Arte em tempo de pandemia

A arte, como expressão da humanidade, centra-se e manifesta-se, desde sempre, num breve conjunto de questões fulcrais, como o amor, o ódio, a paixão, o ciúme, a opressão, a liberdade, a vida e a morte. Quando ela exprimir o que de melhor tem a humanidade, tenderá sempre a cantar o amor e denunciar o ódio, valorizar a paixão e compreender o ciúme, combater a opressão e promover a liberdade, exaltar a vida e superar a morte.

Em tempo de pandemia, como o que vivemos presentemente, a morte sai à rua todos os dias, para lembrar-nos implacavelmente como somos frágeis. De nada vale a soberba construída, ao longo de séculos, desde o advento do racionalismo tecno-económico e acelerada sobretudo nas últimas quatro décadas. A pressa de viver, de gozar, de enriquecer, de ter sucesso é, afinal, ilusória: pode ser - como foi - parada. A ignorância, a boçalidade e a arrogância não podem ser disfarçadas, por mais poder que tenham as suas personae. A cobiça não se pode travestir de eufemismos fosforescentes, tais como meritocracia, talento ou excelência, pelo contrário, exibe-se tal qual é, perfeitamente nua e descarnada, como o rei da parábola universal.

Um "bicho" que nem sequer é bicho está a mostrar-nos como, mais do que frágeis, somos impotentes. Afinal, a ciência não sabe tudo. Naturalmente, sendo eu um "otimista realista", como gosto de autodefinir-me, acredito que os cientistas - que estão a trabalhar a todo o vapor - encontrarão, mais cedo do que tarde, uma solução para esta pandemia. Mas outras pandemias e outras ameaças virão, sobretudo se a humanidade insistir em viver como tem vivido, em absoluto desprezo à natureza. Quanto a isso, posso dizer que sou menos otimista.

Pelo seu lado, as religiões apaziguarão, por certo, a alma de todos aqueles que nelas acreditam e, mais ou menos devotamente, as professam. Mas também não farão milagres.

Em tempos sombrios, complexos e depressivos como este, principalmente porque não sabemos como decifrá-los e enfrentá-los, a arte é convocada a cumprir o seu papel fundamental desde que a humanidade é humanidade: iluminar a realidade, desvendar as possibilidades ocultas sob as suas camadas aparentemente indecifráveis, encorajar os homens e as mulheres a enfrentar com serenidade e resolução os desafios do mundo e da sua própria existência.

Desde que esta pandemia se manifestou, está, de facto, a fazê-lo uma vez mais. Em todo o mundo, escritores, músicos, artistas plásticos, cartunistas, humoristas, designers e outros criadores têm produzido materiais e peças artísticas motivadas pelo novo coronavírus. Mais do que obrigações profissionais exigidas pelo mercado, como compromissos editoriais e outros, ou meros impulsos aleatórios, trata-se de manifestações genuínas dessa imperiosa e radical necessidade que têm os seres humanos de recorrer à arte para manterem a lucidez e a esperança em tempos de crise.

Os exemplos estão espalhados pelos quatro cantos deste planeta que todos habitamos, de poemas a canções, cartoons, telas, espetáculos transmitidos pela internet, visitas em linha a museus, monumentos e locais históricos e tantos outros. Nesta semana, por exemplo, visitei um dos sites de literatura de que mais gosto, o www.wordswithoutborders.org, que criou uma série com autores de todo o mundo chamada Voices from the Pandemic.

Em suma, só os pobres de espírito podem escrever, como li num jornal português já a covid 19 se tinha manifestado, que, nestes tempos duros, "não precisamos de poesia".

Para terminar, realço que a presente pandemia já nos levou até ao início do atual mês de maio mais de cinquenta artistas mundialmente conhecidos, além, seguramente, dos desconhecidos. Cito entre eles, apenas a título exemplificativo, os nomes de Luis Sepúlveda, Manu Dibango, Sarah Maldoror, Ellis Marsalis, Adam Schlesinger, Lucia Bosè, Naomi Munakata, Aldir Blanc, Tim Robinson e Sérgio Sant'Anna.

Com a morte de todos esses e outros artistas, o mundo ficou certamente mais pobre, mas o universo, mais rico.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

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