No cais do Peso da Régua, os cruzeiros ali atracados nunca foram tão poucos e os tripulantes em tão pequeno

turismo

Em Trás-os-Montes, o país salva-se a si próprio

De Miranda do Douro ao Peso da Régua, nunca as ruas em agosto se encheram tanto da língua de Camões. Os portugueses confessam que Trás-os-Montes é o lugar onde se sentem seguros e salvam o comércio da região. Os comerciantes temem o que será feito desta região quando o verão terminar.

A banda sonora pouco ou nada se transforma nas vielas de Gimonde, em Bragança. O silêncio é imperador de dia e de noite, numa aldeia com apenas cerca de 300 habitantes - contam os censos de 2011. Ali reside o que restou de famílias que se constituíram na aldeia há anos e que, entretanto, desaguaram para zonas mais desenvolvidas do país ou do estrangeiro - estando tão perto da fronteira. "Às vezes, parece que o país se esquece de nós." No silêncio que se vai fundindo com o rasto do rio, também ele sereno, ouve-se um trautear baixinho, acompanhado de um crepitar repisado, quase imitando um movimento fabril. Tic-tic-tic, tic-tic-tic. O ruído ecoa pelas ruas de paralelos, ladeadas por casas de xisto. São as vagens de feijão-verde a serem partidas em duas nas mãos de Miquelina, 58 anos, desde sempre moradora nesta casa de varandim branco vertido sobre o rio.

O ar quente, a atingir os 40 graus Celsius, fazem-na procurar a sombra à sua porta. Senta-se num banco de pedra improvisado, prepara os calos das mãos, abre um saco de polipropileno velho e gasto, recheado de feijão-verde, pousado entre as suas pernas, vai dividindo a vagem uma a uma e lançando para a caixa de madeira que assentou ao seu lado. Um casal de portugueses trava o processo. "Boa tarde. Sabe dizer-nos onde fica este hotel? Temos lá marcação."

Miquelina descreve-nos uma aldeia "parada", quando comparada com os outros anos, em que "lá vai havendo um turista ou outro para merendar junto ao rio", mas lembra a chegada deste casal para contar um facto inédito neste agosto: "Há mais é portugueses", arremessa, como quem atiça um mistério. O silêncio que em agosto é invadido por línguas estrangeiras recebe, neste ano, um sotaque bem português. O fenómeno estende-se a toda a região de Trás-os-Montes.

Não há filas, nem multidões, o que torna difícil chegar à conclusão de que a zona está, afinal, bastante habitada de turistas no seu próprio país. Contam-no os comerciantes, responsáveis por hotéis e alojamentos rurais, bem como os residentes nestas vilas e aldeias. E garantem que é exatamente a ausência de filas e multidões que atraiu visitantes para aqui, remando contra a maré que atravessa grande parte das zonas habitualmente mais procuradas do país, desesperadas por turistas. Os dados comprovam-no: segundo a entidade de turismo Porto e Norte de Portugal, o Interior Norte do país atraiu 80% dos turistas, maioritariamente portugueses.

Trocar a praia pelo sossego

Numa altura em que se apregoa o distanciamento social, como uma das formas mais eficazes de combater a transmissão do vírus, já nem todos os que procuravam o Algarve em agosto o fazem. Querem isolamento, como as autoridades de saúde apelam. E sossego. Tudo o que estas terras, isoladas das metrópoles portuguesas, oferecem. São atualmente vistas como um oásis nacional, o destino seguro possível em tempos de pandemia, sem ter de abdicar das férias.

As fronteiras fechadas para muitos outros países também justificam, mas nem tantos espanhóis, com livre circulação para este país vizinho, têm visitado as terras portuguesas que habitualmente visitam no verão. Em Trás-os-Montes, nunca se ouviu tanto português. Troca-se o "hola" e o "bonjour" pelo "bom-dia" e sobrevive-se a um verão que parecia perdido.

