Ondo e Siktak: sabores coreanos à conquista do Porto

Um restaurante abriu em maio, o outro em junho. As donas, e cozinheiras, são duas jovens de Seul que decidiram viver em Portugal e querem ser pontes entre culturas. A pandemia complica o desafio, mas não as faz desistir do sonho.

É difícil dizer qual é o prato mais saboroso, se o bibimbap do Ondo ou o daeji galbi do Siktak, os dois restaurantes coreanos que abriram agora no Porto e que são uma novidade absoluta na capital do Norte. Mas tanto o Ondo, de Kelly Min, como o Siktak, de Jenah Sung, ambicionam ser muito mais do que uma aposta gastronómica. As duas jovens coreanas que se apaixonaram por Portugal querem ser "pontes com a Coreia e dar a conhecer a cultura muito rica" da nação asiática a todos aqueles que no Porto, e não só, sintam curiosidade de ir além do saber dizer "olá" em coreano: "Annyeonghaseyo." Para isso, planeiam workshops, como o de preparação de kimchi, couve fermentada que é muito popular na Coreia e considerado um dos alimentos mais saudáveis.

Kelly Min, cujo nome coreano é Min Gyeongsuk (o apelido surge primeiro), tem 32 anos e instalou-se em Portugal depois de seis anos em Espanha, onde esteve primeiro em Palma de Maiorca, onde vivem uns tios, e depois em Madrid. No Porto está há ano e meio e, apesar de haver "tradição na família de termos restaurantes", já trabalhou na hotelaria e também como fotógrafa. Multifacetada, conta que estudou História da Arte e que tem viajado muito pela Europa, sempre querendo conhecer mais. Mesmo assim vai uma vez por ano a Seul, capital da Coreia do Sul, onde vive a família, "uma forma de ganhar energia para o resto do ano, para tantos desafios longe de casa". Neste ano a viagem regeneradora está mais complicada por causa da covid-19, mas em relação ao restaurante a pandemia não consegue desanimar a jovem coreana.

Kelly Min cozinha à vista de todos, e é esse também o segredo do sucesso desde que abriu o pequeno restaurante, em junho, na Rua de São Victor. "'Ondo' quer dizer 'temperatura', mas também significa 'calor', o calor do lar, da família", explica, falando em espanhol, língua que se impõe ainda a um português que vai aprendendo aos poucos. Curiosamente, apesar de ter crescido em Seul, pujante metrópole de uma Coreia do Sul próspera e democrática (por oposição à Coreia do Norte, com uma ditadura dinástica), nasceu na ilha de Jeju, de onde a mãe é natural: "Acho que a minha mãe foi lá dar à luz por estar junto da família, que na nossa cultura é sempre muito valorizada."

A conversa com Kelly Min é a mesa, almoçamos tarde, eu porque vim de Lisboa, ela porque teve de atender os clientes. Bebo uma cerveja coreana, a Kloud, e antes do bibimbap provei o magnífico frango frito que tem dado fama ao Ondo. Quanto ao bibimbap, é um prato colorido como poucos, neste caso composto por arroz branco, com legumes verdes, cenoura, cebola, pimento, kimchi, tofu, cogumelos, carne de porco e ovo estrelado no centro. Depois de vir para a mesa, "é misturar até o arroz deixar de ser branco", explica Kelly Min. Explico-lhe que o bibimbap não é novidade para mim e que já estive várias vezes na Coreia do Sul, daí o meu especial interesse pelo país, parte gastronómica incluída.

O Siktak, que visito um dia depois do Ondo, é também um pequeno restaurante, neste caso na Rua dos Bragas. Quer dizer "mesa". À frente está Jenah Sung (Sung Hyojung), de 26 anos, que foi curadora de arte em Seul, e "depois de visitar toda a Europa e conhecer Portugal, decidi que o Porto era a cidade onde queria viver". Antes de abrir o restaurante, "um sonho desde que em finais de 2017 me instalei aqui", trabalhou como guia turística para grupos coreanos. E quer continuar a fazer várias coisas, diz. Também a ela a pandemia preocupa, mas não a ponto de desistir dos projetos.

A conversa desta vez é também à mesa, mas com Jenah Sung, que fala português mas se sente mais à vontade em inglês, a dizer-me ter os minutos bem contados - tem de ir preparar a comida, pois os clientes vão chegando, sobretudo portugueses que querem experimentar novos sabores. A ementa vai mudando numa base semanal e mensal, e hoje não há os clássicos bibimbap ou bulgogi, carne marinada em molho de soja e grelhada junto com verduras. Bebo uma cerveja Cass, mas também há o tradicional Soju. Começo com dwaeji galbi, espécie de entrecosto com batatas e cenouras estufadas, depois japchae, que são noodles de batata-doce com tiras de carne de vaca, e, por insistência da cozinheira, ainda provo um delicioso dackgalbi, um prato de frango com legumes com pasta de pimentão. Jenah Sung reafirma que está mesmo "apaixonada" pelo Porto, mas pede desculpa a brincar por não apreciar muito as francesinhas. Nada contra a comida portuguesa, apressa-se a acrescentar: "Gosto de bacalhau com natas e de cataplana de peixe."

Em novembro do ano passado, escrevi no DN o artigo "Já há dois restaurantes em Lisboa para descobrir a slow food coreana", em que fui acompanhado na reportagem pelo embaixador Song Oh na descoberta do K-Bob, perto da Mesquita Central, e do Grill de Korea, no Bairro Alto. Pois agora no Porto também foi a embaixada a garantir-me que o Ondo e o Siktak eram restaurantes coreanos mesmo. Não há razão para não experimentar a autêntica comida da Coreia, quando muito adaptada um pouco ao gosto europeu e um pouco menos picante do que seria servido em Seul. E tal como a língua e cultura coreanas, totalmente distintas das dos vizinhos China e Japão, também a gastronomia do país é única e uma agradável surpresa.

Mais Notícias