Mais uma lança israelita no mundo árabe

Dois países árabes a reconhecer Israel em apenas um mês é um acontecimento histórico de rara envergadura. Primeiro foram os Emirados Árabes Unidos, agora é o Bahrein. Basta pensar que quando o Estado Judaico celebrou 70 anos, em 2018, mantinha relações diplomáticas no mundo árabe apenas com Egito e Jordânia (a Mauritânia reconheceu Israel em tempos, depois recuou) para se perceber o alcance do que está a acontecer e que é muito mais do que meras vitórias políticas de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, e de Donald Trump, o presidente americano que tem sido o seu patrono em todo o processo de normalização com os países sunitas do Médio Oriente.

Depois de Anwar al-Sadat ter assinado em 1979 o tratado de paz entre o Egito e Israel, o tabu estava quebrado: o Estado Judaico poderia ser reconhecido por um vizinho árabe mesmo estando por resolver a questão de uma pátria para os palestinianos. Depois, em 1994, foi a vez da Jordânia.

Em ambos os casos, as decisões dos governantes implicaram grande dose de coragem. No caso de Sadat, foi mesmo assassinado por fundamentalistas islâmicos dois anos depois, enquanto o rei Hussein só se terá atrevido a dar esse passo, tendo em conta a maioria de palestinianos que vivem no reino, porque um ano antes a própria OLP de Yasser Arafat tinha negociado com Israel. Havia também prémios em jogo: o Egito recuperava o Sinai, perdido para Israel na Guerra dos Seis Dias (1967), a Jordânia voltava a ganhar a confiança do Ocidente depois de ter apoiado a invasão do Koweit pelas tropas iraquianas.

Tanto no caso de Israel com o Egito como de Israel com a Jordânia os presidentes dos Estados Unidos, primeiro Jimmy Carter e depois Bill Clinton, tiveram sempre um papel-chave nas normalizações. E o mesmo está agora a acontecer com Trump, que nunca escondeu ter a ambição de pôr fim ao conflito israelo-árabe e entregou o trabalho de campo ao genro, Jared Kushner, marido de Ivanka. De uma família judia e com avós sobreviventes do Holocausto, Kushner como mediador no Médio Oriente parecia de início um mero caso de nepotismo ou na melhor das hipóteses a aposta num ingénuo bem-intencionado, mas os resultados começam a dar-lhe alguns créditos.

Com Barack Obama, já depois de Trump eleito, a dar ordem à embaixadora americana nas Nações Unidas para não vetar uma resolução a condenar os colonatos judaicos na Cisjordânia, Trump mal tomou posse foi visto como o melhor dos aliados em Israel. Afinal, os Estados Unidas voltavam a ter um presidente que é incondicional no apoio a Israel. E que via numa aliança entre israelitas e árabes sunitas a melhor das barreiras contra a expansão do poder do Irão xiita, o qual tanto Trump como Netanyahu não acreditam ter desistido de procurar a arma nuclear.

Para quem gosta de estar atento aos sinais do mundo em mudança, o voo direto de Trump da Arábia Saudita, primeiro país visitado como presidente em 2017, para Israel foi revelador. Mohammed bin Salman, filho e herdeiro do rei Salman, não só compra armamento em quantidades maciças aos Estados Unidos como compreende a estratégia americana de construção de um bloco antirregime dos ayatollahs. Depois, MBS, como é conhecido, defendeu publicamente que os israelitas têm direito a viver em paz na sua terra.

Atenção, não significa isto que a Arábia Saudita seja o próximo país árabe a reconhecer Israel. Ser guardião de Meca e Medina, as duas cidades santas do islão, obriga a pesar muito a decisão, pois a causa palestiniana continua popular nas massas muçulmanas. Mas ninguém acredita que os Emirados Árabes Unidos, grandes aliados dos sauditas, ou o Bahrein, cujo monarca sunita governa um povo de maioria xiita com ajuda militar saudita, ousassem dar o passo das relações diplomáticas sem o aval do grande irmão regional.

Em termos de aposta num próximo país árabe a iniciar a normalização de relações com Israel, além de Omã, Marrocos é um nome credível. Grande número de israelitas são oriundos de Marrocos e sempre mantiveram os laços, Hassan II e Mohammed VI sempre confiaram no judeu André Azoulay como conselheiro. E existe um ganho importantíssimo para Marrocos que poderia advir de um entendimento com Israel: o reconhecimento pelos Estados Unidos da soberania marroquina sobre o Sara Ocidental. Sabe-se que há um lobby judaico a atuar nesse sentido junto da administração Trump e que o momento é propício pois Marrocos está numa posição de força na antiga colónia espanhola, vários países africanos abriram consulados em Laayoune e a Polisário cada vez mais depende do apoio da Argélia para a sua luta independentista.

E os palestinianos nisto tudo? Primeiro que tudo são vítimas das suas divisões, Hamas a governar Gaza, Autoridade Palestiniana (no fundo a OLP ou a Fatah do falecido Arafat) a governar a Cisjordânia. Projeto islamita de um lado, projeto nacionalista laico do outro. E Mahmoud Abbas, o líder palestiniano reconhecido pela comunidade internacional, tem mostrado pouca capacidade de cativar apoio nos Estados Unidos ou de negociar com Israel, onde a direita nacionalista é dominante e pouco disponível para cedências. Com a solução de dois Estados adiada, e com qualquer outra solução impossibilitada pela demografia (é impossível um Estado Judaico democrático como o atual com uma maioria de árabes na população), Netanyahu e Trump, com o financiamento dos países sunitas do golfo Pérsico, tentam cativar os palestinianos com incentivos económicos e uma coexistência um pouco mais normal do que a existente. A prosperidade dos 20% de cidadãos israelitas que são árabes serve de chamariz, gestos de boa vontade como fechar os olhos a palestinianos que cruzaram ilegalmente a fronteira para ir neste verão à praia em Telavive são experiências pontuais.

Não se pode, porém, dizer que os governos árabes esqueceram de vez os palestinianos. Uma das condições que os Emirados Árabes Unidos impuseram para o estabelecimento de relações com Israel foi a não anexação de terras palestinianas ao abrigo do plano de Trump para acabar com o conflito herdado da década de 1940, quando as Nações Unidas propuseram dois Estados e os países árabes recusaram.

A liderança palestiniana terá de pensar em como lidar com estas movimentações diplomáticas que favorecem Israel. Cada vez mais, a solidariedade explícita com a sua causa chega apenas do Irão, país que tem dito haver adagas a cravarem-se nas costas dos palestinianos. O terrorismo, que tem sido o caminho do Hamas, não tem trazido resultados, a inércia da Autoridade Palestiniana, embora compreensível, também não.

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