A traição de Rio

Quando foi anunciada a conferência de imprensa de Rui Rio de segunda-feira convenci-me de que o líder do PSD aproveitaria esta oportunidade para não só negar terminantemente qualquer acordo nos Açores como também para, de uma vez por todas, acabar com a ideia de que o partido pudesse ter qualquer ligação ao Chega.

Não seria o homem que anunciou que o PSD não era um partido de direita, que o ia recentrar, que ia fazer o que nenhum político europeu da área da social-democracia fez nos últimos vinte anos, ou seja, normalizar e legitimar um partido de extrema-direita, populista, racista e xenófobo.
No entanto, foi exatamente o que Rui Rio fez. Vendeu a dignidade e a honra do partido, o património político e todos os valores que o PSD defendeu e ajudou decisivamente a implementar por um prato de lentilhas. Para tornar ainda mais absurda a sua decisão, um prato de lentilhas que acabaria por ganhar.

Mas pouco ou nada interessa a possibilidade mais próxima ou longínqua de conquistar o poder nos Açores ou no continente desta ou daquela maneira. Não estamos perante uma questão de tática política, são princípios e valores fundamentais que estão em causa. Vender a alma ao diabo não é tática que se enquadre numa estratégia de uma organização que luta pelo bem comum.

Rio disse que há apenas quatro compromissos com o Chega. Se o líder do PSD não percebe que basta um compromisso com o Chega para negar todo o património político do PSD e para mandar borda fora os princípios sociais-democratas do partido que lidera, não percebe nada. Ninguém do PSD se pode sentar com um racista, um xenófobo ou um defensor de medidas que atentam contra a dignidade humana para obter apoio para o que quer que seja.

Para piorar o que não podia ser piorado, Rui Rio não percebeu ou não quis perceber que os compromissos que o PSD aprovou são um excelente exemplo da razão de ser impossível qualquer acordo com o Chega. Melhor, são até temas que separam o Chega de qualquer partido que defende a social-democracia e o sistema em que vivemos.

Para essa organização, a subsidiodependência não significa o mesmo que para o PSD, nem a luta contra a corrupção é a mesma ou utiliza os mesmos meios que um partido social-democrata defende. É que a questão, nestes casos, não é a enunciação dos princípios, é a forma como eles se concretizam, é o conteúdo.

Para ficarmos todos convencidos de que Rio está mesmo com vontade de abrir ainda mais os braços a Ventura, voltou a insistir na possibilidade de acordos se o Chega se moderar. Que significará moderar o racismo? Talvez uma lei só para ciganos carecas. Pode-se ser um xenófobo mais decente? Sim, um dos que acham que ucranianos podem vir, mas outros nem pensar. E a castração química moderada? Talvez com anestesia.

Claro que Ventura aproveitou a legitimação feita por Rui Rio e ainda não parou de anunciar que não haverá alternativa ao PS sem o Chega. Era só isto que ele queria: entrar no sistema. A normalização do Chega prosseguiu a uma velocidade supersónica nos dias posteriores.

Rui Rio fez, no Twitter, uns comentários engraçadinhos sobre a não chegada do fascismo, ao que o Ventura retorquiu, como bom camarada, com uma piadola similar. André Coelho Lima, figura importante do PSD, disse sem que lhe tremesse a voz que se alguém achasse o Chega racista e xenófobo devia pedir a sua ilegalização - ele claramente não acha -, ao que somou a semelhança entre a AD e os acordos com o Chega. A cereja no topo deste lindo bolo foi posta por João Miguel Tavares, que num dos vários textos onde defende acordos entre o PSD e o Chega mostra não ver diferença, ao nível do caráter abjeto, entre a castração química e as 35 horas de trabalho na função pública.

Rui Rio desistiu do eleitorado moderado, deu um pontapé tão forte nos princípios do PSD que deve ter deixado basbaque a ala que queria virar o PSD à direita. Com esta posição deixou uma enorme franja de portugueses politicamente órfãos. E agora?

Quem repudia tudo o que significa o Chega pode votar em quem lhe abriu a porta, em quem o legitimou?

E quem não quer a social-democracia à moda do Rato, que não quer um partido capaz de todas as ginásticas e geringonças socialistas para manter o poder, como fica? É esta a alternativa que Rio tem? Acordos com o mais nojento lúmpen da política?

Rio deu o maior passo que algum líder do PSD alguma vez deu no sentido de destruir o partido. E como se já não fosse pouco, soçobra às mãos de uma organização ignóbil. Gostaria de pensar que ele vai reconhecer o erro e tentar voltar atrás, mas não acredito, e mesmo que o fizesse seria, temo, demasiado tarde.

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