Olhão vai ter o primeiro festival pós-covid 19

Um festival que põe a dialogar o cinema e a literatura. Chama-se FICLO e arranca dia 15 de julho em Olhão e Tavira. É o primeiro evento de cinema no país a acontecer após o desconfinamento em curso.

É um fardo pesado para uma iniciativa que ainda dá os primeiros passos: ser o primeiro festival presencial após a pandemia. Chama-se FICLO. É em Olhão, e nesta segunda edição vai ter de lidar com a tal nova normalidade: depois de ter prometido para março uma bela síntese entre cinema e literatura, vai agora de 15 a 21 de julho tentar mostrar essas qualidades.

Os convidados estrangeiros são menos e a aposta agora é sobretudo em sessões ao ar livre, fator que pode atrair mais gente nesta fase de natural desconfiança. Mas, depois de uma primeira edição com um certo fôlego internacional, o FICLO parece conseguir crescer ainda mais em termos de ambição. A programação proposta tem filmes com nomeada, percursos performativos, retrospetivas e encomendas artísticas num esforço do Cineclube de Tavira e da Câmara de Olhão.

O nome forte deste ano é o espanhol Albert Serra, cineasta que, por acaso, tem o seu último filme, Liberté, em exibição no Cinema Trindade, no Porto. Todos os filmes de Serra, provavelmente, o nome mais insolente saído da Catalunha, serão exibidos em Olhão. Curiosamente, ainda antes do estado de emergência, Serra tinha estado em Olhão a orientar um seminário intitulado Metodologia e Cinema Contemporâneo.

Na competição de longas, o festival tem propostas que deixam água na boca a qualquer cinéfilo, a começar por Adoration, de Frabrice du Welz, filme de abertura. Mas há ainda Out Stealing Horses, de Hans Petter Moland, candidato o ano passado ao Urso de Ouro de Berlim, ótimo filme, e Campo, de Tiago Hespanha, obra que já teve estreia comercial em Portugal. Aliás, Tiago Hespanha terá escrito um guião a partir de uma residência artística e esse guião vai ter leitura encenada coordenada por Rogério Carvalho.

Segundo as diretoras Débora Mateus e Candela Varas, tudo o que se passar no festival respeitará as normas de segurança impostas pela Direção-Geral da Saúde: "O FICLO vai seguir de forma rigorosa com todas as diretivas da DGS, tais como: preferência por compra antecipada por via eletrónica; os espaços, equipamentos, objetos e superfícies devem ser limpos e desinfetados periodicamente, conforme a sua frequência de utilização e a ocupação dos lugares sentados deve ser efetuada com um lugar livre entre espectadores que não sejam coabitantes, sendo a fila anterior e seguinte com ocupação de lugares desencontrados. Para além das diretivas da DGS, o festival cancelou todas as atividades onde não se pudesse assegurar totalmente as normas de distanciamento físico e higienização".

Ainda assim, alguns dos convidados internacionais não vão estar presentes, sobretudo pelo natural receio de viajar, mas estão previstas apresentações via streaming de alguns deles, sobretudo nas masterclasses. "Em relação à programação de filmes, o Ciclo de Gótico Tropical, um ciclo que explora a inquietação e as sombras, será adiado. Voltaremos a este ciclo numa outra edição para podermos tirar todo o partido do humor com que se mostra o horror de certas situações de exploração. De resto, todos somos afetados pelas situações que estamos a viver, portanto poderá sempre haver novas leituras com a nova situação de saúde, social, económica e política", explicam as diretoras.

O contexto da mistura do literário e do cinematográfico será sentido na escolha dos filmes da competição, supostamente todos eles subordinados à viagem como temática da literatura universal ao longo dos séculos. Olhão terá ainda uma rota de petiscos cineliterários, inspirados nos filmes propostos, bem como a própria livraria do festival, instalada no Mercado da Fruta de Olhão, um dos mais belos sítios desta cidade algarvia.

"A adesão achamos que vai ser boa, visto que as pessoas estão bastante recetivas a eventos ao ar livre. E uma das alterações que fizemos foi precisamente a de ter parte da programação ao ar livre. Já tínhamos várias atividades ao ar livre, como os percursos performativos, masterclasses a bordo do Caíque Bom-Sucesso ou a livraria nómada, mas com a pandemia passamos praticamente a Competição Internacional para sessões ao ar livre na República 14 em Olhão e no Convento do Carmo de Tavira", acredita a direção.

O Algarve, face às contingências dos adiamentos dos outros festivais, vai ter mesmo o primeiro festival ao vivo mas com distância social.

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