Impeachment de Trump. Inquérito chega a 2.ª fase e em direto na TV

Testemunhas vão ser questionadas em sessões públicas e transmitidas na televisão. Comissão pretende terminar processo em dezembro para o Senado avançar com o julgamento em janeiro.

O atual encarregado de negócios na Ucrânia, embaixador William Taylor, e o vice-secretário adjunto George Kent são as primeiras pessoas a testemunhar em sessão pública sobre o inquérito de destituição de Donald Trump que está a ser levado a cabo por duas comissões da Câmara dos Representantes. A sessão pode ser vista em direto aqui.

Na véspera, o democrata responsável pela comissão de Serviços Secretos, Adam Schiff, divulgou pormenores sobre os procedimentos desta nova fase do inquérito. Os democratas podem chamar testemunhas adicionais.

Os republicanos também têm direito a fazê-lo, mas os democratas podem vetar os nomes. Foi o que aconteceu à solicitação de se ouvir o denunciante ou de ouvir o filho do ex-vice-presidente Joe Biden. Schiff não quer que as audiências se tornem numa retaliação contra o denunciante que "corajosa e legitimamente" levantou o caso, nem para promover "investigações fictícias aos Bidens ou sobre teorias da conspiração desmentidas" sobre interferência eleitoral da Ucrânia nas eleições de 2016.

O que está em causa

Donald Trump está sob ameaça de ser destituído de funções porque pediu ao homólogo da Ucrânia que investigasse um dos seus rivais políticos. Num telefonema efetuado a 25 de julho, o presidente norte-americano pediu a Volodymyr Zelensky para "investigar" o ex-vice-presidente Joe Biden, cujo filho Hunter fez parte da administração da empresa ucraniana de energia Burisma.

O presidente garante que não exerceu "nenhuma pressão" sobre Kiev e que o telefonema foi "perfeito". É mais uma vez vítima da "maior caça às bruxas da história", diz. Já em outubro, Trump escreveu no Twitter que tinha "o direito absoluto, talvez até o dever, de investigar ou ver investigada a corrupção, o que inclui pedir ou sugerir a que outros países ajudem".

Mas a oposição democrata tem outra ideia do que aconteceu e reuniu testemunhos que corroboram a sua versão. Trump, alegam, abusou do poder ao pedir ajuda a uma potência estrangeira para fins pessoais, uma vez que Joe Biden é um possível concorrente nas eleições presidenciais de 2020. Em troca, 400 milhões de dólares em ajuda militar seriam desbloqueados e Zelensky iria ser recebido na Casa Branca.

O telefonema entre Trump e Zelensky alarmou alguns funcionários da Casa Branca e os serviços de informações. Seis deles expressaram as suas preocupações a um agente da CIA. Este decidiu ativar no dia 12 de agosto o mecanismo de proteção ao denunciante para informar o Congresso sobre o conteúdo desta conversa e para implicar o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, e o procurador-geral William Barr no caso.

Apesar dos obstáculos levantados pela Casa Branca, o relatório chegou aos congressistas em meados de setembro. Dias depois, a Casa Branca publicou uma versão não completa do diálogo. É indesmentível que Trump pediu ao homólogo para investigar Joe Biden.

A Câmara dos Representantes, nas mãos dos democratas, começou a investigar o caso e, em seis semanas, ouviu uma dúzia de testemunhas à porta fechada. Estas descreveram os esforços desenvolvidos ao longo de meses por membros do círculo do presidente para convencer Kiev a fornecer informações comprometedoras sobre Joe Biden, fora dos canais diplomáticos oficiais americanos.

Um deles é Mick Mulvaney, chefe de gabinete de Donald Trump, que em conferência de imprensa reconheceu que a assistência militar à Ucrânia tinha sido congelada a pedido do presidente e ligada a motivos políticos dos EUA, o famoso quid pro quo "que está sempre a acontecer", de que Trump é acusado.

Mais tarde, Mulvaney deu o dito por não dito.

Entretanto, a Casa Branca ordenou aos membros da administração para não cooperarem com a investigação da Câmara, denunciando um procedimento "sem fundamento constitucional legítimo ou a menor aparência de imparcialidade", como escreveu o advogado e conselheiro da Casa Branca Pat Cipollone.

