"Ninguém percebe como a ministra da Justiça está em funções"

O líder do CDS-PP acusa, em entrevista ao DN, o governo de ter culpa no descontrolo da pandemia. Critica o não encerramento das escolas acima dos 12 anos e a opção de não vacinar os mais idosos. E diz que Costa manchou a reputação do país ao não ter demitido Francisca Van Dunem.

As medidas adotadas pelo governo para combater a escalada da pandemia são as certas?
Quando assisti ao anúncio do primeiro-ministro, acerca das medidas para este novo confinamento, fiquei com a sensação de que este é igual ao primeiro, exceto em quase tudo, e as incoerências, os sinais contraditórios e a incapacidade de previsão mantêm-se. E quando o governo relaxa, quem paga a fatura são os portugueses, como, de resto, estamos a ver.

Mas acha que as exceções são demasiadas?
Parece-me que podem comprometer os sacrifícios que o país está a atravessar.

As escolas deveriam fechar?
Relativamente às escolas existiu, de facto, alguma discussão acalorada, na reunião com os especialistas na sede do Infarmed. Pareceu-me que ficou demonstrado pelos estudos que com as escolas fechadas mais rapidamente baixaríamos o tal R(t) - que é o índice de propagação da doença para baixo de 1. Com as escolas abertas vamos demorar mais tempo. Os jovens acima dos 12 anos têm incidências muito grandes ao nível das contaminações por covid, enquanto abaixo dos 12 não é assim o perigo de contagiarem sobretudo as famílias e os mais velhos. Acima dos 12 é uma das faixas etárias que existe até um certo descontrolo. E se nós formos dos 20 aos 50 - porque as universidades mantêm-se abertas -, há quase uma discrepância enorme em relação às outras idades no risco de infeções e de incidências. Parece-me preocupante e alarmante não ter tido esta capacidade de cautela e de antecipação deste risco. E mantendo as escolas abertas acima dos 12 anos neste confinamento pode significar um tiro furado e uma oportunidade perdida. A DGS implementou uma estratégia nacional de rastreio em que obrigava as escolas a testar, nomeadamente com os testes antigénios utilizados em massa, para garantir que são locais seguros. Bem, as escolas têm regras apertadas, mas estão longe de serem locais seguros, isentos de contágios. Acima dos 12 anos, as escolas deveriam ficar fechadas. Mas, se enviasse os alunos para casa, o governo tinha prometido, no dia 8 de abril, que no início do ano letivo todos os alunos teriam acesso a um computador.

Está por cumprir essa promessa?
Está por cumprir. Num milhão apenas distribuíram cem mil.

Acredita que daqui a 15 dias vai ser necessário fechar as escolas?
Eu espero que não seja preciso, mas, infelizmente, não estou otimista. Os meios escolares concentram muitas pessoas, muitos jovens. E não é só no ambiente de sala de aula, nem dentro da escola, é nas imediações, os aglomerados que se podem juntar, são milhares de contactos que depois podem gerar focos de contaminação que resvalam e transpiram para o resto da sociedade pondo em risco, por exemplo, os mais vulneráveis.

Estamos a correr atrás do prejuízo. De que maneira atingirá o setor económico?
A pandemia não se combate com ideologia, porque, a partir do momento em que há uma decisão governamental que obriga as pessoas a fecharem os seus negócios, a confinar-se em casa, não ter o seu sustento e o seu ganha-pão, naturalmente que isso traz dificuldades para a sustentabilidade das famílias e dos portugueses. O primeiro-ministro no início do desconfinamento tinha dito que não podíamos voltar a impor um novo confinamento porque as famílias, as pessoas e as empresas não iam aguentar. Chegámos a esta situação porque o governo falhou. Teve uma gestão desastrosa da pandemia após o desconfinamento, uma péssima capacidade de planeamento, uma má previsão dos acontecimentos, e acabámos por ter estes números, em que a pandemia está completamente descontrolada.

