Wolverhampton. O café lá de casa dos jogadores portugueses vai fechar

Café de uma portuense serve de sala de jantar privada, plataforma de encomenda de bens da saudade, ombro amigo. Lobo que é lobo vai lá comer um bolinho. Exceto o treinador Nuno Espírito Santo, o ídolo maior dos adeptos que entopem o Aromas de Portugal, mas que tem de se despachar: a dona quer voltar à pátria e o estabelecimento está à venda.

O Aromas de Portugal é uma lança na Velha Albion. Assim, batizado em português, há um café "a cinco/sete minutos" do Estádio Molineaux, em Wolverhampton, onde uma dúzia de portugueses que tem feito furor na Premier League mata saudades da pátria (aliás, é por isso que o estabelecimento corre o risco de fechar portas). Rui Patrício, Rúben Vinagre, Rúben Neves, João Moutinho, Jota, Hélder Costa e Ivan Cavaleiro (jogadores dos Wolves); Rui Pedro Silva (adjunto); João Lapa (recuperador físico); António Dias (preparador físico), da equipa técnica do 8.º classificado da I Liga inglesa passam por lá semanalmente. Nuno, o chefe da equipa, tem de se apressar. Ou pode já não encontrar a segunda casa dos portugueses da moda no futebol inglês.

"Tem vindo a crescer, a população portuguesa de há dois anos para cá, em Wolverhampton", conta ao DN a proprietária, Mónica Ferreira, 37 anos celebrados nesta sexta-feira. "Sou a única portuguesa com um negócio cá", explica a portuense, morta de saudades de casa. "Vim há oito anos para Inglaterra. Primeiro fomos para Londres, durante dois anos e meio, depois a empresa do meu namorado realojou-se aqui, em Wolverhampton, perto de Birmingham (são 30 minutos de metro)", enquadra Mónica, a responsável pelas relações públicas, pelo atendimento, pela confeção da pastelaria portuguesa à venda no café. Por fazer jantares por encomenda para os profissionais do Wolverhampton. Por ser uma extensão do próprio clube. "O diretor de comunicação marca as entrevistas aqui, no café. Eu não me importo, é publicidade ao café", ri-se.
E se há entrevistas, ou interesse em obtê-las. "Ligou-me um dia destes a dizer que já tem entrevistas marcadas até fevereiro de 2019", relata. O problema é que, provavelmente, terão de ser feitas "no estádio, ou noutro local".

Sexismo encapotado

"Trabalhava em lojas de shopping. Viemos para Londres porque achámos que era altura de mudar", diz novamente no plural. Mónica vive com o namorado, é tudo no plural - ela muda de cidade por ele, ele trabalha fora de horas no café por ela. Por eles. "Viemos um ano antes do Passos Coelho nos mandar sair do país. Viemos sem nada, nem onde ficar nem trabalho. Arranjámos um quarto para dormir às dez da noite. Mil euros deram 800 libras e esse dinheiro durou duas semanas", rememora.

"O meu namorado conseguiu logo trabalho. Eu estive à espera três meses. Não há sexismo? Há algum sexismo encapotado", revela. "Mas admito que por o trabalho ser mais pesado é compreensível que apareçam mais oportunidades para os homens", concede.

No entanto, apesar de ser um dos cafés mais conhecidos de Wolverhampton, por causa da famosa clientela do mundo da bola, o Aromas de Portugal vai acabar como foi no último ano, tempo em que Mónica o dirigiu. "Há oito anos que não passo o Natal com a família e esta saída da União Europeia não ajuda nada. Os preços subiram muito nos bens do dia-a-dia, no supermercado. Pagamos 495 libras [585,76 euros] mensais pela casa e agora não se encontra nenhuma por menos de 650 libras [769,2 euros]. E as casas são pequeníssimas", queixa-se. "Já pus o café à venda por um valor baixinho para ver se lhe pegam. Se não aparecer ninguém, tenho de arranjar uma solução. Mas conto passar o Natal no Porto", anuncia.