Altos funcionários, incluindo Mick Mulvaney, recusaram-se a responder às intimações do Congresso, o que pode levar a outra acusação de destituição por "obstrução ao trabalho do Congresso".

Cipollone e Mulvaney, escreve o The Washington Post, não se entendem em relação à estratégia de defesa do presidente, o que leva os senadores republicanos - que até agora não deram mostras de se juntar aos democratas - a preocupar-se com a falta de preparação da Casa Branca para o julgamento que irá ocorrer no Senado caso a Câmara dos Representantes aprove, como é de esperar, as acusações. "Antes que se dê por isso o julgamento do impeachment vai começar e eles não estão remotamente preparados", disse um assistente do partido no Senado ao The WashingtonPost.

O diplomata em Kiev

William Taylor foi nomeado encarregado de negócios em Kiev quando o escândalo já estava em andamento, pelo que não estava junto do presidente aquando do telefonema nem participou em encontros onde pressões fossem exercidas. No entanto, soube tudo por fontes privilegiadas, funcionários da Casa Branca ou da segurança nacional, por exemplo.

Uma troca de sms ocorrida no início de setembro entre Taylor e o embaixador dos EUA na UE, Gordon Sondland, demonstra o que pensa sobre o assunto: "Acho que é uma loucura suspender a ajuda de segurança a troco de ajuda numa campanha política", escreveu. Entretanto, na sua audiência privada e entretanto tornada pública, Taylor confirma que os ucranianos sabiam o que precisavam de fazer para obterem o que queriam. "Penso que estava a ficar claro para os ucranianos que, para conseguirem esta reunião que queriam [na Casa Branca com Trump], teriam de se comprometer a prosseguir estas investigações", disse este diplomata de carreira.

No entanto, Taylor não ligou os pontos, tendo apontado o dedo a Rudy Giuliani, e excluído Trump. Os democratas esperam que o embaixador, nesta nova sessão, desenvolva um argumento mais comprometedor para com o presidente.

A outra testemunha do dia, com menor peso, é George Kent. Para o homem que preside a comissão dos Serviços Secretos, Adam Schiff, o testemunho de Kent foi importante porque este diplomata com a pasta dos assuntos europeus e asiáticos reconheceu "a irregularidade da campanha de pressão à Ucrânia de Trump para empreender investigações politicamente motivadas".

A ex-embaixadora afastada por Trump

A antiga embaixadora em Kiev Marie Yovanovitch vai testemunhar na sexta-feira. Na sua audiência privada afirmou ter sido afastada do cargo, na primavera, numa "campanha concertada" e depois de ter sido atacada por Giuliani, cujos associados "podem muito bem ter acreditado que as suas ambições financeiras pessoais foram impedidas pela nossa política anticorrupção na Ucrânia".

Giuliani, que também não respondeu à intimação do Congresso para testemunhar, viu dois associados serem detidos quando se preparavam para abandonar os EUA. Lev Parnas e Igor Fruman, empresários originários da Ucrânia, terão ajudado na campanha para derrubar Yovanovitch.

Outras testemunhas incluem o ex-enviado especial à Ucrânia Kurt Volker, o embaixador na UE Gordon Sondland ou o perito em Ucrânia do Conselho de Segurança Nacional, Alexander Vindman.

Estratégias

Segundo o The Hill, os democratas estão a mudar a mensagem para ser mais percetível pelo público. Mais especificamente, estão a deixar de usar a expressão latina quid pro quo e no seu lugar a usar termos como "extorsão" e "suborno", que acreditam que será mais fácil para os eleitores compreenderem. O congressista Jim Himes, membro da comissão de Serviços Secretos, afirmou que os democratas precisam de "esquecer quid pro quo".

Já os republicanos da Câmara divulgaram a estratégia para responder ao inquérito de impeachment. O memorando argumenta que "as provas reunidas até à data" não sustentam a tese dos democratas de que Trump tentou uma troca de favores com o presidente ucraniano.

"Quatro peças-chave de evidência são fatais para as alegações dos democratas", alegam os republicanos: o resumo da chamada divulgado pela Casa Branca não contém nenhuma prova de coação; Trump e Zelensky disseram publicamente que não houve pressão; o governo ucraniano não estava ciente da suspensão do auxílio dos EUA no momento da chamada de 25 de julho; e a ajuda à Ucrânia foi restaurada em setembro sem Zelensky abrir nenhuma investigação ao filho de Biden.

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