Que apoios são indispensáveis para combater o prejuízo à economia?
Saíram estudos, no final da primeira vaga, que davam nota de que Portugal era um dos países da zona euro que menos dinheiro tinham gasto, em percentagem do PIB, no apoio à economia. E nós vimos este Orçamento do Estado que procurou distribuir uma riqueza que não existe e não criou nenhuns incentivos para a captação de investimento e para a criação de riqueza. Nem tão-pouco injetou liquidez e fez um choque de tesouraria nas empresas. As moratórias apenas adiam compromissos. Se as pessoas, daqui a um ano, não estiverem preparadas para pagar as suas dívidas, vão abrir insolvência, ou até abrem antes porque sabem que é uma situação verdadeiramente insustentável, com a corda na garganta.

Concorda com o adiamento das moratórias, como pediu o Presidente da República?
Sim. O adiamento das moratórias faz todo o sentido, mas não pode ser uma medida isolada. Tem de ser acompanhada por outras. Por exemplo, o CDS tem defendido que deve haver linhas de crédito a fundo perdido para injetar na economia, para dar oxigénio e liquidez às empresas, para honrarem os seus compromissos e manterem os seus trabalhadores. É óbvio que o lay-off tem de regressar, o simplificado para conseguir manter as empresas vivas e sobreviverem. O CDS defendeu no Orçamento do Estado que devia haver uma redução do IRC para uma taxa de 19%. E sempre que os governos baixaram o IRC, o que aconteceu até foi um aumento da receita fiscal. Um cheque de emergência, para dar a todas as micro e pequenas empresas que estejam em dificuldades, que vem da declinação do Fundo de Emergência. Era importante que todas as empresas pudessem regularizar a sua situação ao fisco, porque aquelas que tiverem dívidas ao fisco não vão poder aceder aos apoios. Se a isso somarmos, por exemplo, o programa que nós também propusemos, que era o IRC em caixa, que era as empresas poderem descontar os prejuízos deste ano e do próximo no IRC que pagaram nos anos anteriores. É tipo um adiantamento de tesouraria para fazer face às dificuldades que estão a atravessar nesta altura. Uma proteção social também, para os profissionais liberais, que a rede é curtíssima para conseguirem vencer todas as severas contingências a que estão sujeitos. Isso seria um Estado que era amigo das pessoas, humanista e ajudaria a criar uma rede para que ninguém fique para trás. O Estado tem de abrir os cordões à bolsa e cada cêntimo que não poupar agora vai ter de gastar mais tarde, a título de prestações sociais. Vem aí a tal bazuca financeira, que está no programa de resiliência. O governo não pode hesitar e não pode falhar aos portugueses. Mas está a cometer os mesmos erros pela terceira vez, agora que estamos a atravessar a terceira vaga desta pandemia. Temos apoiado os estados de emergência, mas, infelizmente, o governo tem-se mostrado cada vez mais contraditório, incoerente e incapaz de fazer face a esta realidade que o país atravessa.

Concorda com o plano de vacinação contra a covid?
Todos sabemos que o processo de vacinação vai ser demorado, porque a maior parte dos portugueses só vão ser vacinados daqui a um ano. O pecado original deste plano de vacinação é não ter vacinado os idosos com mais de 80 anos, como fizeram os países que são nossos congéneres a nível europeu. Na primeira fase estão contemplados idosos que estão em lares, institucionalizados ou em cuidados continuados. Mas há transferência comunitária do vírus para quem não está institucionalizado também. A taxa de mortalidade, por covid-19 acima dos 80 anos é de 20%. E estima-se que, só nestes 3000 infetados, agora acima dos 80 anos, 600 vão morrer. E nós temos 600 mil idosos com mais de 80 anos, 400 mil não estão em lares. Não compreendo como, sendo os mais vulneráveis, os mais expostos ao vírus, aqueles que estão com mais dificuldade em sobreviver, estes idosos não estão contemplados nesta fase da vacinação. Eu tenho um avô, que vai fazer 100 anos no dia 13 de julho, que só vai ser vacinado daqui a largos meses. As pessoas mais velhas estão-se a desgastar, estão a ficar muito fragilizadas, até do ponto de vista psicológico, a decair fisicamente, por não terem uma vida em liberdade e por estarem isoladas. Os idosos com mais de 80 anos são a locomotiva desta pandemia e deviam ser priorizados.

