Liverpool suspira de alívio. Liga inglesa regressa após vencer a resistência dos jogadores

Os reds estão a duas vitórias de serem campeões após 30 anos de jejum. O sonho chegou a estar ameaçado devido à desconfiança dos futebolistas: N'Golo Kanté, o mais bem pago do Chelsea, é o último resistente e mantém-se em isolamento. Os clubes evitam perdas de mais de 800 milhões de euros.

A Premier League está de volta nesta quarta-feira com a realização de dois dos 92 jogos que restam para terminar a época 2019-20 (os desafios podem ser vistos em direto na SportTV). Os adeptos do Liverpool podem suspirar de alívio, afinal a pandemia de covid-19 não lhes irá retirar a possibilidade de, finalmente, conquistarem o título de campeão inglês, quebrando um jejum que dura desde 1990. Foram 30 anos de sucessivas desilusões que parecem estar agora a chegar ao fim, pois à equipa treinada por Jürgen Klopp faltam apenas duas vitórias para erguer o seu 19.º título.

O regresso do campeonato é, no fundo, muito importante para os reds confirmarem o título, uma vez que já dispõem de 25 pontos de avanço sobre o Manchester City, que tem um jogo a menos, precisamente aquele que fará quarta-feira (20.15 horas), em casa, com o Arsenal, naquele que será o segundo jogo da retoma e que se inicia pouco mais de duas horas depois do apito inicial do Aston Villa-Sheffield United.

Foram precisamente os villians que protagonizaram o último jogo antes da paragem forçada, a 9 de março. Depois disso houve um autêntico apagão que na prática ameaçou a sustentabilidade daquela que é considerada a mais mediática e financeiramente mais poderosa liga do mundo. Em causa estiveram perdas totais a rondar os 762 milhões de libras (856 milhões de euros) só em direitos de transmissão televisiva se o campeonato não pudesse ser retomado. A isto ter-se-iam juntado as receitas de bilheteira, publicidade, merchandising, entre outras.

Solução criativa para salvar milhões

Só quando a 11 de maio a liga inglesa recebeu luz verde do governo de Boris Johnson para que o futebol pudesse ser retomado, os clubes suspiraram de alívio e puderam, finalmente, colocar em marcha o Project Restart (Projeto Reinício) que abriu caminho à retoma da competição e salvou os clubes de prejuízos astronómicos. Ou seja, a fatia dos direitos televisivos correspondente aos últimos 92 jogos da temporada vão ser pagos, mas as operadoras de televisão detentoras dos direitos não estão na disposição de abdicarem da devolução de 340 milhões de libras (382 milhões de euros), verba considerada como uma espécie de indemnização pelo facto de os jogos não se terem disputado nas datas previamente acordadas, mas também porque agora as partidas vão realizar-se sem público nas bancadas.

Este não é, no entanto, um assunto fechado, pois os clubes estão bastante otimistas na resolução do problema e, para isso, apelaram à criatividade para manter os milhões do seu lado. E o trunfo colocado em cima da mesa foram os bastidores dos jogos. Foi proposta aos operadores a colocação de câmaras de filmar nos balneários das equipas para que, durante um minuto, possam ser transmitidas antes, ao intervalo e no final das partidas, sendo que no final dos jogos apenas estaria disponível o balneário da equipa vencedora. A liga inglesa ainda ponderou propor aos treinadores que usassem microfones durante as partidas, mas essa ideia acabou por ser abandonada devido ao perigo muito real de os palavrões se tornaram um problema das transmissões.

Ainda não é conhecida a resposta das operadoras a esta proposta, mas os clubes estão otimistas em alcançar um acordo para que não saiam mais lesados pela pandemia, afinal já não vão ter receitas de bilheteira, pelo menos até final da época.

Futebolistas com posição forte

O Project Restart foi tudo menos pacífico. Mesmo depois de ter tido o aval do governo britânico, a liga inglesa teve de sensibilizar todas as classes que integram o futebol profissional e para isso desdobrou-se em reuniões com as associações de treinadores, jogadores e árbitros para discutir o plano de retoma.

Um dos primeiros problemas foi quando a maioria dos clubes se opôs à realização dos jogos em terreno neutro, numa medida que pretendia centrar todas as equipas numa zona do país para que estivessem mais protegidas. O St. George's Park, centro de treinos da seleção inglesa, bem no centro de Inglaterra, foi considerado, mas depressa abandonado, mantendo-se a utilização de todos os recintos.

Contudo, foram as questões de higiene e segurança que mais ameaçaram o plano e desde logo se ouviram várias vozes discordantes, uns porque não se sentiam confortáveis em regressar aos treinos e outros porque lembravam a tragédia que o covid-19 estava a provocar em todo o mundo. O defesa internacional inglês Danny Rose, emprestado pelo Tottenham ao Newcastle, lembrou precisamente o facto de estarem "muitas pessoas a morrer" e que o futebol era, naquela altura, "a coisa menos importante".

Houve um nome que emergiu nesta tensão entre a liga e os jogadores: Troy Deeney, capitão do Watford, que desde logo manifestou dúvidas quanto ao plano de segurança dos jogadores e avisou que não regressaria aos treinos. E a explicação era contundente, pois tinha em casa um filho de cinco meses que tinha um histórico de problemas respiratórios e, como tal, não o iria colocar em perigo.

