O valor das palavras

Foi uma das grandes estreias de 2020 nas salas portuguesas, ainda antes da situação de pandemia: com J"Accuse - O Oficial e o Espião, agora editado em DVD, Roman Polanski revisita o caso Dreyfus e a sua perturbante atualidade simbólica.

Tempos houve em que, socialmente, alguns filmes possuíam a capacidade de suscitar genuínos fenómenos de troca de perspetivas. Não falo necessariamente de "debates", muito menos de "polémicas". Recordo o simples facto de um objeto de cinema poder ser motor de uma multiplicação de ideias que, de facto, nos ajudava ou podia ajudar a diversificar e alargar a visão do mundo à nossa volta.

Hoje em dia, prevalecem regras não escritas (nem assumidas por ninguém) que fazem com que uma grande produção de um estúdio americano, sobretudo se envolver super-heróis ou aventuras intergalácticas, triunfe facilmente nesse território em que nada se pensa, nem nada parece pensável - basta que em volta se produza uma agitação que, na sua distração ou ingenuidade, se limite a ecoar as linhas de força que o marketing estipulou para esse mesmo filme.

O terreno é escorregadio. Desde logo porque envolve uma contradição ideológica difícil de desmontar. Assim, por um lado, existe um velho e obstinado antiamericanismo que sempre alimentou uma suspeição congénita em relação à produção dos EUA (das mais fascinantes de toda a história do cinema, a meu ver). Ao mesmo tempo, por outro lado, quase todos os produtos estereotipados e repetitivos que essa mesma produção (também) vai gerando gozam de um grau de exposição pública a que mais nenhum outro filme parece ter direito.

Tudo isto é tanto mais curioso e, sobretudo, desconcertante quanto acontece a par da proliferação de discursos grandiloquentes, uns oficiais, outros militantes, em defesa do "cinema europeu". Em última análise, creio que tais discursos, ainda que plenos de boa vontade, só têm contribuído para criar resistências de muitos espectadores a um cinema que, supostamente, deveria ser visto e defendido em nome de uma moral seguidista e "continental".

O exemplo recente da produção francesa J"Accuse - O Oficial e o Espião parece-me revelador. Recentemente editado em DVD, o filme estreou-se em janeiro deste ano, portanto antes do covid-19, cumprindo uma carreira interessante, mas mediana, com pouco mais de 27 mil espectadores (para lá de todas as formas de relativização que os números impõem, vale a pena referir que em França foi visto por quase 1 400 000 espectadores).

Significa isto que nem sequer alguns nomes emblemáticos têm peso, pelo menos, comercial. Quais? Para começar, o do realizador Roman Polanski: personalidade incontornável na história do moderno cinema europeu, precisamente, a sua obra possui um importante capítulo made in USA que inclui um clássico como Chinatown (1974). Depois, a circunstância de se tratar da adaptação de um best-seller de Robert Harris sobre o célebre caso Dreyfus, envolvendo Alfred Dreyfus, oficial francês, condenado em 1894 por espionagem a favor da Alemanha com base numa acusação sem fundamento, enraizada em preconceitos antijudaicos. Enfim, o facto não desprezável de Dreyfus ser interpretado por Louis Garrel, um dos poucos atores franceses (ou europeus, já agora) cuja popularidade transcende fronteiras.

Na sua metódica e austera exposição da odisseia de Dreyfus (que só viria a ser ilibado em 1906), Polanski encena um sistema de tensões cuja atualidade simbólica não será necessário sublinhar. Assim, não estamos perante um qualquer processo de "santificação" de Dreyfus, aliás composto por Garrel como uma figura fria e distante. Nem se procura a demonização da instituição militar - é mesmo do interior dessa instituição, através da ação do coronel Georges Picquart (Jean Dujardin), que surge a defesa de Dreyfus. No limite, discute-se uma perversa dinâmica social: como é que uma mentira sem fundamento se transforma em verdade coletiva?

É no célebre artigo de Émile Zola que dá o título ao filme ("J"Accuse", publicado a 13 de janeiro de 1898 no jornal L"Aurore) que encontramos um símbolo exemplar dessa dinâmica entre individual e coletivo. A saber: o valor primordial das palavras escritas na consistência do tecido social. Em boa verdade, neste nosso tempo de tanta vertigem digital, essa é uma lição incómoda e até impopular.

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