E quanto às altas figuras do Estado? Já deviam ter sido vacinadas?
Não deve distinguir entre políticos e não políticos. Ou seja, a partir do momento em que se considera uma determinada faixa etária como de elevado risco, eu acho que essas pessoas devem ser vacinadas. Agora, dizer que as altas figuras do Estado ou todos os políticos têm de ser vacinados nesta altura, parece um ato de demagogia e de populismo e que se está a criar na classe política uma casta que está acima dos outros portugueses. E eu disse na reunião do Infarmed que cedo a minha vacina, eu que tenho 32 anos, a qualquer idoso com mais de 65 anos ou com mais de 80. Eu sou um jovem, acredito que estou em boas condições de saúde.

Acusou Assunção Cristas de disparar para todo o lado e de não ter bandeiras. Quais são as suas?
Já que estamos a falar da pandemia, uma das bandeiras é a via verde da saúde. Trata-se de permitir que todos aqueles doentes que excedem o tempo máximo de espera, no setor público, para uma consulta, um exame, uma cirurgia, tenham acesso ao exame, à consulta, à cirurgia no setor social e particular, pago pelo Estado. Este governo, com a sua cegueira ideológica, em concentrar a resposta à pandemia apenas no SNS levou à rutura e ao colapso. E é preciso dizer que o rei vai nu atualmente. Temos mais mortos do que nos últimos 70 anos, esgotamento das camas em unidades de cuidados intensivos, doentes amontoados nos corredores, milhões de exames, consultas e cirurgias em atraso. E ontem saiu uma notícia que dava nota de que até a atividade urgente e prioritária, como o tratamento de doentes oncológicos e cirurgias, está a ser adiada para concentrar no SNS apenas nos cuidados intensivos. O que se está a passar é verdadeiramente grave.

Ouvimos o primeiro-ministro dizer que tinha estado em negociações com setor privado. Já vai tarde?
Já vai tarde, claro. O governo insistiu apenas no SNS, que estava de mãos e pés atados e já não tinha mãos a medir para esta pandemia. E criou uma grande desigualdade social, as pessoas mais ricas podem escolher um tratamento médico no setor particular e os mais pobres estão a morrer. Estão a ser deixados para trás. E estas mortes têm uma responsabilidade política, porque só agora é que estamos a contratualizar exames e cirurgias. Ainda faltam as consultas, nomeadamente as consultas na especialidade. E, portanto, isto é uma situação gravíssima, que nunca poderia ter acontecido. Nós deveríamos ter aberto logo a resposta médica a toda a capacidade instalada e não conseguimos fazê-lo.

Outra bandeira?
São os nossos idosos. Verifico que 10% dos portugueses não têm dinheiro para comprar medicamentos, para aviar as suas receitas na farmácia. E a maioria destes 10% são idosos. E muitos deles são confrontados com uma escolha desumana de comprar alimentos e comprar medicamentos. Uma das prioridades do CDS é cuidar de quem cuidou de nós. Por isso nós propusemos a criação do vale-farmácia, que é um cartão que é apresentado na farmácia, que não necessita de reembolso porque é pago na hora e que, para todos os idosos com pensões mais baixas, paga na totalidade todos os seus medicamentos. E depois também não nos podemos esquecer dos mais jovens. Em Portugal tem de ser possível um jovem ter condições e oportunidade para cumprir o seu projeto de vida, para ter oportunidade de sucesso, igualdade de oportunidades independentemente da zona do país onde nasça. Pelo seu mérito, pelo seu trabalho, pelo seu esforço. Não podemos criar uma cultura de amiguismo e de compadrio em Portugal, em que apenas aqueles que têm um apelido que é conhecido ou são amigos de alguém, ou frequentam as cortes das cidades, é que conseguem ter um lugar ao sol.

