"É preciso não esmorecer"

Dois dias antes de fazer 80 anos, Jorge Sampaio fez uma palestra em Óbidos, no curso de verão ali habitualmente organizado pelo IPRI-Nova, com coordenação de Nuno Severiano Teixeira. Falou das ameaças à democracia liberal e enfatizou que "é preciso não esmorecer", frase que me tocou. O antigo presidente aceitou depois tirar uma foto de grupo, onde estão Severiano Teixeira e Carlos Gaspar (também do IPRI e que foi seu conselheiro em Belém), o autarca Humberto Marques, Ricardo Alexandre, da TSF, e restantes participantes, uma dúzia.

Para mim, foi um momento especial aquele convívio descontraído com um político que sempre admirei mas com o qual poucas vezes me cruzei na minha carreira de jornalista. Esse papel no DN coube muito mais à Graça Henriques, que acompanhava o que se passava em Belém e até esteve em 2002 com Sampaio na cerimónia de independência de Timor-Leste, à Paula Sá, que fez a cobertura em 1996 da primeira visita presidencial a Espanha, ou ao João Céu e Silva, que o entrevistou em 2016, para comentar a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU.

Naquela tarde de 16 de setembro de 2019, quando já se sabia da sua saúde frágil, Sampaio deu provas de grande sentido de humor, relembrando até o célebre episódio de ter ficado em casa no dia 25 de abril de 1974: "Devo ter sido o único português a cumprir as recomendações do MFA", disse, com um sorriso de quem sabe ter contribuído para a democracia em que vivemos, um contributo dado antes e depois da Revolução como tão bem João Ferreira, jornalista e historiador, relembrou no suplemento com que o DN homenageou o homem que foi presidente de Portugal entre 1996 e 2006 e que morreu sexta-feira com quase 82 anos.

Mas se poucas vezes lidei com Sampaio, há um jantar em 2008 em que participei e que não resisto a contar, mesmo que quase só me tenha limitado a ouvir a deliciosa conversa entre o antigo presidente e um amigo egípcio, Ismail Serageldin, que eu depois entrevistaria na hora dos cafés, pois era o diretor da Biblioteca de Alexandria, moderna reinvenção da biblioteca fundada no século III a.C. Só quando surge a oportunidade de referir a minha passagem pelo Iraque de Saddam Hussein, e arrisco ainda umas frases em árabe egípcio para surpresa de Serageldin, entro um pouco na conversa, com Sampaio a comentar divertido: "Este Diário de Notícias faz-me sempre umas surpresas".

Graças talvez à memória desse peculiar jantar com o bibliotecário de Alexandria, Sampaio reconheceu-me em Óbidos, e soube-me bem ser cumprimentado por "Leonídio" por alguém tão admirável, nesta última fase também pelo seu empenho no diálogo de civilizações e em defesa dos refugiados. Mas, sobretudo, quando recordo o valor desses raros momentos partilhados com Sampaio, sinto que a forma de correspondermos ao exemplo, a forma de concretizarmos esta admiração tão largamente partilhada pelos portugueses, é recordarmos os desafios que nos lançou, como o tal "é preciso não esmorecer".

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