O elogio da vacina

Quando o cientista inglês Edward Jenner criou no final do século XVIII a vacina contra a varíola, a primeira para lidar com uma doença contagiosa, a esperança média de vida na Grã-Bretanha era de menos de 40 anos, enquanto hoje ultrapassa os 80. Não se pode atribuir essa duplicação da longevidade exclusivamente às vacinas, e muitas seguiram-se à da varíola, mas pode afirmar-se que é em grande parte mérito da medicina moderna. Tem sido assim no mundo em geral.

Ora, com tantas provas dadas, a medicina moderna merece todo o respeito, sobretudo quando os argumentos contra a sua eficácia são vazios ou baseiam-se em teorias da conspiração. Houve certamente erros, até no campo das vacinas, mas errar é parte do progresso científico e o reconhecimento disso dá-lhe credibilidade, não o contrário. Por isso admito não perceber como hoje nos Estados Unidos ou na Europa, em países que lideram há séculos a investigação científica, surgem agora tantos negacionistas da covid-19, também tantos opositores da vacinação.

Em Portugal, pelo que vimos no sábado à noite junto de um centro de vacinação em Odivelas, também existe quem recuse a vacina como a mais provável via de saída desta pandemia que nos afeta há quase dois anos. Mas se fosse uma simples demonstração de opinião, de defesa de uma visão diferente das coisas, não teria a gravidade que assumiu com os insultos ao vice-almirante Gouveia e Melo, o rosto de um dos mais bem organizados programas públicos em Portugal de que temos memória. Um sucesso em termos de vacinação que nos coloca entre os mais avançados do mundo, o que se é reconfortante em termos de imagem do país, é sobretudo tranquilizador quando se pensa na urgência de retomar uma certa normalidade na vida quotidiana, seja porque a economia precisa, seja porque a nossa condição de animais sociais não se coaduna muito bem com confinamentos ou distanciamentos de 1,5 ou de dois metros.

A vacinação só funciona se for geral. Cada recusa individual torna mais complicada a desejada imunidade de grupo. Os 17 mil mortos em Portugal, e os mais de quatro milhões no mundo, deveriam jogar a favor da sensatez. Também o reconhecimento pela investigação científica e a cooperação internacional que permitiu obter vacinas em tempo recorde.

Deixa-me, porém, otimista que, no mesmo fim de semana em que se ouviram insultos inadmissíveis a quem tão bem tem servido a causa pública, os jovens tenham, em massa, mostrado que acreditam na vantagem da medicina e não alinham numa lógica de desconfiança da ciência.

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