Como é que isso se faz com políticas públicas?
Faz-se com políticas que incentivem à habitação jovem. Os jovens, sobretudo se viverem nas grandes áreas metropolitanas, nem sequer conseguem auferir um vencimento que lhes permita pagar as suas despesas, ter uma habitação condigna, para constituir família. Seria preciso baixar os impostos sobre o primeiro emprego, nem que seja baixar a retenção na fonte para quem vive a recibos verdes. Aumentar a fiscalização para o trabalho mais precário, nomeadamente na ACT, aquilo que chamam os falsos recibos verdes. Também criando um sistema de segurança social que garanta aos mais jovens que aquilo que estão a descontar hoje um dia também lhes vai servir para terem uma reforma. Creio que fazendo esta síntese entre os mais velhos e os mais jovens, e também mantendo um partido que é conservador, que respeita as nossas tradições, que é um partido patriota, mas um partido de direita decente e moderada, que se distingue das outras pela sua vocação e identificação com os valores também cristão do nosso país.

Tem acusado o governo de graves erros políticos. Que erros são esses?
Nós vivemos quase numa república em que o PS é o patrão, é o dono disto tudo. Há situações que são preocupantes. A substituição da procuradora-geral da República, conhecida por ser implacável, uma mulher de grande coragem no combate à corrupção. A nomeação do ex-ministro das Finanças para governador do Banco de Portugal. A mudança do presidente do Tribunal de Contas na véspera de recebermos os Fundos Europeus. Esta mudança quase total das regras de contratação pública que estimula a corrupção e o favorecimento a quem tem relações de proximidade com quem governa. Esta falsificação e as mentiras do governo para preterir uma procuradora que ganhou o concurso, uma mulher para colocar um amigo. Ninguém percebe como é que a ministra da Justiça ainda está em funções. Temos este caso do SEF, em que um cidadão à guarda do Estado português morre, e o ministro Eduardo Cabrita não conseguiu daí retirar nenhum tipo de consequência e ilações e teve declarações que envergonham qualquer país responsável e civilizado. Temos aqui quase um pântano socialista que está a retirar credibilidade ao nosso Estado de direito democrático e à transparência das instituições e tem colocado Portugal, até do ponto de vista competitividade do crescimento económico, na cauda da Europa.

A justiça também não sai muito bem na fotografia depois deste caso da investigação a jornalistas que estiveram a investigar o processo e-Toupeira?
Esse caso tem de ser avaliado com muito cuidado. Porque, de facto, nós somos todos defensores do Estado de direito democrático e da liberdade de imprensa, que têm de ser incontestadas e incontestáveis em Portugal. Mas eu quero acreditar que, nesse caso, tudo foi feito no quadro da legalidade. Se não foi é grave e tem de ser investigado.

O que é que seria para Portugal uma derrota na presidência da União Europeia?
Seria uma derrota se os apoios às nossas empresas, as micro e pequenas - são quase 99% do nosso tecido empresarial - não chegassem a tempo e horas e levassem a um colapso da nossa economia. Precisamos de não permitir que ninguém fique para trás nesta altura. Depois as instituições europeias devem preocupar-se com o combate à corrupção, porque a bazuca financeira são quantidades absurdas e pornográficas de dinheiro, que têm de ser aplicadas de acordo com os parâmetros que foram estabelecidos. É precisamente por isso. Quem é que investiga a aplicação destes fundos? A Procuradoria Europeia e Portugal deram um péssimo exemplo para os nossos congéneres internacionais e que manchou a honorabilidade do nosso país e também do nosso Estado de direito democrático. Quer dizer, quando se reconhece que houve mentiras, o falseamento do currículo do procurador, a ministra diz que não tem conhecimento, e depois é desmentida pelo diretor-geral da política de justiça, creio que é o próprio combate à corrupção na União Europeia que está em causa. O primeiro-ministro não demitiu a ministra da Justiça e colocou a sua assinatura nesta mancha na credibilidade do nosso país, que nos envergonha todos, e tornou-se cúmplice politicamente da atitude que foi tomada. O primeiro-ministro não pode ser um nadador-salvador que se atira ao pântano sempre que tem de salvar ministros que perderam legitimidade para ocupar as suas funções, porque de um pântano ninguém sai limpo. Nem o governo, nem os ministros, nem o nome de Portugal, que, ainda por cima, está na presidência da União Europeia. E há outro ponto que me parece também relevante, que é o que se está a passar no norte de Moçambique, onde tem havido verdadeiras chacinas. Conta-se movidas por rebeldes do Estado Islâmico que têm semeado horror e a tragédia e o massacre num país em que Portugal está umbilicalmente ligado. Eu creio que a União Europeia tem instrumentos ao nível da defesa.

