Remodelação absoluta

Noutro contexto político e económico, o atual momento do governo seria sempre encarado como uma crise. Se a demissão do ministro da Defesa, depois da vergonha nacional de Tancos, já seria motivo bastante, somar-lhe o afastamento dos ministros da Saúde, da Economia e da Cultura, mais uns quantos secretários de Estado, não podia ter outra leitura que não fosse a de uma crise política no governo.

Mas as circunstâncias em que António Costa se encontra são muito particulares. Três anos depois, e contra as expectativas de muitos, o primeiro-ministro conseguiu aguentar a geringonça - diria mesmo algemar o Bloco e o PCP a esta solução -, cumpriu com a devolução de rendimentos, reduziu o défice até próximo de zero, a economia cresce e o desemprego desce. Nem tudo está resolvido, é verdade. A dívida pública continua elevadíssima, mas disso o país já não quer saber. Os bancos voltaram a emprestar dinheiro, as famílias voltaram a comprar casas, carros e já conseguem ir de férias. Mário Centeno passou tão depressa de besta a bestial que chegou a presidente do Eurogrupo.

O sucesso do Governo é inversamente proporcional ao da oposição.

Quanto melhor correm as coisas a António Costa, mais o PSD se afunda.

Primeiro foi Pedro Passos Coelho a perder o norte, agora é Rui Rio que ainda não o encontrou. Sobra o CDS, o único partido que consegue verdadeiramente irritar o primeiro-ministro, talvez por ser o único que ainda esboça algum tipo de oposição.

Depois da derrota em 2015, ao longo dos últimos três anos as sondagens foram dando sinais de que o PS não só se encaminhava para uma vitória em 2019, como começavam a estar criadas todas as condições para conquistar a segunda maioria absoluta da sua história. Até que apareceram os incêndios de 2017 e o assalto a Tancos. Duas tragédias - cada uma com o seu significado - que podiam dar uma machadada nas ambições dos socialistas.

Mário Centeno passou tão depressa de besta a bestial que chegou a presidente do Eurogrupo.

Em ambos os casos, António Costa fez uma péssima gestão política. No caso dos incêndios, permitiu que fosse o Presidente da República a empurrar Constança Urbano de Sousa para fora do governo. Agora, com Azeredo Lopes, deixou que o ministro andasse a arder em lume brando, não percebendo que era o próprio primeiro-ministro que se estava a queimar.

O momento de agir era agora ou nunca. António Costa não podia deixar que Azeredo Lopes lhe roubasse a maioria absoluta. Muito menos Adalberto Campos Fernandes. Ainda menos Caldeira Cabral ou Luís Castro Mendes. O que está em jogo é demasiado importante para morrer na praia por causa de dois ou três ministros.

Com esta remodelação, a menos de um ano de eleições, o primeiro-ministro resolve vários problemas num movimento só. Vamos por partes:

A saída de Azeredo Lopes resolve grande parte do problema político do assalto a Tancos. Prove-se ou não que o ex-ministro tinha conhecimento do encobrimento. Se o novo ministro da Defesa não cometer grandes erros daqui para a frente - como manter o atual Chefe do Estado-Maior do Exército - o assunto Tancos fica, praticamente, na esfera judicial.

No caso da Saúde, a saída de Adalberto Campos Fernandes evita mais um ano de "somos todos Centeno" vs. "somos todos Adalberto". A nova ministra vai discutir e implementar um orçamento que não fez e que não negociou, dando-lhe assim pouca margem de manobra para entrar em choques com o ministro das Finanças. Sobretudo em ano de eleições.

O caso da Cultura é ainda mais caricato pelo falhanço que representa na ação do governo. Se houve área em que António Costa prometeu apostar durante a campanha para as legislativas de 2015 foi precisamente esta. Em almoços e jantares com gente da cultura, sempre rodeado de atores, realizadores e artistas de todo o tipo, Costa prometeu a todos fazer o que nunca outro primeiro-ministro havia feito. Três ministros em três anos já não é propriamente um bom sintoma. A contestação no setor, e sobretudo a Luís Castro Mendes, responde ao resto.

E chegamos ao Ministério da Economia. Tão importante para este governo que foi esvaziado de praticamente tudo logo no arranque. Para o liderar, António Costa escolheu um competentíssimo economista, Caldeira Cabral, para quem a política era uma ciência desconhecida.

Sem peso político e sem grandes atribuições práticas - nem os fundos comunitários podia gerir sozinho -, ao agora ex-ministro, coube, sobretudo, o papel de "rainha de Inglaterra" das empresas. Percorreu várias vezes o país e o estrangeiro, deu muitas palmadas nas costas dos empresários portugueses, mas o país nunca deu muito por ele. O que não significa que não trabalhava. Caldeira Cabral trabalhou e muito.

Mas o Ministério da Economia é tão importante para o primeiro-ministro que ele achou que o seu ministro adjunto podia muito bem acumular as duas pastas.

Com esta remodelação, António Costa não só "limpa" do governo alguns dos ministros mais problemáticos, seja pelas polémicas em que se viram envolvidos, seja por serem invisíveis aos olhos do país, como reforça o executivo com ministros de cariz muito mais político. Mais bem preparados para a campanha eleitoral que se avizinha.

Mais: remodelar quatro ministros e vários secretários de Estado a poucos dias do debate do Orçamento do Estado retira força aos partidos da oposição, que deixam de poder confrontar os ex-titulares das pastas pelo trabalho que fizeram e por aquilo que conseguiram inscrever no Orçamento.

É por isso que, politicamente, esta remodelação é, mais do que uma necessidade, uma jogada política de António Costa para chegar à maioria absoluta. Por tudo aquilo que significa cada uma das mudanças, mas também porque é feita num contexto particularmente favorável ao governo. E assim, mais uma vez, António Costa conseguiu transformar uma crise numa oportunidade.

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