Maria Cecília e Martim Gomes, casal de 54 e 59 anos, respetivamente, somam anos a viajar em direção ao Sul do país nas férias de verão. Com residência em Vila Nova de Gaia, a apenas cerca de 210 quilómetros de Bragança, foi a primeira vez que lhe admiraram o castelo que ergue lá no alto. Passeiam de olhar fascinado, comentando entre si o que veem, sempre de máscara pronta na mão, anunciando esta nova normalidade. "É a primeira vez que vimos cá", confessa Maria. Uma vez por outra, visitavam Mirandela, mas não passava disso - uma visita. "Desta vez, decidimos ficar por cá a fazer as nossas férias."

Martim sabe bem explicar o que os atraiu para a zona. Com menos população nas cidades e aldeias da região, "as pessoas não andam amontoadas e há mais cautela", justifica. Para si, não há dúvidas: "É mais seguro" estar em Trás-os-Montes do que rumar ao Sul, como habitualmente faziam.

Voltam a subir a calçada de pedra que rodeia aquele que é um dos mais importantes castelos portugueses, cruzando com a porta do restaurante de Luís Portugal. Não sabe se é das muralhas dentro das quais se insere o seu estabelecimento e que partilha com o castelo, como uma proteção invisível, ou se é sorte. O chef vive tempos mais risonhos do que os expectáveis. "Está a correr francamente bem", não teme em dizê-lo, mesmo consciente da turbulência que se sente no resto do país.

É tudo fruto do trabalho que desenvolveu durante o período em que foi obrigado, assim como toda a restauração nacional, a fechar portas. "Reinventei-me, criei um canal no YouTube e partilhava duas receitas por dia no Facebook. Tive médias de visualizações superiores a 170 mil todos os dias." Vai interrompendo a conversa para dar as boas-vindas a clientes ou indicações aos seus funcionários, provando a azáfama que se vive neste local. Tem trabalhado "de casa cheia", e, ao contrário do que seria de esperar numa altura tão frágil para a economia, em vez de despedir, Luís teve de contratar mais funcionários para dar vazão ao movimento no restaurante.

Uma casa cheia de portugueses, os quais Luís até estranha. "Nota-se que nos faltam alguns clientes vindos de fora", admite, principalmente belgas, passando por ali num roteiro gastronómico. Agora, é dos sotaques de norte a sul do país que se rodeiam as mesas da Tasca do Zé Tuga. Assim lhe chamou há seis anos, quando desistiu da vida de banqueiro pela cozinha, depois de se ter tornado finalista na edição de 2014 do MasterChef - para, em 2018, numa edição especial do programa, levar o primeiro prémio. A experiência fá-lo dizer com admiração: "Nunca tive tantos clientes portugueses, são aproximadamente 80% da minha clientela."

Miranda já não é dos espanhóis

Há lugares onde a linha que separa portugueses e estrangeiros nas ruas de agosto é ainda mais vincada. Apesar de estarmos em Portugal, "se entrar numa loja, de certeza que vai ser atendida em espanhol", conta Domingos João, que faz contas aos dias sentado no gabinete de informação turística no centro da cidade.

Há 18 anos que aqui se senta para dar respostas aos mapas virados do avesso ou impercetíveis para olhares de primeira viagem. Sabe de cor o que o espera em cada mês do ano: entre maio e julho, "franceses em autocaravanas"; entre julho e agosto, espanhóis. Portugueses não costumam fazer parte da equação neste concelho, que diz ser aquele "com mais capacidade hoteleira no distrito de Bragança".

A pandemia veio inverter o que as décadas de experiência lhe ensinaram. Desde logo, pelas poucas passadas que são dadas sobre as ruas neste verão. Se em junho de 2019 apresentaram-se neste posto mil turistas, neste ano foram apenas 40. Também em julho do ano passado somaram-se 1400 turistas, um número avultado em comparação com os apenas 435 registados neste ano, mas expectável relativamente aos desafios impostos pela pandemia de covid-19.