"Todos os dias no Parlamento

a esquerda recebe votos do Chega"

Muita gente diz que a sua mensagem não está a chegar aos portugueses nem ao país. E as sondagens têm revelado maus resultados. Como contrariar isso?
Prefiro ter más sondagens e bons resultados eleitorais do que ótimas sondagens e péssimos resultados eleitorais. Eu creio que as lideranças se avaliam é por votos e urna, não é por estudos de opinião. Porque se eu fosse por estudos de opinião, eu tenho sondagens. Até tenho uma que me deu 0,3%. Tenho zero de 1, 2, 3, 4 e 5%. O CDS, sob a minha liderança, tem apresentado bons resultados eleitorais. Nas eleições de nível regional, nos Açores, o CDS é a terceira força política. Pela primeira vez na história está no governo da região autónoma. De resto, tivemos mais votos do que o Bloco de Esquerda e o PCP juntos. Na altura as sondagens também nos davam os tais 1% e tivemos quase seis. O CDS sempre teve más sondagens, é quase um desporto nacional, que é praticado por donos de empresas de sondagens, que é a modalidade do anúncio do funeral do CDS. O partido está a renovar-se, naturalmente herda circunstâncias que não são fáceis, do ponto de vista financeiro, da erosão da marca do partido, mas também com uma concorrência fortíssima à direita, como nunca houve. Creio que, às vezes, as pessoas quando criticam o CDS, esta liderança, não estão bem a ver o contexto em que nós estamos mergulhados. Agora vamos às autárquicas onde penso que o CDS também estará bem posicionado.

Se houver uma coligação com o PSD nas autárquicas, em Lisboa, como tudo aponta, o CDS exige ser o líder dessa coligação?
É a minha convicção que PSD e CDS juntos podem ganhar as eleições na Câmara de Lisboa. E isso passa por um diálogo estruturado entre os dois partidos, uma capacidade de gerar consensos. O CDS foi um partido que teve um resultado extraordinário há quatro anos. Estou em conversações com o presidente do PSD para que consigamos chegar a essa plataforma de entendimento. Há vários cenários em cima da mesa e vamos utilizar a estratégia que for mais adequada para derrotar o PS.

E a melhor para fazer isso era a Assunção Cristas?
A professora Assunção Cristas é sem dúvida um nome forte para concorrer à Câmara Municipal de Lisboa. Assim queira e tenha disponibilidade para assumir esse compromisso com o partido. É o que falta saber.

Nas restantes autarquias haverá algum outro nome ou outros nomes que o CDS já tenha apontado?
Na política o segredo é a alma do negócio. Uns passarão por listas próprias, outras com entendimentos à direita, com o PSD. E, claro, nós tentaremos escolher gente com perfil que possa ajudar o CDS a aumentar o número de autarcas eleitos no país - já são vastas centenas - em manter as suas câmaras municipais - que são seis - e em tentar, aqui ou ali, conseguir fazer uma gracinha e termos novas medalhas para adicionar ao espólio autárquico do nosso partido.

Se tiver um mau resultado, atira com a toalha ao chão?
Quando chegar a altura de medir o êxito do CDS nas eleições autárquicas tirarei as minhas próprias elações. Tenho 32 anos, um percurso profissional académico e na advocacia. Tenho currículo e tenho oportunidades de trabalho fora da política, e até acho que a política deve ser vista como uma missão e sinto que não quero ter uma vida exclusivamente dedicada à atividade política. Estou completamente solto e livre nessa cadeira. E no dia em que entender que estou a mais, ou que o meu contributo não é aquele que melhor serve os interesses do partido, serei o primeiro a interpretar essa necessidade de abandonar as minhas funções. Agora não é isso que eu sinto. Temos uma proposta muito clara para os portugueses, uma direita de futuro, moderada, inspirada nos valores da doutrina social da Igreja, que olha para os mais vulneráveis, para os jovens para terem oportunidades, para os mais idosos para que não fiquem para trás nem sejam excluídos. Uma economia global de mercado, mas patriota ao mesmo tempo, que defenda a nossa iniciativa privada e as nossas empresas. Uma direita também de responsabilidade, que luta pelas nossas Forças Armadas, forças de segurança com autoridade. Uma vez, uma pessoa me deu um conselho muito sábio: "Francisco, guarda os teus valores porque vais precisar deles mais à frente."