Desde bem cedo, a Associação de Futebolistas Profissionais (PFA) fez questão de informar que o regresso dos jogadores aos treinos não era obrigatório, o que deu ainda mais força à classe. No entanto, as conversações prosseguiram, com a liga a promover reuniões com epidemiologistas. E no final de maio lá surgiu a aprovação para que as equipas voltassem a treinar. O Arsenal foi o primeiro.

Só que Deeney manteve-se em casa. Até que a 3 de junho, após uma conversa com o médico epidemiologista Jonathan Van-Tam, conselheiro do governo britânico para o coronavírus, o capitão do Watford decidiu finalmente regressar ao trabalho com a sua equipa.

O estranho caso de N'Golo Kanté

Um caso mais complicado é o de N'Golo Kanté, um dos jogadores com salário mais alto do Chelsea, que se remeteu a um distanciamento social voluntário e recusa-se a treinar com os companheiros de equipa. O internacional francês acedeu entretanto a ir trabalhar no centro de estágio de Cobham, mas sozinho. Um passo que os responsáveis do clube londrino acreditam que possa indiciar que, em breve, a situação ficará normalizada.

Até agora, o treinador Frank Lampard e os dirigentes do Chelsea têm mostrado alguma compreensão em relação à decisão de Kanté, que foi justificada pelo guarda-redes Willy Caballero numa entrevista ao canal TNT Sports, na qual revelou que o internacional francês "teve sintomas de covid-19 durante a quarentena no Reino Unido". Acresce a este dado o facto de o atleta ter passado por duas tragédias na sua vida, uma das quais quando perdeu o pai quando tinha 11 anos e outra em 2018 quando o irmão Niamh morreu de ataque cardíaco.

Esta é, neste momento, a única situação problemática em relação ao regresso ao trabalho, sendo que já começam a surgir notícias na imprensa inglesa de que os pouco tolerantes dirigentes do Chelsea - o proprietário Roman Abramovich à cabeça - já começam a mostrar algum desconforto pela intransigência do médio.

Tal como nos restantes campeonatos que entretanto já recomeçaram, entre os quais a Bundesliga e a I Liga portuguesa, os jogadores são testados duas vezes por semana. No entanto, o facto de se ter registado um caso positivo no Tottenham (o nome do jogador não foi divulgado) também não ajuda a restabelecer a confiança de Kanté, apesar de ser o único caso nos 1197 testes realizados na semana passada a jogadores, treinadores e outros profissionais da Premier League. De qualquer forma, dos 3882 testes realizados até agora foram registados 13 casos positivos.

Após alguma indefinição, até porque o Reino Unido foi um dos países mais afetados pela pandemia com quase 300 mil infetados e mais de 40 mil mortos, o espetáculo da Premier League está de volta com as bancadas vazias, mas com muito público a assistir através da televisão. E foi a pensar nisso que a liga e os operadores acordaram que nenhum jogo se irá realizar em simultâneo para que os adeptos possam assistir como se de um campeonato do mundo se tratasse.

Se a curva da pandemia se mantiver estável, a época 2019-20 vai mesmo terminar com o Liverpool campeão, se nada de anormal suceder. Os organizadores também estão otimistas de que tudo vai correr bem e por isso mesmo deixaram em aberto o pior cenário... É que os clubes não estabeleceram qual será o protocolo a utilizar, no que diz respeito ao campeão, lugares europeus e despromoções, se o campeonato não chegar ao fim por causa de um novo surto pandémico. Se isso acontecer voltarão a reunir-se... afinal, para quê arranjar mais um problema que até pode nem surgir no horizonte?

PREMIER LEAGUE
Jogos em atraso

Aston Villa-Sheffield
(quarta-feira, 18.00, SportTV2)
Manchester City-Arsenal (quarta-feira, 20.15, SportTV2)

30.ª jornada
Norwich-Southampton (19 jun, 18.00, SportTV2)
Tottenham-Manchester United (19 jun, 20.15, SportTV2)
Watford-Leicester (20 jun, 12.30, SportTV1)
Brighton-Arsenal (20 jun, 15.00, SportTV1)
West Ham-Wolverhampton (20 jun, 17.30, SportTV1)
Bournemouth-Crystal Palace (20 jun, 19.45, SportTV1)
Newcastle-Sheffield United (21 jun, 14.00, SportTV1)
Aston Villa-Chelsea (21 jun, 16.15, SportTV1)
Everton-Liverpool (21 jun, 19.00, SportTV1)
Manchester City-Burnley (22 jun, 20.00, SportTV1)


Classificação P J V E D Gol.
Liverpool 82 29 27 1 1 66-21
Man. City 57 28 18 3 7 68-31
Leicester 53 29 16 5 8 58-28
Chelsea 48 29 14 6 9 51-39
Man. United 45 29 12 9 8 44-30
Wolverhampton 43 29 10 13 6 41-34
Sheffield United 43 28 11 10 7 30-25
Tottenham 41 29 11 8 10 47-40
Arsenal 40 28 9 13 6 40-36
Burnley 39 29 11 6 12 34-40
Crystal Palace 39 29 10 9 10 26-32
Everton 37 29 10 7 12 37-46
Newcastle 35 29 9 8 12 25-41
Southampton 34 29 10 4 15 35-52
Brighton 29 29 6 11 12 32-40
West Ham 27 29 7 6 16 35-50
Watford 27 29 6 9 14 27-44
Bournemouth 27 29 7 6 16 29-47
Aston Villa 25 28 7 4 17 34-56
Norwich 21 29 5 6 18 25-52

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