Confinados e livres

O isolamento não está obrigatoriamente nas paredes que nos cercam. Pode-se ter o mundo inteiro para nós e estarmos presos.

Um jovem poeta desiludido da vida tem a ideia de se isolar do mundo numa loja estilo Grandes Armazéns do Chiado, que ocupam um prédio inteiro e contêm de tudo para vender. O plano do rapaz é entrar na loja durante o expediente, esperar que ela feche sem que se perceba a sua presença e passar a viver lá - escondendo-se durante o dia e, à noite, beneficiando-se secretamente do que ela oferece: roupas, comida, serviços, móveis, utensílios. Pois faz isto e, para sua surpresa, descobre que outros homens e mulheres, moços e velhos, tiveram a mesma ideia e lá estão, felizes e ocultos como ele. Formam até uma pequena comunidade, com hierarquias e regras rígidas. Uma dessas regras é a de que não pode haver relacionamentos amorosos entre eles - e que será, naturalmente, a primeira que ele quebrará.

Trata-se de um conto de 1940, intitulado Evening Primrose, do escritor inglês John Collier (1901-1980), colaborador da revista The New Yorker. O compositor Stephen Sondheim transformou-o num pequeno musical para a televisão americana em 1966, com Anthony Perkins no papel do poeta, e de que saiu a linda canção I Remember. Segundo a história, os confinados são felizes na loja, mas, naturalmente, não deixam de se lembrar do que deixaram para trás.

E de que aqueles autoexilados têm saudade e se lembram? De céu, chuva, vento, ruas, árvores, folhas, dias - tudo a que não tinham acesso entre as centenas de paredes da loja. Principalmente dos dias, que, lá fora, eram diferentes uns dos outros. É como muitos de nós, também isolados do mundo, estamos nos sentindo neste momento. No meu caso, em meu apartamento já há mais de um mês, a lembrança do céu e do mar do Leblon, dos dias, ruas, árvores, folhas, etc. ainda está bem viva.

Mas eu me lembro também de outros tipos de confinamento, infinitamente mais duros, que nunca tivemos de viver, exceto pelo cinema. E deviam ser confinamentos intoleráveis, desde o de uma prisão perpétua em solitária, em O Prisioneiro de Alcatraz (1962), de John Frankenheimer, com Burt Lancaster no papel do homem que cria e adestra pássaros em sua cela-gaiola, até o do claustrofóbico túnel que se escava para fugir, no magnífico filme francês O Buraco (1960), de Jacques Becker, ou o da fuga de 43 soldados da Resistência antinazi polaca pelos esgotos de Varsóvia, em Morrer como Um Homem (1957), de Andrzej Wajda. Do confinamento doentio de Catherine Deneuve em Repulsa (1965), de Roman Polanski, ao imposto pelo desabamento de uma mina que aprisiona um homem, no ultraclássico O Grande Carnaval (1951), de Billy Wilder, com Kirk Douglas, e ao cruelmente infligido por um colecionador de borboletas a uma rapariga - que ele vê como outra borboleta - em O Obcecado (1965), de William Wyler, com Terence Stamp e Samantha Egger.

Lembro-me também de loucos confinamentos coletivos, como o de O Anjo Exterminador (1962), de Luís Buñuel, em que grades imaginárias prendem um grupo de homens e mulheres elegantes que, deixados aos seus próprios instintos, se destroçam mutuamente, e o de A Grande Farra (1973), de Marco Ferreri, em que amigos se prendem numa casa para cozinhar os mais finos pratos e comer inacreditáveis quantidades para morrer. Sem falar no pior dos confinamentos, o de ser enterrado vivo, como em tantos filmes de Roger Corman baseados em Edgar Allan Poe, alguns deles A Queda da Casa Usher (1960) e O Fosso e o Pêndulo (1961), ambos com Vincent Price, o episódio "O Gato Preto", com Peter Lorre, de A Maldita, o Gato e a Morte (1962) e O Enterrado Vivo (1962), com Ray Milland.

O cinema foi pródigo em outros tipos de confinamento, cada qual mais terrível, como o do homem que, exposto à radiação atómica, começa a encolher fisicamente e se vê, consciente e lúcido, prisioneiro de um corpo que diminui até atingir proporções também atómicas, para só então, reduzido a nada, se integrar ao universo - esta é a história de Os Sentenciados (1957), a obra-prima classe Z de Jack Arnold. O nada a que a humanidade se reduz pela ameaça atómica foi explorado também em filmes como O Mundo, a Carne e o Demónio (1959), de Ranald MacDougall, em que Harry Belafonte emerge dos escombros de um prédio em Nova Iorque para descobrir que a humanidade foi varrida da Terra; A Hora Final (1959), de Stanley Kramer, com Gregory Peck e Ava Gardner como os últimos remanescentes do último ponto do planeta a sucumbir, a Austrália; e O Último Homem na Terra (1969), de Boris Sagal, com Charlton Heston também sozinho no mundo exceto por zombies que só podem sair à noite.

Em todos esses filmes predomina a asfixiante sensação de confinamento, mesmo que, em alguns, um homem possa ter uma cidade inteira - ou o mundo, se quiser - para explorar.
A provar que o confinamento não está obrigatoriamente nas paredes que nos oprimem. É possível estar confinado entre elas e ser livre. Provou-o o jornalista e escritor brasileiro Álvaro Moreyra, preso como comunista, em 1939, pelo ditador Getúlio Vargas. Meses depois, ao ser solto, o carcereiro disse-lhe: "Pode ir, o senhor é um homem livre." "Sempre fui", respondeu-lhe Álvaro, "principalmente nos meses que passei aqui."

No conto de John Collier, ninguém jamais poderá ir embora da tal loja de departamentos, para não denunciar os outros que continuariam vivendo lá. Os que tentam escapar são mortos, embalsamados - um dos confinados é um médico - e transformados em manequins da própria loja.

Assustou-se? Calma - é só ficção...

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, Carnaval no fogo - Crónica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio de Janeiro (Tinta-da-China).

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