Queixou-se de "sabotagem interna", em outubro, e não escondeu algum desconforto com o próprio grupo parlamentar. Quem é que o anda a sabotar, os ex-portistas, os apoiantes de João Almeida?
Não há nenhuma intervenção minha pública minha que diga "estou a ser sabotado no partido". Não me queixo de ninguém no CDS. E todos os meus gestos públicos, desde que fui eleito, foram sempre no sentido de apelar à unidade e à coesão do CDS. Como aquela frase antiga de Abraham Lincoln, que dizia que "uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir". No CDS, se não se cerrar fileiras e não se tocar a rebate, teremos dificuldades em nos afirmarmos, porque todos somos importantes, e cada um dentro do CDS, aproveitando a janela mediática que tem, deve utilizá-la a favor do partido, para passar a sua mensagem, as propostas desta direção e do grupo parlamentar e não a criticar a direção. Porque há órgãos próprios para o fazer. E eu disse, no último Conselho Nacional, no início deste ano, que ia chamar algumas personalidades de outras sensibilidades do partido, embora minoritárias, pois acho que devem ser ouvidas pela direção do CDS. E, naturalmente, quero ouvi-las para perceber qual é a sua opinião, para as comprometer também com estratégia futura do partido, e também para perceber, já que estamos num ciclo de autárquicas, qual é que é a sua disponibilidade para representar o partido. No fundo vamos a votos e temos de contar com todos, nomeadamente com os nossos melhores. Estou empenhado em unir o CDS. E digo-lhe: se nós somos uma locomotiva em andamento, há aqueles que querem entrar no comboio e aqueles querem ficar na estação. Cada um escolhe de acordo com a sua liberdade. Agora, eu quero contar com todos e acho que o caminho é em frente. Devemos estar preparados para falar a uma só voz e não desgastar o partido publicamente em querelas e trincas, que, muitas delas, mais não têm que ver do que com o ego e o interesse pessoal.

Nos Açores, o CDS tentou integrar uma coligação governo com o PSD e o PPM, com o apoio do Chega no Parlamento regional. No continente isso será possível se a direita vier a conquistar o poder e a maioria?
Todos os dias na Assembleia da República a esquerda recebe votos do Chega. Na aprovação até de propostas de projetos de lei, projetos de resolução. O CDS não recusa um voto pela sua origem. Isto é, se os votos de qualquer partido que seja servirem para apoiar as propostas e as políticas do CDS, nós estamos disponíveis para os receber. Se o voto servir para aprovar a via verde da saúde, o vale-farmácia para os idosos, para criar apoios para a nossa economia - que não podem ser apoios de tostões, têm de ser apoios de milhões - para reforçar a testagem. A Dinamarca testa quatro vezes mais do que Portugal e tem seis milhões de habitantes. E cá nós continuamos a ter testes insuficientes e o governo diz: "Bem, há países que testam menos." Temos de nos comparar com aqueles que têm a situação pandémica controlada e testam suficientemente. E depois fazer rastreios. Estamos disponíveis para receber o apoio de qualquer partido que viabilize as propostas do CDS.
Mas uma coisa é aceitar os votos, outra coisa é, por exemplo, pôr a hipótese de poder o Chega, eventualmente, integrar um governo, se fosse caso de ser necessário para obter essa maioria.
Nos Açores não foi isso que aconteceu. O que temos é um governo da Aliança Democrática com o PSD e com o PPM. Tudo que se puder, através da incidência parlamentar viabilizar o programa do CDS, nós estamos confortáveis em receber apoio.

O Chega não é o maior perigo para o CDS?
Eu acho que o maior perigo para o CDS é a esquerda, a extrema-esquerda e o PS, que normalmente andam casados e se tornam cada vez mais indiferenciados um do outro. E é para aí que nós apontamos, criar uma alternativa de direita, que consiga tirar a esquerda do poder.

