Trump ganha tempo até às eleições com acordo comercial parcial com a China

As importações chinesas dos Estados Unidos caíram mais de 20% em 2019 devido às tarifas adicionais. Especialista acredita que Washington tem mais a perder.

Os Estados Unidos e a China assinam hoje, quarta-feira, um acordo designado de "Fase Um" que põe fim (assim se espera) a quase dois anos de guerra comercial iniciada por Donald Trump em março de 2018 quando impôs tarifas adicionais aos produtos chineses.

Desde então, entre avanços e recuos, seguiram-se negociações que duraram vários meses e que devem culminar com a assinatura da primeira parte de um acordo de que ainda se conhecem poucos detalhes. A China compromete-se a comprar cerca de 178 mil milhões de euros em exportações norte-americanas nos próximos dois anos. Deste bolo, 72 mil milhões de euros em produtos manufaturados, 47,6 mil milhões de euros em produtos e serviços energéticos e 30 mil milhões em produtos agrícolas.

Para assegurar o acordo das autoridades de Pequim, Washington também teve de ceder. Trump suspendeu uma nova vaga de tarifas em dezembro no valor de 145 mil milhões de euros e aceitou cortar pela metade a taxa de 15% sobre as importações no valor de 99 mil milhões de euros adicionais.

"Donald Trump avançou com as tarifas como forma de trazer de volta a indústria aos EUA. Já passaram dois anos e estão a acontecer várias coisas: não só a indústria norte-americana não recuperou como os empregos criados não são na indústria, mas sim na economia do conhecimento", assinala Paulo Soares Pinho, professor de Economia da Nova Business School of Economics, acrescentando que "a barreira comercial transforma-se numa óbvia perda de poder de compra da população americana". E isso pode causar mossa no eleitorado que apoiou Trump em 2016.

Quando os dois países assinarem esta primeira fase com toda a pompa e circunstância esperada nestas ocasiões, o presidente dos EUA dirá que se trata de uma vitória para a sua administração, mas para Soares Pinho é apenas uma estratégia com vista às eleições de 2021. "Neste momento ele [Trump] não tem outra solução. Antes de as eleições isto tem de estar resolvido", indica o professor da Nova SBE.

O impulso versus a paciência

Os sinais que chegam dos EUA apontam para um aliviar das tensões com a China. Ainda nesta semana, em vésperas da assinatura do acordo, Washington decidiu retirar a China dos países considerados "manipuladores de divisas".

Apesar desta pausa nas hostilidades comerciais, nada é dado como certo no futuro próximo. "Trump é uma personagem impulsiva e com pouca visão de longo prazo", sublinha Paulo Soares Pinho, lembrando que "do outro lado estão personagens com uma enorme capacidade de planear a longo prazo e, portanto, vale a pena pensar que os chineses são, provavelmente, dos dois lados, aqueles que têm uma estratégia negocial mais pensada e mais calculada. A China percebe que, na melhor das hipóteses, Trump dura cinco anos", remata este professor de Economia. E reconhece que, em "termos negociais, a China aguenta perfeitamente cinco anos de guerra comercial com os EUA. O contrário já não acontece e os EUA não aguentam os próximos 12 meses".

No imediato, pouco mudará em termos de apetite dos investidores para lançarem mão a novos negócios. "O Sr. Trump é a maior fonte possível de incerteza e de perturbação que podemos ter. Portanto, estou convencido de que isto traz algum alívio temporário, até alguns benefícios temporários para a economia americana, mas não esperaria que isso se traduzisse numa inversão da tendência de pessimismo e incerteza que estamos a viver", antecipa o professor da Nova SBE.

Paulo Ribeiro Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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