Marinha anglo-americana de regresso à guerra fria

Cinco navios cruzaram o mar de Barents, onde está fundeada a frota do norte da Marinha russa. Washington quer garantir a liberdade de navegação no Ártico.

Três contratorpedeiros norte-americanos e uma fragata britânica partiram do mar de Barents na sexta-feira, após sete dias de operações no Ártico. Foi o regresso dos navios de superfície ao mar de Barents desde meados dos anos 80.

"O Ártico é uma região importante e as nossas forças navais operam lá, incluindo o mar de Barents, para garantir a segurança do comércio e demonstrar liberdade de navegação nesse ambiente complexo", comentou o almirante James G. Foggo III, comandante das forças navais dos EUA para a Europa e África.

O Barents é onde se encontra uma das mais importantes bases navais da Rússia, Murmansk, sede da frota do norte da Marinha russa. Foi aí que se deu o acidente com o submarino Kursk, em 2000, que resultou na morte de todos os 118 ocupantes quando testava um novo torpedo. Se nenhum navio dos EUA navegou à superfície por aquelas águas nos últimos 35 anos, o mesmo não é verdade nas profundezas. O Kursk estava a ser observado a não grande distância pelo Toledo.

Além da importância para exercer poderio militar, espionagem ou contraespionagem, o mar de Barents e o Ártico em geral passaram a ter importância acrescida devido ao degelo observado nos últimos anos.

Vladimir Putin cedo compreendeu que a importância do norte para os russos ia para lá do mito fundador, mas que é também um imenso espaço económico, e de crucial importância geostratégica.

A rota do mar do norte, que passa pela costa da Rússia e pelo Estreito de Bering, perto do Alasca, antes só parcialmente navegável, tornou-se mais fácil de atravessar. Hoje, centenas de navios transportam toneladas de mercadorias ao longo da rota. A seu favor, menos tempo e menos dinheiro do que outras rotas marítimas.

A Rússia é hoje a potência dominante, graças a anos de elevado investimento, quer em bases navais, quer em navios especializados como quebra-gelos e submarinos nucleares para patrulhar a área, quer ainda num novo tipo de navio de guerra chamado Ice-class.

Para contrabalançar este poderio na região, Washington quis demonstrar que a Rússia não é soberana das águas internacionais, quer do Barents, quer do Círculo Ártico em geral.

A Marinha norte-americana destacou também o facto de seus os navios não operarem no região do Mar de Barents desde meados da década de 80, e que é necessário saber navegar naquelas condições.

Composto pelos contratorpedeiros da sexta esquadra dos EUA USS Donald Cook,USS Porter e USS Roosevelt, o navio de apoio Supply e a fragata britânica HMS Kent, e contando com o apoio aéreo dos P-8A e RC-135, a frota entrou no mar de Barents para realizar treinos num mar com condições duras.

Como recorda o antigo almirante norte-americano James Stavridis, o mar de Barents (nome atribuído em homenagem ao navegador holandês Willem Barentsz) "é um local difícil para operar, ainda que na primavera tardia". Ao recordar as suas duas passagens pelo Círculo Ártico, mais a norte que o mar de Barents, escreve na Bloomberg: "O contratorpedeiro debateu-se em mares revoltos, e mais de um terço da minha tripulação ficou deitada com enjoos."

NATO sem aliança

O almirante Foggo destacou o "empenho" da Aliança Atlântica nestes exercícios navais. "As nossas operações com o Reino Unido demonstram a força, a flexibilidade e o empenho da aliança da NATO na liberdade de navegação em todo o Ártico e em todas as águas europeias", como se lê no comunicado da sexta esquadra.

Mas só o mais otimista ou distraído pode falar na NATO quando só o Reino Unido se juntou aos EUA.

Segundo conta Stavridis, os EUA queriam organizar uma missão com mais participantes, mas nenhum outro país se mostrou disponível, pelo que no que respeita à mensagem de união a transmitir à Rússia, é uma "desilusão".

Desconhece-se se o contexto da atual pandemia teve influência na tomada de decisões, mas é bom recordar que os porta-aviões Charles de Gaulle (França) e Theodore Roosevelt (EUA) foram obrigados a aportar devido ao surto de covid-19 entre os marinheiros.

"Nestes tempos difíceis, é mais importante do que nunca que mantenhamos o nosso ritmo constante de operações em todo o teatro de operações europeu, tomando simultaneamente medidas prudentes para proteger a saúde da nossa força", afirmou a vice-almirante Lisa Franchetti.

"Os noruegueses, que normalmente têm mostrado grande disponibilidade para cooperar no seu quintal, estão ausentes", lembra Stavridis. Em 2018, a Noruega recebeu o maior exercício da Aliança Atlântica, com a participação de mais de 50 mil militares de 31 países.

A ausência de Oslo é algo que o almirante na reforma considera "especialmente surpreendente", mais a mais quando Jens Stoltenberg, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, é um ex-primeiro-ministro norueguês que "tem sido particularmente incisivo no que se refere a dissuadir o mau comportamento russo".

Stavridis lamenta igualmente a ausência "notória" do Canadá, o país com a maior fronteira da NATO no Ártico, bem como da Alemanha, França e Itália, "dotados de navios capazes de lidar com as águas do Norte".

Seguidos de perto

O secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, queixou-se também de a força aérea russa ter sondado o espaço aéreo dos EUA na região do Ártico e em redor do Alasca.

Os aviões de caça F-22 intercetaram por diversas vezes, entre março e abril, aviões de reconhecimento russos que operam perto do Alasca. Em março, estavam a espiar um exercício submarino americano perto do Alasca, o ICEX.

Em abril, mas no Mediterrâneo, um caça russo sobrevoou um Poseidon P-8 da Marinha.

A operação no mar de Barents também pode ser vista como uma resposta aos exercícios russos recentemente realizados no golfo da Biscaia, frente à costa francesa.

O destacamento da frota do norte, liderado pelo cruzador Marechal Ustinov, esteve em "trabalho de localização de submarinos de um inimigo fictício", como informou o Kremlin. Ao continuar a travessia, ao passar pelo Canal da Mancha, a frota foi escoltada pela marinha britânica.

Em 2015, o contratorpedeiro Severomorsk também realizou exercícios (antiaéreos e antinavios) no golfo da Biscaia.

Liberdade de navegação no Mar do Sul da China

As operações no mar de Barents seguiram-se às operações de "liberdade de navegação" da marinha norte-americana no Mar do Sul da China, perto de pequenas ilhas onde a China mantém reivindicações territoriais não aceites por outros países da região.

"Os chineses têm sido um pouco mais provocadores nessa parte do mundo", comentou o secretário da Defesa Mark Esper, que qualificou as ações chinesas de "muito agressivas e não coerentes com as regras internacionais", afirmou. "Queremos garantir a manutenção das leis do mar e das regras internacionais que nos sustentam a todos muito bem há décadas", concluiu Esper.

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