O mapa da nossa indignação

Partido nascido de uma reação que se pode chamar extremo-espanholista ao independentismo catalão, o Vox não se preocupa muito em disfarçar que o seu ideário se inspira em boa parte no legado de Franco e talvez até tenha ido buscar às ambições pan-iberistas do ditador a inspiração para o mapa da hispanidade que inclui Portugal, Brasil e até múltiplas porções da costa africana que em dada época foram possessões portuguesas.

Que o mapa tenha surgido a 12 de outubro, Dia da Hispanidade, celebração da data em que Cristóvão Colombo chegou ao Novo Mundo, deveria ter servido de alerta ao partido espanhol para o quão errada e abusiva é a sua interpretação da história. O genovês Colombo serviu Isabel de Castela depois de ter visto D. João II de Portugal rejeitar os seus planos de chegar ao Oriente navegando para ocidente. Os conselheiros do nosso rei sabiam que os cálculos de Colombo sobre a circunferência da Terra estavam errados e não houvesse a América pelo meio as caravelas de 1492 ter-se-iam perdido no mar. Além disso, Bartolomeu Dias tinha já transformado o cabo das Tormentas em da Boa Esperança e dentro de meia dúzia de anos Vasco da Gama chegaria à Índia. Colombo, pois, não nos deu nada para celebrar, mesmo que alguns até acreditem que era português e na realidade tenha aprendido muito em Lisboa, cidade no final do século XV sem rival no que diz respeito ao conhecimento das artes de navegar e de cartografar.

Outro grande alerta, ou lição de história, está em Isabel ser de Castela e D. João II ser de Portugal. A monarca até podia ser casada com Fernando de Aragão, mas as Índias Ocidentais passaram a pertencer à Coroa de Castela. Sim, Castela. A Espanha, designação herdada do antigo nome da Península Ibérica, irá nascer e unificar-se, mas sem Portugal.

O mapa do Vox quando muito pode corresponder ao do império de Filipe II, I de Portugal (até estão lá as armas portuguesas). Como o próprio terá dito, Portugal herdou, conquistou e comprou. Sim, era neto de D. Manuel I e na ausência de herdeiro de D. Sebastião coube-lhe a Coroa de Portugal. Perante a oposição dos partidários de D. António, prior do Crato, até nos Açores teve de combater para garantir a herança. E com receio de que algum filho fosse atribuído ao cardeal-rei D. Henrique pagou bem ao Papa para que não se levantassem os votos ao velhinho tio de D. Sebastião. Mas outro alerta é que os Filipes, mas mais o primeiro, respeitaram sempre que Portugal era um outro país, com o seu próprio império. Houve momentos de ação conjunta, como o da malograda Armada Invencível, mas o Brasil continuou português e em Goa o vice-rei também se manteve sempre um português durante os 60 anos. Mesmo Filipe IV, III de Portugal, aceitou que Pedro Teixeira reclamasse em nome dele e da Coroa de Portugal a posse da Amazónia. E quando a restauração da independência se fez, todo o Império Português se mostrou leal a D. João IV, com exceção de Ceuta. Talvez se possa dizer que nessa altura já era óbvia uma Espanha, certamente era óbvio que existia um Portugal.

Na verdade, e sabendo-se as semelhanças e as diferenças entre Portugal e Espanha, entre a hispanidade e a lusofonia, o mapa do Vox nem merece grande resposta. Mas não deixa de ser irónico, e esse deveria ter sido o principal alerta, que o campo político em Espanha que mais contesta o argumento separatista catalão de que em 1640-1641 poderia ter sido a Catalunha e não Portugal a libertar-se dos Filipes, como se fosse igual a tradição de Estado em ambos, anule agora tão desastradamente o país que existe há nove séculos no extremo oriental ibérico e ainda por cima, como se tem ouvido de governantes e opinião pública, tanto respeita a unidade desta admirável Espanha democrática, nascida depois da morte do generalíssimo.

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