O que Domingos João não esperava era que fossem os cidadãos do seu próprio país a salvar o turismo da região. Dos 40 turistas que visitaram o posto em junho, 36 eram portugueses. Uma maioria que se estendeu ao mês de julho, em que apenas 120 dos 435 eram turistas estrangeiros. "Ninguém estava preparado para isto, mas as terras fronteiriças muito menos. Miranda vive para os espanhóis, por muito que não se queira admiti-lo." Avizinhavam-se tempos difíceis, mas são os portugueses que estão a aderir em massa às terras que os espanhóis deixaram esquecidas neste ano.

Todos os verbos são conjugados no pretérito perfeito. Miranda "teve", em tempos assim não tão longínquos, ruas repletas de espanhóis. Domingos João diz que chegam à procura do bacalhau fresco, "se calhar sem saber que o típico daqui é mesmo a posta mirandesa". Mas Inês Gonçalo lembra que não só o bacalhau faz o mote para a travessia da fronteira. Dona de um estabelecimento de venda de produtos tradicionais no centro da cidade, Inês, de 45 anos, ergueu o seu próprio negócio, motivada pelas necessidades dos espanhóis. "As pessoas vinham a Miranda e queriam comprar produtos típicos, mas não havia muita oferta, uma casa que reunisse todos os produtos da zona. Procurei trabalhar com os produtores daqui, para dar a conhecer o seu trabalho."

Fala-nos entre montras de frutos secos, frascos de mel das Arribas do Douro, vinhos, azeite e até sabonetes de leite de burra. Um forte odor a fumeiro mirandês, acompanhado da mistura de cheiros de diversos tipos de queijo, não deixa margem para dúvidas sobre o local onde estamos.

Se há unanimidade em Miranda, é na surpresa que este verão significou para todos, preparados para dominar a língua espanhola durante a maior parte dos dias e só recorrer à de Camões quando se fecham as portas da loja. Assim era a partir de abril. Inês conta que "70% do [seu] cliente era espanhol, além do turista holandês e francês". Por dia, "era capaz de receber mais de cem pessoas". Mas, tal como aos seus vizinhos comerciantes, "este ano trocou as voltas" e agora tem recebido uma média de 25 pessoas por dia.

"Não fossem os portugueses", talvez as suas portas não tivessem voltado a abrir. "Estão a salvar algum negócio da região, são uma tábua de salvação", desabafa. Há uns dias, lembra, tinha recebido "três casais que nunca tinham vindo a Miranda do Douro, estavam encantados com as paisagens e satisfeitos por não haver muita confusão, mas muita oferta". Inês Gonçalo está certa de que, neste ano, "os portugueses estão a fazer outro tipo de férias", mais distantes da praia.

E basta para assegurar o negócio? É perentória: "Não, mas já me mentalizei para isso: neste ano, é para manter, não para ganhar dinheiro. A ver se conseguimos resistir".

E depois do verão?

Percorrida uma margem de Trás-os-Montes, uma conclusão certeira: são os turistas portugueses que têm assegurado a sobrevivência de várias casas de comércio, depois de se decidirem por umas férias mais a norte do país. Mas os comerciantes, diretores de hotéis e residentes continuam a lamentar a falta de estrangeiros. Resistem, mas não vivem como antes, e o que se segue ao verão pode acabar com a redoma em que estão inseridos.

"É uma espécie de bolha", diz o diretor-geral do hotel Vidago Palace, Jorge Almeida. É um dos hotéis mais conhecidos da região e uma marca forte a nível nacional, devido à imponência das suas instalações, projetadas pelo rei D. Carlos I, com objetivo de ali, em Vidago, criar uma estância terapêutica de luxo de visibilidade internacional. Foi oficialmente inaugurado no mesmo ano em que se instaurou a Primeira República Portuguesa, a 6 de outubro de 1910. Resistiu até aos dias de hoje como um alojamento de luxo, contornado por um imenso parque verde que é frequentemente visitado por curiosos alheios ao palácio que ali existe.

