"Fruta antes, durante e depois das refeições… quando quiser"

A fruta faz sempre bem, os legumes também e as leguminosas são fundamentais. Bases de uma alimentação adequada e que as Nações Unidas querem que se torne um direito humano. Hoje é o Dia Mundial da Alimentação.

Alimentos saudáveis, tendências alimentares que, por vezes, mais não são do que mitos, a falta de qualidade nas cantinas escolares, o acesso das populações a uma alimentação adequada, são algumas das questões que estão em cima da mesa quando se assinala o Dia Mundial da Alimentação, nesta terça-feira.

Alguns alimentos entraram em desgraça, como o leite ou a batata; outros deixaram de fazer parte da dieta mediterrânica dos portugueses, como as leguminosas; passou-se a comer carne em abundância, também a beber refrigerantes, tudo contrário a uma boa alimentação. Passa de boca a boca os benefícios de novas práticas alimentares, nem sempre corretas, como a ideia de que não se deve comer fruta às refeições.

"Pode-se comer fruta antes, durante ou depois da refeição, quando apetecer. A fruta tem nutrientes fantásticos: água, fibra, vitaminas e minerais, depois tem um hidrato de carbono mas que se absorve muito rapidamente: a frutose. Melhor do que a fruta só os legumes", defende Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas. Um adulto deve comer em média entre três e cinco peças de fruta por dia.

Num encontro com os jornalistas, a propósito do Dia Mundial da Alimentação, a bastonária falou sobre os perigos das alterações nos hábitos alimentares das populações, nomeadamente em Portugal, o que leva as organizações internacionais a defenderem medidas públicas para garantir uma alimentação saudável e a que todos possam aceder.

O Dia Mundial da Alimentação é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), "para promover a consciencialização sobre as ações para erradicar a fome e promover a segurança alimentar e nutricional no mundo".

Direito à Alimentação Adequada

Tem como meta a garantia da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada, normas aprovadas pelos países membros da ONU há algumas décadas. "Visa reforçar a ideia de que a alimentação é a principal necessidade humana. Se a alimentação adequada não estiver satisfeita, todos os outros direitos humanos têm dificuldade em se expressar. Permite às pessoas ter uma vida digna e saudável, de acordo com as suas carências alimentares e, naturalmente, com a sua cultura", explica Francisco Sarmento, chefe do escritório da FAO em Portugal.

Acrescenta que o país assinou todos os acordos e tratados internacionais sobre esta matéria, que a Constituição Portuguesa protege este direito se o englobarmos no Direito à Saúde, mas falta passar da teoria à prática. "Para que esse direito possa ser efetivo precisa de ser operacionalizado através de um conjunto de políticas públicas específicas que dizem respeito a vários setores da ação governativa, desde as políticas agrícolas até ao ordenamento do território, passando pela saúde e educação. E toda a ação de implementação destas políticas tem de ser coordenada, no sentido de criar um instrumento legal visando realizar o Direito Humano à Alimentação Adequada."

A representação portuguesa da FAO promove nesta terça-feira uma conferência, às 10.30, na Assembleia da República, sob o título "A Construção do Direito Humano à Alimentação Adequada em Portugal", na Sala do Senado.

Francisco Sarmento diz que o objetivo "é fazer uma reflexão conjunta sobre os desafios da alimentação em Portugal e de como trabalhar conjuntamente para fazer face a esses desafios numa ótica de garantir a alimentação adequada à maioria da população". Sublinha: "É urgente, em primeiro lugar, que as pessoas tomem conhecimento da existência desse direito e das diferentes opções para o realizar, que é algo novo. São precisos ajustes nas políticas em vigor para que possam permitir a realização desse direito. Não estamos só a falar em produzir alimentos saudáveis e de como devem chegar às populações, mas também garantir que as pessoas tenham meios para aceder a esses alimentos, em particular as populações urbanizadas."

"É preciso começar"

Um projeto que tem a consciência de ser a médio/longo prazo, mas que "é preciso começar".

Para Alexandra Bento, Portugal "acordou tarde", mais propriamente com 40 anos de atraso. Defende a necessidade de "imprimir mais ritmo e intensidade às medidas para promover uma alimentação saudável".

E lembra os "fatores de risco que mais contribuem para os anos de vida saudável perdidos pela população portuguesa": os hábitos alimentares inadequados (15,8% da população), hipertensão arterial (13%) e índice de massa corporal elevado (11,5%). Acrescenta que, segundo a Direção-Geral da Saúde, "metade das causas de doença e de morte no país têm relação direta com a obesidade".

Mais de metade da população portuguesa tem excesso de peso

5,9 milhões de portugueses, ou seja, mais de metade da população, são obesos (22,3%) ou pré-obesos (34,8%), 25% das crianças e 32,3% dos adolescentes têm excesso de peso.

A Ordem dos Nutricionistas apresentou uma proposta ao governo há sete meses para informar a população portuguesa dos riscos alimentares, com incidência nas escolas. Alexandra Bento estranha não terem ainda uma resposta mas espera que o projeto apresentado seja posto em prática.

"Ver para querer"

Esse projeto envolve a contratação de 30 nutricionistas, cinco encarregados da produção de normas e os restantes distribuídos pelas cinco direções-gerais de Estabelecimentos Escolares: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Envolve toda a comunidade escolar e prevê que um professor esteja presente nos refeitórios.

Quiseram exemplificar com o que as crianças comem no refeitório, analisando os seus desperdícios num projeto-piloto a que deram o nome de "Ver para Querer" e que desenvolveram na Escola EB 2/3 de Amarante. O desperdício alimentar em cada refeição ronda os 20%, "o que está de acordo com outros estudos nacionais". E desperdício não quer dizer restos, mas a sopa que fica no prato, os legumes deitados fora, a fruta que vai para trás, quando os alunos colocam no tabuleiro estes alimentos (porque muitos nem sequer os levam para a mesa).

Alexandra Bento considera a Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável, aprovada em 2017, "um marco histórico", num país com poucas medidas de peso nas últimas décadas. Lamenta a substituição do secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, que considera ter sido um elemento fundamental nas medidas públicas tomadas recentemente, nomeadamente no que diz respeito à criação de legislação para diminuir o consumo de sal e do açúcar.

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