O epidemiologista acidental

Sobre a actual pandemia ignora-se muita coisa, quase tudo, a começar pelo seu género, que uns dizem ser macho (o covid), outros afiançam ser fêmea (a covid), mas que bem poderá ser do tipo indefinido, politicamente correcto (@covid). Mesmo a fábula do pangolim é, por ora e tão-só, uma simples hipótese de trabalho. De seguro, nada está garantido.

De certo e sabido temos apenas os agentes da autoridade transformados em epidemiologistas de giro. É vê-los aos pares nas ruas, nas praças, nos jardins públicos, junto da cidadania que passa, a dar orientação sanitária, por vezes em modo assertivo, ou, quais técnicos do Ricardo Jorge, a recomendar, aos namorados e tudo, os posicionamentos mais adequados para evitar o contágio do bicho, ou bicha.

A eles se juntaram, logo no início da coisa, outros epidemiologistas au cœur, que ora acordavam panglossianos, ora catastrofistas e, com pontinha de imodéstia, espraiaram em excesso os seus variáveis humores pelas redes sociais.

Vieram depois outras corjas, hordas acidentais, brigadas de especialistas, opinadores que não pinam, comentadores que comentam, a legião bitaiteira com suas estantes mais virgens do que a Senhora das Dores. Até os economistas começam já a ousar "cenários" e a adiantar "projecções", erguendo as cabecitas doridas por entre os escombros doutros falhanços proféticos pretéritos, o mais clamoroso dos quais na crise de há poucos anos.

Mas, à parte os polícias de rua, o que temos de garantido é que o confinamento, além de poupar muitas vidas, confirmou que o tempo não é igual para todos, sendo esta, porventura, a lição filosófica, teológica e existencial mais importante a retirar do actual estado da Coisa. Não adianta falar de Santo Agostinho ou de Heidegger, nem relembrar que, numa das cartas a Lucílio, Séneca acertou na mosca quando afirmou, e bem, que todo o tempo por nós passado é já do domínio da morte e, portanto, quando alguém celebra 40 ou 50 anos de existência terrena está, isso sim, a festejar quatro ou cinco décadas de definhamento biológico, o que, sendo uma realidade mais do que natural, não deixa em todo o caso de provocar muita tristeza.

Assim imposta tão subitamente, a experiência de estar fechado produziu efeitos curiosos na psique de cada qual. Confinamento, não houve um igual ao outro. Mas, como em tudo, até na moda em Lisboa, houve padrões, figurinos adaptativos, modos colectivos de fazer que a Coisa passasse por nós sem deixar grandes marcas, que deixou, ai se deixou.

Ao contrário do que seria suposto, os dias não se arrastaram lentos e infindáveis, como nas tardes da adolescência. Bem ao invés, passaram mais lestos do que a própria propagação do vírus, já de si vertiginosa. E, entre teletrabalho e afazeres domésticos, não foram poucos os que se queixaram, pasme-se, de falta de tempo e de ócio. Outros já sentem saudades do que ainda estão a viver, num transe nostálgico que, convenhamos, tem irrecusáveis parecenças com as síndromes de Estocolmo.

No resto, é como se o tempo cronológico a que estávamos habituados tivesse sido congelado, suspenso e substituído por outro, indefinível e nebuloso, e, por isso mesmo, às vezes sufocante, outras nem isso. Mas se o tempo diário da pandemia correu ágil, veloz, o mesmo não sucedeu ao tempo medido (e sobretudo sentido) em semanas, ou nos meses que esta brincadeira já leva, poças.

O mundo de ontem, como diria o outro, parece estranhamente remoto, mais remoto do que o bom senso para os polícias de giro ou para os operacionais do bitaite. Três meses que parecem três anos, ou mais. Ninguém sabe ao certo quantos meses parecem, pois aqui, no que cada um sente lá no mais fundo de si, não há regras nem padrões, figurinos adaptativos. A uns, parecerão dias, a outros a eternidade. A todos, porém, é comum a sensação de bizarria, decerto por não estarmos acostumados a, de um dia para o outro, interrompermos rotinas e hábitos enraizados que são, ao cabo e ao resto, o que nos serve de balizas temporais. O almoço às horas dele, o jantar e o digestivo não são coisas que fazemos apenas porque sim, são a bússola referencial, aquilo que nos dá as coordenadas do tempo, que por nós passa, e nós por ele. O banho matinal ou a barba desfeita ao espelho, entre outros expedientes dilatórios que os humanos inventaram para não enlouquecer, são, no final de contas, aquilo que nos faz viver o tempo de uma dada forma ou de outra, completamente diferente.

Sendo igual e mesmíssimo ao dos dias de trabalho, nas férias o tempo muda, transforma-se, na sensação que dele temos (há mesmo quem force a nota da abstracção temporal e largue o relógio do pulso logo no primeiro dia de vilegiatura; outros aproveitam o ensejo estival para dar largas à porcaria e, durante uma semana ou até uma quinzena, regressam ao estado pré-histórico e lanudo dos cabelos desgrenhados e das barbas selvagens).

