Carlos e Vânia, os beirões que se cruzaram na GNR para encontrar a morte na A1

Carlos Pereira e Vânia Martins nasceram no mesmo distrito de Castelo Branco. Ele no Fundão, ela em Proença-a-Nova. Vestiam a mesma farda, da GNR. E morreram ao serviço da segurança dos outros.

Os amigos chamavam-lhe Cajó, mas as notícias falam sempre de Carlos Pereira. No cartão de cidadão e nos registos da GNR figura o nome de Carlos Joel Torres Pereira, o militar do destacamento territorial de Santarém que morreu, há uma semana, vítima de um acidente na A1. Tinha apenas 27 anos. Em setembro ia ser pai de uma menina. Mas um BMW em excesso de velocidade trocou as voltas ao destino do jovem guarda.

Ao final da manhã daquela terça-feira, 7 de julho, acompanhado da cabo Vânia Martins, o carro-patrulha em que seguiam estava parado a sinalizar as obras na A1, ao km 85, entre o nó de Torres Novas e a Área de Serviço de Santarém. A viatura do Destacamento de Trânsito de Santarém foi violentamente abalroada. Carlos não resistiu aos ferimentos e viria a falecer no dia seguinte. Vânia sobreviveu por mais uns dias: acabou por ser transferida de Santarém para o Hospital de São José, onde há vários dias permanecia em morte cerebral. A meio da tarde de segunda-feira, 13 de julho, a GNR confirmou o falecimento da cabo: "A Guarda Nacional Republicana está de luto. As nossas sentidas condolências e apoio à família e amigos da nossa militar do Destacamento de Trânsito de Santarém, que faleceu hoje, vítima do trágico acidente ocorrido no passado dia 7 de julho, no cumprimento da missão, zelando pela segurança dos cidadãos".

Duas vidas, um destino

Dois dias antes, as redes sociais da GNR encheram-se de dor e comoção, perante as imagens das cerimónias fúnebres do guarda Carlos Pereira. Mais de duas mil pessoas partilharam as quatro fotografias que contam o capítulo final de uma história que deveria ter tido um final feliz. Numa delas, a companheira de Carlos, Raquel Mingote, grávida de sete meses, segura a bandeira de Portugal nas mãos. De olhar vazio, despede-se, junto ao caixão, antes de enterrar ali os sonhos. Também ela é filha de um guarda da GNR. Quando Carlos chegou à Guarda, brincava com o superior: "ainda hei de ser teu genro", conta o colega e amigo André Duarte, numa mensagem de despedida.

No destacamento de Santarém têm sido dias difíceis para as militares da GNR. Um dos graduados com quem o DN falou esta terça-feira confirma-o, e remete para o comando nacional qualquer informação que se prenda com os dois camaradas. Mas lá também não está fácil. Os dois guardas eram demasiado jovens, demasiado entusiasmado com a ideia de servir, como todos os heróis.

Antes do km 85 na A1, os destinos de Carlos e Vânia cruzaram-se no destacamento de trânsito de Santarém. Mas já antes estavam irremediavelmente ligados, pois que ambos nasceram na região da Cova da Beira: ela na aldeia de Moita do Santo, Proença-a-Nova, ele na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão.

Consternação na Moita e em Castelo Branco

Na Moita, desde há uma semana que o ambiente é de consternação. Embora a soubessem viva - ligada às máquinas -, os vizinhos e família adivinhavam um desfecho como o de ontem, quando o hospital confirmou a morte. Mas na aldeia será sempre lembrada como "a menina que desde sempre quis ir para a guarda", o que só viria a acontecer em 2013, tinha ela 24 anos de idade. Antes, trabalhara como operária fabril, numa indústria de componentes para automóveis, em Castelo Branco. Era esse o ponto que ligava os dois militares: o mesmo distrito. E foi essa a cidade que Vânia escolheu para viver. Morava sozinha num apartamento, onde regressava nas folgas, pelo menos dois dias por semana. Nessas alturas era presença assídua no café Hás de Cá Vir, no prédio ao lado. O proprietário, João Perquilhas, está ainda incrédulo com esta partida do destino, tal como contou ao DN.

"A frase que vou guardar para sempre é esta: "vizinho João, é uma nata para dois"". E dividia com ele um pastel de nata, enquanto falavam das agruras da vida lá fora, e do brio com que envergava a farda da GNR. Dois dias antes do acidente, na última folga, Vânia despediu-se dos convivas com um "até para a semana". Mas não voltou à rua Francisco José Palmeiro.

Fonte da GNR revelou que o corpo deverá ser liberado durante o dia de amanhã, quarta-feira, prevendo-se que as cerimónias fúnebres se realizem no dia seguinte.

Cada um destes guardas deixa amigos e família em estado de luto. Numa das últimas imagens públicas que Vânia partilhou no seu perfil de Facebook, lá estava a estrada e a GNR, os dois pratos da sua balança de vida. Na foto, datada de 18 de março, dia em que o governo decretou o Estado de Emergência, um colega aponta para o placard de informação na auto-estrada: "covid-19. Fique em casa". De resto, a página de Vânia nessa rede social é dominada por publicações recentes alusivas à pandemia. "Stay home", a mensagem que encabeça a publicidade a uma marca de gin: "Angel, gin from heaven". Colegas e amigos acreditam que agora é um anjo. No paraíso, como diz o anúncio.

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