Famílias enfrentam pandemia com almofada financeira mais baixa de uma década

Ao longo do último ano, particulares salvaram em termos líquidos apenas o equivalente a 1,61% do PIB, pouco mais de 3,4 mil milhões de euros.

As famílias portuguesas vão enfrentar a pandemia do novo coronavírus, e a recessão que dela se antecipa, depois de terem construído ao longo do último ano a mais curta almofada financeira numa década.

De acordo com os últimos dados das contas financeiras nacionais, conhecidos na última semana, os particulares em Portugal só conseguiram ao longo do último ano acrescentar ao seu património financeiro, em termos líquidos, mais 3,4 mil milhões de euros. O equivalente a 1,6% do PIB nacional.

A tendência de redução tem sido uma constante, mas no final de 2019 bateu no fundo, para ficar ao nível mais baixo de uma década, quando se tem em conta os valores para o ano acabado no trimestre final. Só no final de 2008, ano que marcava o início da última crise global e que havia de precipitar Portugal e outros países europeus numa crise da dívida soberana, se registou uma poupança financeira menor por parte das famílias portuguesas. Nesse ano, os particulares conseguiram colocar a render, em termos líquidos, pouco mais de 371 milhões de euros: apenas duas décimas do PIB.

Os dados do Banco de Portugal são para a poupança financeira líquida (limpa de dívida) e têm em conta o último trimestre de 2019. Nesse período, a diferença entre rendimento e consumo das famílias, o chamado aforro, atingia 7,2%, com o pé-de-meia nacional a pesar pouco mais de metade daquele que se verifica na média da área do euro.

O peso do rendimento livre das famílias portuguesas representava então apenas pouco mais de metade da taxa de poupança média de 13% no conjunto da moeda única, nos dados mais recentes do Eurostat que ainda não comparam a média do ano (Portugal terminou com uma taxa de poupança de 6,7%).

A situação portuguesa tem um forte contraste com a que se regista no coletivo do euro, onde países como Alemanha, Holanda, Áustria e Suécia empurram, e bastante, a média das poupanças para cima. As famílias alemãs e suecas poupavam no trimestre de final do ano praticamente 19% dos rendimentos, as holandesas cerca de 16%, e as austríacas 14,5%, entre os países com dados já reunidos para o termo do último ano.

Em contraste, Polónia, Reino Unido, Finlândia, Portugal e Espanha estão entre aqueles onde as famílias têm guardado menos dos seus rendimentos, que ficarão disponíveis para investir ou, no caso que se espera na atual pandemia, acudir a uma perda de rendimentos significativa. As famílias italianas, por seu turno, têm vindo a poupar cerca de 10% dos rendimentos, embora não haja registo ainda dos dados de final de 2019.

Do rendimento livre das famílias portuguesas, grande parte continua a ficar em numerário e depósitos à guarda dos bancos, sem remuneração significativa mas mais acessível a resgate em situações de emergência. Nos últimos dados do Banco de Portugal, era aí que estavam 44% das poupanças acumuladas pelos portugueses ao longo dos anos - mais de 193 mil milhões de euros. Outros 30%, ou quase 129 mil milhões, estavam aplicados em ações e participações em fundos de investimento.

Já seguros, pensões e outros direitos valem 17% da carteira de ativos brutos dos particulares, com pouco mais de 74 mil milhões aplicados. É nesta rubrica que se incluem os PPR cujo resgate foi facilitado na resposta à crise, permitindo a quem esteja em desemprego ou lay-off retirar sem penalizações um máximo de 438,81 euros por mês das aplicações.

Já os títulos de dívida são cada vez menos representativos da poupança aplicada pelas famílias, ainda que os certificados de aforro se mantenham como uma das opções relativamente mais generosas num contexto de taxas de juro persistentemente baixas. Valiam 2% da carteira de investimentos acumulada das famílias, num valor que no final de 2019 não ia além dos 10,4 mil milhões de euros.

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