A história e a calmaria que se projetam neste espaço não deixaram indiferente a mancha de portugueses que rumaram a Trás-os-Montes para as suas férias. Nos primeiros 15 dias da abertura, já se fazia denotar um fenómeno: "Com apenas alguns estrangeiros, residentes em Portugal, os nossos clientes foram maioritariamente portugueses, clientes fiéis e clientes novos, de tudo." E explica: "Depois de três meses fechados em casa, os portugueses quiseram espairecer, mas em segurança." Por isso, procuram sobretudo a unidade de Pedras Salgadas, parte do grupo que dirige e ao qual pertence o Vidago Palace. "Nesta unidade, sentimos uma explosão. Vamos ter o melhor agosto de sempre no Pedras Salgadas", admite.

Os números mostram sucesso na batalha que grande parte do país trava contra a pandemia, mas não são estanques, alerta Jorge Almeida. "Estou bastante preocupado com o que virá depois do verão", porque se até meados de setembro os portugueses vão tornando o Norte mais apetecível e vendido, o que resta do ano terá de depender de estrangeiros, e "grande parte deles ainda não podem vir para Portugal".

Qualquer que seja o segmento de turistas que um negócio tenha como alvo, a perceção é a mesma: quando o sol quente de agosto pousar, o que resta pode não ser suficiente para fazer resistir alguns comerciantes. A alguns quilómetros de Vidago, em direção à região sul de Trás-os-Montes, o sol esquenta a zona ribeirinha do Peso da Régua. Não fosse o ditado de que nesta terra servem-se "nove meses de inverno e três de inferno". Nas ruas, vende-se garrafas de água, como se tratasse do negócio das galinhas dos ovos de ouro, e chapéus.

Estamos à margem do rio, onde em breve irá desembarcar um cruzeiro rumo a Barca D'Água. Inclinado sobre a proa da embarcação, um marinheiro de camisa branca repleta de emblemas, calças azuis e óculos de sol eleva a mão à testa para avistar o que vem ao fundo. "São poucos", conclui e transmite aos colegas, ao verificar quantas pessoas saem das camionetas que chegaram de Santa Maria da Feira com os tripulantes da viagem pelo rio. São duas camionetas, mas em tempos "nem havia espaço para estarem aqui todas estacionadas", comenta Valdemar Barraca, motorista de uma das camionetas. Também os cruzeiros "já foram mais". Parece falar de um tempo distante, mas não foi há mais de cinco meses.

Há um tipo de turista português antes e depois da pandemia. Se antes as camionetas iam cheias do chamado "turista de cesto e garrafa", apetrechado com a marmita para o dia, agora é um turista "mais descontraído". "Eles vêm porque estão fartos de estar em casa", são maioritariamente idosos e muitos, garante Valdemar, "vêm contra a vontade dos próprios filhos, que preferem que eles fiquem resguardados em casa".

Ao lado, Sebastião Oliveira, motorista da segunda camioneta que ali estacionou com os tripulantes do cruzeiro, abanava a cabeça e olhava fixamente o chão em jeito de agonia. "Isto está muito mau." Mau até para a família que ali se posicionou estrategicamente para ir vendendo uns chapéus antes de todos entrarem no cruzeiro. "Ui!, noutra altura não tínhamos como chegar a todos, mas iam mais chapéus", conta uma das vendedoras, que preferiu manter-se anónima. O sol aquece a cidade, mas não há cabeças suficientes para comprar o que o cobre.

Na estação do Peso da Régua, o movimento também já foi outro. Que o diga Maria, de 76 anos, que todos os dias marca presença sentada junto à porta principal da estação. "É o rebuçado, é o rebuçado", cantareja, de bata branca, cesto de vime pendurado ao pescoço e de mão ao alto a agarrar uma saca de plástico.

Lá dentro, guarda rebuçados de mel que ela própria confeciona em sua casa há 40 anos. E há 40 anos também que os vende neste mesmo local, conta-nos. Lembra os dias em que nem havia espaço para pensar em cantarolar para vender, com o corrupio que se sentia nesta estação, de onde saem e entram tantos turistas, vindos do comboio histórico do Douro. "É uma tristeza isto que vemos", suspira. Fixa o olhar ao fundo da paisagem que se ergue à sua frente, onde o rio flui, volta a suspirar e repete a cantoria.

Mais Notícias