Os craques na era industrial

Os treinadores e jogadores portugueses (7), e os ingleses (8), espanhóis (2), o francês (Bolly, ex-FC Porto), o irlandês, o belga, o mexicano (Jiménez, emprestado pelo Benfica) e o brasileiro (Bonatini, ex-Estoril), do Wolverhampton, têm-se saído muito bem por estas bandas. No último mês (setembro) conquistaram dez dos doze pontos possíveis (apenas um empate, em Old Trafford, frente ao desorientado Manchester United de José Mourinho) e dez dos quinze pontos que colocam a equipa a três pontos do 4.º (Arsenal) e do 5.º (Tottenham). Um setembro de grande rendimento valeu a Nuno Espírito Santo o prémio de melhor treinador do mês da Premier League. Nada mau para um clube que já foi campeão três vezes, mas quase na era industrial (1954, 1958 e 1959), e que, na era Premier League (desde 1992/1993), apenas tem cinco presenças entre os maiores (e um 15.º lugar para mostrar).

Wolverhampton fica na região das West Midlands, no coração de Inglaterra. Fazem parte de outra região conhecida por Black Country. O nome vem do fumo que saía abundantemente das chaminés omnipresentes da Revolução Industrial, que atingiu esta zona como nenhuma outra do Reino Unido. A estrada de 23 quilómetros entre Wolverhampton e Birmingham (segunda maior cidade inglesa) era descrita, em 1785, como "uma cidade contínua". Indústrias de carvão, aço, ferro, tijolo, vidro. Fumo negro tomava conta dos céus, dos topos das casas, das vestes e ar que suportavam os habitantes locais.

Clientes especiais

"Já tive aqui alguns jogadores ingleses, mas os portugueses vêm quase todas as semanas", conta. O café é português, os bolos são portugueses - "sou eu que confeciono a pastelaria toda" -, a companhia é portuguesa. "De vez em quando, faço uns jantares só com os portugueses, por encomenda deles", revela. Rui Patrício, Rúben Vinagre, Rúben Neves, João Moutinho, Jota, Hélder Costa e Ivan Cavaleiro; Rui Pedro Silva, João Lapa e António Dias devem regalar-se.

"Sim, mas também já esteve cá o plantel todo", diz, confirmando a impressão que têm aqueles que acompanham o clube, como jornalistas. "Quando falo com eles, os jogadores pintam o quadro de um clube alegre, com bom ambiente no balneário e em que os portugueses e os ingleses se entendem muito bem. Todos com muito respeito pelo Nuno", conta ao DN Stuart James, que cobre o futebol das Midlands para o prestigiado The Guardian desde 2005.

Curiosamente, "Nuno é o único que ainda não foi ao café". "Aproveito para acabar com esse mito", ri-se Mónica. "O Patrício e o Moutinho [que chegaram no verão] vieram cá na quarta-feira [3 de outubro]", precisa a dona do Aromas de Portugal.

Talvez tenha que ver com a sofreguidão dos adeptos. "Quando faço jantares para os jogadores, tenho de fechar a porta, se não eles nem conseguem comer. Estão sempre a entrar pessoas para pedir autógrafos e fotografias com eles, é impressionante", explica.

Provavelmente, isso justificará a discrição de Nuno Espírito Santo. O treinador é idolatrado em Wolverhampton, com muitas casas da região a ostentarem orgulhosamente a bandeira portuguesa com a cara do técnico estampada. Já os outros não vão lá só pela distração, aproximação a casa, identificação. "Alguns deles pedem-me coisas de Portugal e eu trato de as mandar vir para eles", diz Mónica Ferreira, apesar da discrição que tenta manter: "Eles vivem todos perto uns dos outros, numa zona mais tranquila da cidade. Não sei se devo dizer onde..."

E que coisas lhe pedem os jogadores? "Diversas", abrevia. Vai uma aposta? "Bacalhau?", pergunta-lhe o DN. "Sim, entre outras coisas." OK. "Coisas para matar as saudades? Sim, essencialmente isso."

Jogadores que "estão todos arrumados", como, pouco subtilmente, mas com graça, diz a dona do café. "É como se fossem casados. Uns são mesmo, os outros vivem cá com as namoradas. O Hélder Costa foi pai há pouco, o Vinagre e o Jota têm as namoradas aqui, mas ainda não são pais", revela no jeito de quem fala de amigos - e parece ser o caso, como veremos.