Agora passou-se algo parecido, mas com uma reles nuance: foram férias que não foram férias, uma mistela pastosa em que lazer e trabalho sobrepuseram-se, confundiram-se, contaminaram-se reciprocamente, para mais em espaços fechados, com escassa ventilação. A claustrofobia doméstico-familiar adensou conflitos latentes, agudizando desavenças conjugais que, não raro, acabaram à trolha.

Num instante, as ruas ficaram desertas. Instalou-se urbi et orbi uma paisagem lunar somente interrompida, aqui e ali, por moços de fretes ou empregadas das limpezas de ascendência africana. Uns e outros deram inestimável contributo para reactualizar o estereótipo racialista do "preto para canhão". Do comércio fechou quase tudo, mantendo-se apenas de pé os estabelecimentos low-cost de outros heróis desta trama, que, sem se aperceberem disso, inauguraram uma nova categoria sociológica, a do "monhé resiliente".

À falta de putas, avançou a pornografia, que fez o que pôde, mobilizou-se e, como sempre, ajudou quem a quis ou quem dela precisou. Mas, tirando esse serviço púbico e um ou outro gesto benemérito, a realidade não mudou tanto assim, muito menos do que pensamos.

Continuou o amor, sem dúvida, e o seu cortejo de simulacros, venceram-se as prestações da casa, a ferrugem lá fez caminho para a corrosão dos objectos. Por clausura dos ginásios, agravou-se o amolecimento das carnes (e, com ele, a flacidez das mentes), mas o geral da cidadania manteve o cuidado de si, no corpo e na alma, e, por paradoxal que pareça, foram bem poucos os que nesta fase cogitaram matar-se, ou disparates piores.

Houve torpor, claro, e, às tantas, até os mais ansiosos deixaram de esbracejar na demanda de notícias. Fartámo-nos de gráficos e quadros, projecções ao minuto, curvas chatas de achatar, tabelas muito periódicas.

O marketing, de seu lado, não ajudou à festa: copiou-se à descarada o símbolo tutti frutti de outras lutas cidadãs e, de original, o mais que se arranjou foi o estribilho de uma poetisa italiana ("andrá tutto bene") que oscila pateticamente entre o mote de autoajuda e o anúncio ao penso higiénico. Na retórica quotidiana, predominou o eufemismo, compreensivelmente, mas com resultados anedóticos. O comércio, por exemplo, iludiu a verbalização da pandemia recorrendo a um expediente canhestro e apatetado e, nos papéis afixados às portas dos estabelecimentos, proclamou uma doença mundial mortal descrevendo-a tão-somente como "a actual situação" ("devido à actual situação, estaremos encerrados até..."). Numa parede da esquina, vi um grafito que grita: "A romantização da quarentena é um privilégio [sic] dos ricos."

Falharam as missas e os hipermercados, mas, tirando isso, mudámos pouco, menos do que julgamos. Ainda assim, o modo como vivemos o tempo é agora diferente. Não apenas o tempo passado, que é do domínio da morte. Agora, nesta etapa do desconfinar, o que espanta é sermos incapazes de encarar o futuro como o fazíamos outrora. Vemo-lo distante, longínquo, como promessa incumprida, miragem sempre adiada. Em Junho, Setembro parece de outro planeta. O tempo que dele dista é o mesmo de sempre - três, quatro meses, contados cronologicamente, no somatório dos dias -, mas assim não o sentimos, nas nossas subjectividades.

Em suma, mal passaram quatro meses e o ontem do pré-covid parece-nos coisa de há séculos, quiçá milénios. Como já alguém disse, "éramos tão felizes e não sabíamos" (de facto, senhores governantes: devolvam-nos o passado, é com ele, só com ele, que nos sabemos orientar). Já o passado confinado parece que passou muito rapidamente, a ritmo apressado, e dele guardamos por ora pouquíssimas recordações, tal e qual sucede aos que sofreram grandes traumas. A sensação mais comum será, talvez, a de quase afogamento, de imersão na atmosfera líquida, surreal, em que estamos mergulhados desde que declararam a Coisa.

Mesmo que não queiramos, o presentismo impõe-se, sem grandes perspectivas quanto ao que virá depois. O futuro, mesmo o imediato, o dos amanhãs que não cantam, parece-nos afastado, apartado de nós por uma cerca sanitária que começa, antes do mais, em nós mesmos, no mais fundo que temos, e sentimos. Se o tempo subjectivo impõe-se desta maneira, tão forte, tão actuante, para quê continuarmos a preocupar-nos com o tempo objectivo, o dos dias e dos calendários? Não é também ele, afinal, uma construção humana, artificialíssima?

É melhor nem pensar em pensar. Às vezes, contudo, o simples deixar fluir não serve de lenitivo, e cada vez menos resulta como esquema adaptativo. "Para o que estávamos nós guardados...", queixam-se as velhotas na rua (ouço-lhes os gemidos todos os dias, por trás da minha vidraça). Pois é, para o que estávamos guardados.


Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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