Pandemia tirou 980 milhões ao alojamento turístico no verão

A fatura final da pandemia para o turismo ainda não é conhecida, mas até setembro os proveitos totais das unidades de alojamento registaram uma queda a pique, com o setor a perder muitos milhões em comparação com o ano passado.

Os meses de julho, agosto e setembro são tipicamente os melhores para o setor do turismo em Portugal. Mas a pandemia de covid-19 tornou 2020 diferente dos últimos anos. Olhando para o trimestre de verão, é possível perceber que o número de hóspedes caiu cerca de 53%, passando de pouco mais de nove milhões de hóspedes para quatro milhões neste ano. As dormidas também caíram significativamente: foram pouco mais de 11 milhões de dormidas no trimestre estival, o que contrasta com os mais de 25 milhões no mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística.

Menos hóspedes e dormidas traduz-se numa quebra dos proveitos totais e de aposento nas unidades de alojamento turístico. No terceiro trimestre, os proveitos totais (que incluem as receitas de aposento, da restauração e de outras atividades, como o aluguer de salas) recuaram quase 59% em relação ao ano passado, para pouco mais de 693 milhões de euros. Nos três meses de verão de 2019 tinham ascendido a mais de 1,6 mil milhões de euros, o que significa que a diferença é de cerca de mais de 981 milhões de euros.

Todas as regiões registam uma quebra em relação ao mesmo período de 2019. Para se ter uma ideia, os proveitos totais na Área Metropolitana de Lisboa nos três meses de verão do ano passado ascenderam a quase 420 milhões de euros. Já nos meses de julho, agosto e setembro deste ano, ficaram pouco acima dos 86 milhões de euros, um reflexo da falta de procura pelo turismo de cidade e pela quebra do turismo de negócios e eventos.

Os serviços além do aluguer de quartos contam cada vez mais para as receitas das unidades de alojamento turístico. Mas com menos eventos, casamentos e outro tipo de festas, essa componente não deu um grande contributo para as receitas. Por isso, os proveitos de aposento representaram a fatia de leão dos proveitos totais: ascenderam a quase 541 milhões de euros, o que, ainda assim, representa uma queda de quase 59% face ao período homólogo.

Ano para esquecer

Esta tendência de forte contração não se resume aos meses de verão. De janeiro a setembro, os proveitos totais registaram uma quebra homóloga de 64% para 1,2 mil milhões de euros. Tal como nos hóspedes e nas dormidas, em janeiro e fevereiro foram superiores aos de 2019, contudo, a partir de março, com a chegada da pandemia, essa tendência inverteu-se.

No caso dos proveitos de aposento, no acumulado dos nove meses ascenderam a 931 milhões, menos quase 64% do que no período homólogo.

Com as ligações transatlânticas muito reduzidas e com a maioria dos países europeus - principais mercados emissores de turistas para Portugal -, com restrições de movimentos, o cenário negro no setor deverá manter-se no último trimestre do ano.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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