"Fiz o bolo de aniversário do Ivan Cavaleiro no ano passado", diz, de regresso à pastelaria, que orgulhosamente confeciona. "Só não faço os pastéis de nata", e volta a rir-se.

O brexit e a fuga aos preços altos

Portanto, estes ilustres clientes tornaram-se parte da casa, que é a segunda casa deles. E até o clube a institucionalizou como extensão dos Wolves. "Já fizeram cinco entrevistas aqui. O Guardian, a BBC, já não me lembro dos outros. Houve até uma entrevista para um jornal português, com mais do que um jogador, mas não me lembro qual era", prossegue. "Até da China vêm fazer aqui uma entrevista em breve. Ainda não sei em que dia, mas é neste mês", adianta.

O reboliço do Aromas de Portugal contrasta com uma cidade esvaziada pelo fim da era industrial, mas que parece querer inverter o processo de desertificação. Para uma zona que foi o epicentro da Revolução Industrial, ter cerca de 250 mil habitantes num país de cerca de 54 milhões é uma migalha (números cedidos ao DN pelo Office for National Statistics - ONS, órgão governamental para as estatísticas do Reino Unido, baseadas nos censos de 2011). "Está muita gente a fugir do centro das grandes cidades, como Birmingham. Os preços são incomportáveis", garante Mónica. "E também me apercebo de que há mais portugueses. Quando cheguei, éramos uns 50/60. Agora devemos ser uns 500", estima. Segundo os mesmos dados do NOS, em 2011 havia em Wolverhampton 132 habitantes registados nascidos em Portugal. Seria um crescimento espantoso, sobretudo porque a região já não oferece o que oferecia na era industrial. E não é propriamente convidativa.

"É uma cidade mais industrial, mas tem vindo a desenvolver-se. Aqui, é mais fábricas, casas. Não há centros comerciais muito grandes", reclama. "As lojas fecham todas às 16h00. Depois, abertos só pubs e restaurantes. Mas às 23h00 já não se janta nesta cidade", remata.
Regressemos aos mais do que simples clientes, e não apenas porque são famosos. "Dou-me muito bem com alguns. Souberam que eu ia embora e deram-me um bilhete para o jogo de 3 de novembro. Nem sei contra quem é, não percebo nada de futebol. Quando os vi, nem sabia que eram jogadores de futebol, foi o meu namorado que os reconheceu", explica.

Um Wolves-Tottenham para a despedida

Mónica Ferreira é a amiga portuguesa que os portugueses do Wolverhampton vão perder em breve. Mas no dia 3, às 19.45, no Molineaux, casa dos Wolves, podem dar-lhe um presente. O jogo é frente ao poderoso Tottenham, que em 1972 bateu o clube das Midlands na única final europeia que disputou. Foi na decisão da Taça UEFA, que na altura se disputava a duas mãos. Os Wolves começaram a caminhada frente à Académica, na primeira eliminatória, então chamada de primeira fase: Wolverhampton Wanderers 7-1 Académica de Coimbra (3-0/4-1).

A desilusão chegou a 3 de maio, no ancestral Estádio Molineaux - o primeiro construído, em 1889, por um clube exclusivamente para jogos de futebol e que recebeu os primeiros encontros europeus na dourada década de 50 (os três títulos de campeão de Inglaterra).

A glória futebolística em Wolverhampton é uma comprida memória. A última Taça de Inglaterra foi conquistada há quase 60 anos - 1960, com três triunfos anteriores: 1893, 1908 e 1949. A mais curta, além dos títulos nas divisões secundárias (como o conquistado pela equipa de Nuno o ano passado, que valeu a subida à Premier League), provém da Taça da Liga. Dois triunfos ainda assim distantes: 1974 e 1980.

Agora, a cidade rejubila com os golos fantásticos de Rúben Neves, a classe e experiência de Patrício e João Moutinho, a destreza de Jota, Hélder Costa e Ivan Cavaleiro ou o potencial do jovem Rúben Vinagre. Mas é em Nuno que depositam a idolatria e a esperança. Mesmo que seja, provavelmente, o único Wolf (lobo) que nunca pôs os pés no Aromas de Portugal.

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