Martin foi informado, possivelmente pelo polícia corrupto, de que estava na iminência de ser preso. Foi isso que precipitou a sua fuga para Paris, por comboio, a qual assumiu contornos próprios de um thriller: Martin transportava consigo algum dinheiro, o que era terminantemente proibido pelas leis nazis, mas só à última hora se apercebeu do risco que corria se acaso o apanhassem com aquele punhado de moedas no bolso. Assim, a primeira coisa que fez ao chegar ao comboio foi dirigir-se à carruagem-restaurante, onde esbanjou tudo quanto tinha na compra de um frango assado, o que lhe permitiu, por um lado, iludir a vigilância fronteiriça dos nazis e, por outro, ter comida suficiente para a longa viagem de Viena até Paris.

Sigmund, por seu turno, continuava à espera, no martírio da paciência. Da imensa papelada exigida, faltava-lhe agora apenas um documento, uma "declaração de não impedimento de saída do país". A 21 de Maio, foi notificado da avaliação feita à sua colecção de antiguidades, com vista a calcular o imposto que deveria pagar para a levar para o estrangeiro. Uma vez mais, Freud contou com apoios que não estavam à disposição da esmagadora maioria dos judeus de Viena: Hans Demel, curador do departamento de antiguidades egípcias e orientais do Kunsthistorisches Museum, atribuiu à colecção o valor muito baixo, quase irrisório, de 30 mil marcos, o que permitiu ao psicanalista liquidar o respectivo imposto sem grandes problemas.

Saldadas as contas com as finanças, faltava apenas empacotar o acervo magnífico e ultimar os pormenores da viagem. Freud passou a dedicar uma parte do seu dia a organizar a biblioteca e a colecção de antiguidades, algo que, para o seu feitio pouco dado a arrumações, foi um tormento adicional, a juntar aos muitos de que já padecia.

A contemplação, com calma e vagar, de cada livro, de cada peça da sua colecção, trouxe-lhe recordações infindas, lembranças do esforço e do dinheiro que despendera para constituir aquele seu museu privado. Freud era um negociador difícil, que raramente comprava um objecto sem regatear o preço à exaustão. Muitas peças foram compradas após discussões épicas, de semanas, outras tinham-lhe sido oferecidas por pacientes ou até por admiradores anónimos das mais remotas partes do mundo. A amiga de sempre, Marie Bonaparte, aceitou transportar para Paris, no maior dos segredos, a obra que Freud mais apreciava, o seu tesouro íntimo, uma estatueta minúscula de Atena, a deusa grega da sabedoria, protectora das artes e da justiça. Nunca, como naqueles dias em Viena, Freud sentira tanto a falta do sopro da civilização, mesmo que sob a forma mitológica de uma divindade antiga, antiquíssima, das mais antigas do panteão helénico, que, segundo a lenda, jamais se casou ou teve amantes, vivendo em estado de virgindade perpétua. Que, nos seus dias derradeiros, o autor de O Mal-estar na Civilização de e Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade tenha tido o amparo de uma deusa castíssima, eternamente virgem, é só mais um detalhe singular, entre tantos outros, desta história do fim de Freud.

Estava tudo pronto, ou quase. Com as malas arrumadas e as despedidas feitas, faltava apenas a famigerada "declaração de não impedimento de saída". Para a obter, havia que liquidar as dívidas da editora, que, num gesto de esbulho final, os nazis calcularam na considerável soma de 32 mil xelins. O psicanalista não dispunha de tamanha quantia e, de novo, a princesa Bonaparte veio em seu socorro. Sem grandes delongas, pagou a fortuna em falta, os Freud eram agora livres de partir.
No derradeiro instante, as autoridades fariam uma última exigência: o psicanalista deveria subscrever uma declaração afirmando que os nazis tinham-no tratado bem e à sua família. No papel que lhe deram para assinar, escreveu então, num lampejo de génio: "Recomendo vivamente a Gestapo a toda a gente."

No sábado 4 de Junho de 1938, Freud subiu a bordo no Expresso do Oriente, à frente de uma comitiva composta pela sua mulher, Martha, por Anna, a filha muito querida, por Paula Fichtl e por Mitzi, as fiéis criadas, e por uma médica assistente, a doutora Josefine Stross, em substituição do clínico da família, Max Schur, chamado à última hora para uma operação de urgência a uma apendicite. E, claro, além de todos eles, o chow-chow Lün.

Quatro das cinco irmãs de Sigmund Freud morreriam em campos de concentração.

(Continua)

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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