E a concorrência da Iniciativa Liberal? Não rouba eleitorado ao CDS?
O CDS tem muito mais concorrência do que tinha na história da nossa democracia. E não podemos ignorar esse facto. Mas o CDS tem de ser mais forte do que esses partidos. Apresentar propostas disruptivas, que cativem os portugueses. Mas também a afirmar-se por aquilo que sempre foi, um partido que tem quase 47 anos de história. Um partido de quadros, fundador da nossa democracia. Um lastro político na governação do país que esses partidos novos não apresentam. Nós não somos uma moda, somos uma instituição que tem raízes profundas na nossa sociedade. Temos de nos afirmar pelo mérito dos nossos protagonistas e pela qualidade das nossas propostas e não perder este perfil de partido baluarte da direita na nossa democracia. A concorrência, como na economia, acho que é sempre positiva, obriga a superarmo-nos, a vencer os nossos desafios, a sermos melhores, e, nesse sentido, é uma condicionante, mas temos de superá-la com o brilhantismo.

"Tínhamos a obrigação de estar ao lado do Presidente Marcelo, que conseguiu derrotar a esquerda com mais de 50% dos votos"

O CDS não deveria ter tido um candidato a Belém, para ter palco nestas eleições presidenciais?
A Assunção Cristas era líder do CDS e disse-o, em janeiro de 2019, em Braga, que o CDS ia apoiar Marcelo Rebelo de Sousa. Eu resgatei esse debate para o Conselho Nacional do CDS, que sempre disse que era o órgão institucionalmente competente para ter essa a deliberação. Mas eu acho que o CDS fez a escolha certa. Por várias razões. Todos os líderes do CDS apoiam Marcelo Rebelo de Sousa.

Fizeram uma declaração pública.
O CDS fez bem em apoiar Marcelo Rebelo de Sousa. Tínhamos a obrigação de estar ao lado do Presidente Marcelo, que conseguiu derrotar a esquerda com mais de 50% dos votos. Marcelo Rebelo de Sousa vetou mais diplomas ao PS , à Assembleia da República, à esquerda, num ano do que o ex-Presidente quase em dois. E eu lembro-me de votos particularmente importantes: das novas regras da contratação pública, da Lei de Bases da Saúde, da Lei da Nacionalidade, da Lei de Gestação de Substituição - chamadas barrigas de aluguer - enfim... da Lei de Mudança de Género. São temas todos caros ao CDS e o Presidente teve a coragem de os vetar. No Conselho Nacional do CDS houve um apoio de mais de dois terços, foram 81% dos votos expressos. Porque achamos que Marcelo é o único candidato que põe o interesse nacional acima do interesse partidário. Há muitos candidatos que se apresentam a estas eleições apenas para se alavancarem nas eleições presidenciais para promover os seus próprios partidos. Alguns eles querem mesmo destruir o CDS. Segundo ponto, é a proximidade com as pessoas. Foi o Presidente dos afetos, e nas alturas de maior crise criou laços afetivos tão fortes com o nosso povo que se afirmou quase como um pilar moral e afetivo da nossa nação. Um homem de proximidade, falar olhos nos olhos com os portugueses, terno, franco. Eu creio que isso foi o motivo de coesão muito importante. E o terceiro argumento é que eu acho que ele é um intérprete do essencial do programa humanista do CDS. Mesmo aqueles que criticam Marcelo não lhes passa pela cabeça eleger outro presidente. E aqueles que não entendem que, neste momento, dividir a direita é dar votos à esquerda.

Adolfo Mesquita Nunes veio dizer publicamente que só não foi candidato à Presidência porque a direção do CDS não quis.
Eu nunca ouvi o Adolfo dizer isso, disse isso no Conselho Nacional. Criou-se um mito que não corresponde à verdade. A candidatura do Adolfo Mesquita Nunes, hipotética, à Presidência República surge por quem? Pela Iniciativa Liberal. A Iniciativa Liberal avança o nome do Mesquita Nunes como sendo um possível candidato à Presidência da República. O Adolfo Mesquita Nunes nunca falou comigo sobre a sua disponibilidade para ser candidato à Assembleia da República. Isso nunca aconteceu.

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