Pequim lança segundo porta-aviões e reforça poderio militar no mar do Sul da China

A China reforça os meios navais com a entrada ao serviço de um segundo porta-aviões, com o mar do Sul da China e Taiwan no horizonte. E a meio de uma guerra comercial com os EUA, que não abdica da presença naval na Ásia.

Tem o número 17 pintado no costado e recebeu o nome da província defronte a Dalian, a cidade do nordeste onde foi construído de raiz. O Shandong é desde a terça-feira o segundo navio porta-aviões ao serviço da Marinha chinesa, e simboliza a ascensão militar da potência asiática tendo em conta as suas aspirações quer em relação a Taiwan quer em relação às suas pretensões territoriais no mar do Sul da China, em rivalidade com outros países, alguns dos quais aliados dos Estados Unidos.

A cerimónia de inauguração decorreu na base naval de Sanya, na ilha de Hainan, no sul, e, além de cinco mil marinheiros e trabalhadores, contou com o presidente chinês, Xi Jinping, mas também com o vice-primeiro-ministro Liu He (responsável pelas negociações comerciais com os Estados Unidos) e com um dos vice-presidentes da Comissão Militar Central, Zhang Youxia.

No convés do navio, Xi Jinping cumprimentou os marinheiros e pediu a todos os presentes para "fazerem mais contribuições ao Partido Comunista e ao povo".

"Este novo porta-aviões é uma grande ajuda na preservação da soberania, integridade territorial e segurança nacional" da China contra a Marinha dos EUA, disse o especialista militar chinês Song Zhongping à AFP.

O Shandong tem 315 metros de comprimento e a carga total pode chegar às 70 mil toneladas, incluindo 40 aeronaves. Tem como base o Liaoning, o primeiro porta-aviões da China. Este foi comprado à Ucrânia em 1998 quando se encontrava ao abandono. Seria o segundo porta-aviões da União Soviética, o Varyag, mas ficou por concluir com o desabar da URSS. Foi adquirido por 20 milhões de dólares pela empresa macaense Agência Turística e Diversões Chong Lot para ser convertido num casino. No entanto, quando por fim chegou a território chinês, em 2002, foi reparado e concluído como porta-aviões. Ao serviço desde 2012, tem servido essencialmente para formação.

Tensão no estreito da Formosa

No mês passado, o novo navio atravessou o estreito da Formosa, entre a ilha onde há sete décadas os vencidos da revolução chinesa fundaram um governo no exílio e a China continental, no que Pequim disse terem sido exercícios de rotina no mar do Sul da China. Taiwan criticou a medida, dizendo que Pequim estava a tentar intimidar e a provocar, numa altura em que decorre a campanha eleitoral para as presidenciais.

Também no estreito da Formosa, em 1996, os chineses compreenderam a importância estratégica dos porta-aviões. Depois de Pequim ter lançado mísseis para o mar numa série de testes que foram vistos como um sinal de força contra o então presidente Lee Teng-hui, que defendia a independência de Taiwan, o aliado de Taipé respondeu. Sob ordens de Bill Clinton, a Marinha norte-americana envia para o local duas esquadras de porta-aviões. Em consequência, Pequim começou o seu programa de modernização e reforço naval.

As chefias chinesas não revelam oficialmente qual é o seu programa de porta-aviões, mas é dado como adquirido, com base em imagens de satélite de um estaleiro naval perto de Xangai, que um terceiro porta-aviões está a ser construído. Este poderá representar um salto tecnológico face aos anteriores caso passe a incorporar o sistema de lançamento de catapulta, o que permitirá uma maior versatilidade nas aeronaves a transportar, e estas poderão, por sua vez, levar mais carga bélica.

Os meios de comunicação estatais chineses citaram especialistas a afirmar que a China precisa de pelo menos seis navios com essas características.

Objetivo: mar do Sul da China

Além de Taiwan, a República Popular da China reivindica como seu quase todo o mar do Sul da China, entrando em conflito com as Filipinas, Vietname, Malásia e Brunei. Com Xi Jinping no poder, a China tem vindo a construir ilhas artificiais neste mar de enorme importância estratégica, não só como via de transporte (calcula-se que por ali passam mais de quatro biliões de euros de produtos por ano), mas também pelas riquezas, entre a pesca e as reservas de gás e de petróleo.

Um relatório da Universidade de Sydney, citado pela The Economist , concluiu que há uma "mudança dramática no equilíbrio de poderes" no mar do Sul da China, onde os Estados Unidos não abdicam de ter navios em nome da "liberdade de navegação". "A estratégia de defesa dos Estados Unidos no Indo-Pacífico está a atravessar uma crise sem precedentes." A Marinha norte-americana estará num dilema em caso de uma ofensiva chinesa contra Taiwan, ilhas japonesas ou territórios disputados no mar do Sul da China. Se os porta-aviões americanos estiverem longe demais poderão não conseguir responder atempadamente e com isso ver a sua reputação colapsar. Se estiverem perto e responderem, arriscam-se a que um dos porta-aviões acabe no fundo do mar.

É que os porta-aviões, apesar de não se deslocarem sem o apoio de outros meios, como submarinos ou fragatas, são alvos fáceis devido ao tamanho. No referido artigo da The Economist informa-se que o Exército chinês tem uma plataforma de 200 metros de extensão no deserto de Gobi para testar o míssil balístico DF-21D, construído para abater porta-aviões.

Também no mar da China Oriental há pontos quentes, como é o caso das ilhas reivindicadas pelo Japão, China e Taiwan e conhecidas por cada governo como Senkaku, Diaoyu e Tiaoyutai.

EUA, potência naval

Com o Shandong, a China passa a ser a terceira potência com mais do que um porta-aviões. Os Estados Unidos têm 11, tal como a lei estipula, movidos a energia nuclear e com uma capacidade superior de carga. O mais recente, USS Gerald R. Ford, custou 13 mil milhões de dólares e cada um deles representa um encargo operacional de mais de 700 milhões de dólares, sem contar com o orçamento relativo aos aviões de caça (1,8 mil milhões de dólares).

A Itália tem o Giuseppe Garibaldi desde os anos 80 (e que deve passar à reforma em 2022) e o mais recente Cavour, já de 2009.

Também o Reino Unido vai ter dois porta-aviões ao serviço. Neste mês, a Marinha britânica recebeu o HMS Príncipe de Gales, mas só deverá estar operacional em 2023. O mesmo em relação ao Japão. Em resposta a uma China cada vez mais musculada, vai transformar os dois destroyers da classe Izuma, de porta-helicópteros para porta-aviões, no caso F-35B.

Os outros países com porta-aviões são a França, a Espanha e a Índia. A Rússia tem o Almirante Kuznetzov, mas está em reparação e manutenção desde 2017 e já sofreu dois grandes acidentes, o último dos quais na semana passada.

Em sentido contrário, a Austrália, o Canadá, a Argentina e o Brasil deixaram de ter porta-aviões.

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